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Zequinha de Abreu: biografia, obras e importância no choro

Zequinha de Abreu foi compositor e instrumentista brasileiro, autor de Tico-tico no Fubá e outros clássicos do choro, valsa e música popular urbana.

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Introdução

José Gomes de Abreu, conhecido como Zequinha de Abreu (Santa Rita do Passa Quatro, 19 de setembro de 1880 – São Paulo, 22 de janeiro de 1935), foi compositor, instrumentista e regente, e ocupa lugar importante na história da música popular urbana brasileira. Embora seu nome permaneça ligado quase automaticamente a Tico-tico no Fubá, sua relevância para o choro é mais ampla: sua obra ajuda a ligar o universo das bandas do interior paulista, a música de salão, o piano popular e o repertório que mais tarde se fixaria como clássico do gênero.

Reduzi-lo ao autor de um único sucesso seria empobrecer seu catálogo. As fontes de referência registram um compositor de produção extensa, com choros, valsas, tangos, maxixes, marchas e sambas. O retrato que emerge daí é o de um autor profundamente integrado à prática musical de seu tempo — e não apenas o criador de um êxito isolado.


Formação e Contexto Musical

A formação de Zequinha começou ainda na infância, em contato com a vida musical do interior paulista. Ele estudou em São Simão, onde iniciou o aprendizado musical com Dionísio Machado; depois passou pelo Colégio São Luís, em Itu, tocou ocarina em conjunto familiar e estudou harmonia com José Basílio. Mais tarde, no Seminário Episcopal de São Paulo, continuou os estudos com José Pinto Tavares e o padre Juvenal Kelly. Essa base explica a solidez técnica de um compositor que transitou com naturalidade entre prática popular, escrita musical e atuação como regente.

De volta a Santa Rita do Passa Quatro, Zequinha trabalhou na farmácia do pai, mas retomou rapidamente a vida musical, organizando conjuntos como a Lira Santarritense e a Orquestra Smart, ligada ao cinema local. Já nesse período compunha valsas, choros, tangos e maxixes para animar festas, bailes e exibições de filmes mudos. Na virada para os anos 1920, mudou-se para São Paulo e ampliou seu raio de ação como pianista da Casa Beethoven e de casas noturnas e salões, levando sua música para um circuito urbano mais amplo e comercialmente dinâmico.


Estilo Musical

O catálogo de Zequinha revela um compositor à vontade em vários gêneros da música popular urbana do período. Há nele uma presença forte de valsas e choros, mas também tangos, maxixes, marchas e sambas. Esse dado é importante porque mostra que sua escrita nasceu num ambiente em que as fronteiras entre gêneros eram mais porosas, e em que o mesmo autor podia escrever para piano, banda, pequenos conjuntos e uso doméstico de partitura sem se prender a uma etiqueta única.

No choro: as peças mais conhecidas sugerem gosto por linhas melódicas muito nítidas, pulsação viva e efeito de brilho instrumental — qualidades que ajudaram obras como Tico-tico no Fubá, Não me Toques, Sururu na Cidade e Os Pintinhos no Terreiro a permanecerem no repertório.

Na valsa: aparece um Zequinha mais lírico, de apelo cantável e sentimental, perceptível em títulos como Branca, Tardes em Lindóia, Elza, Súplicas de Amor e Só pelo Amor Vale a Vida.

Em conjunto, sua obra equilibra comunicação imediata e forte acabamento melódico — duas qualidades que explicam por que atravessou o século e segue viva entre músicos, pesquisadores e ouvintes.


Obras Importantes

Título Gênero Observações
Tico-tico no Fubá Choro-polca Composto em 1917; uma das músicas brasileiras de maior circulação internacional. Presente em filmes norte-americanos (1944) e interpretada por Carmen Miranda em Copacabana (1947).
Branca Valsa Um de seus maiores sucessos, com permanência discográfica ao longo de décadas; frequentemente citada ao lado de Tico-tico no Fubá como título central de seu catálogo.
Não me Toques Choro Uma das peças mais representativas de seu estilo no gênero; presença constante no repertório.
Sururu na Cidade Choro Obra de caráter vivo e comunicativo, associada de modo duradouro ao seu nome.
Os Pintinhos no Terreiro Choro Outro clássico de seu catálogo chorístico, de forte apelo melódico.
Tardes em Lindóia · Elza · Súplicas de Amor · Só pelo Amor Vale a Vida Valsas Conjunto de valsas que demonstra o lado mais lírico e sentimental de sua produção.
Bafo de Onça Maxixe Exemplo da circulação de sua obra por gêneros vizinhos ao choro.
Patinando Marcha Representativa de sua produção fora dos gêneros principais.
Pé de Elefante Samba Mostra a amplitude de seu catálogo além do choro e da valsa.

Exemplo Musical

Tico-tico no Fubá é a porta de entrada mais imediata para o universo de Zequinha de Abreu — e também a mais reveladora de seu estilo no choro. A peça reúne linha melódica muito nítida, pulsação viva e brilho instrumental que a distinguem imediatamente de uma polca europeia tocada à letra. É a mesma síncopa e o mesmo "sotaque brasileiro" que definem o choro, entregues numa embalagem de comunicação extraordinária.

Mas a escuta de Branca é igualmente necessária para completar o retrato do compositor. Ali aparece o outro lado de Zequinha: o lirismo da valsa, o fraseado longo e cantável, a expressividade sentimental que explica por que seu nome sobreviveu também fora dos circuitos especializados. Os dois títulos juntos mostram que sua música tinha alcance amplo — virtuosismo risonho e lirismo acessível numa mesma obra.


Influências e Relações

Formação e circulação no interior paulista:

  • Dionísio Machado, José Basílio, José Pinto Tavares, padre Juvenal Kelly — Mestres que formaram a base técnica de Zequinha ao longo de sua educação musical em São Simão, Itu e São Paulo.
  • Lira Santarritense e Orquestra Smart — Conjuntos que organizou em Santa Rita do Passa Quatro, onde desenvolveu sua prática como compositor e regente antes de se mudar para a capital.

Circulação fonográfica e projeção de Tico-tico no Fubá:

  • Orquestra Colbaz — Responsável pela primeira gravação registrada da peça, em 1931, pela Columbia.
  • Ademilde Fonseca — Gravou Tico-tico no Fubá em 1942, com versos de Eurico Barreiros, contribuindo para a difusão da versão cantada.
  • Ervin Drake — Autor da letra em inglês utilizada nas versões norte-americanas a partir de 1944.
  • Carmen Miranda e Aloysio de Oliveira — Responsáveis pela interpretação no filme Copacabana (1947), que levou a peça a audiências internacionais amplas.
  • Roberta Sá — Interpretou Tico-tico no Fubá na cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016 — exemplo da longevidade da obra como signo reconhecível de brasilidade musical.

Legado

O lugar de Zequinha de Abreu no choro não depende apenas do fenômeno mundial de Tico-tico no Fubá. Sua importância está também em representar uma etapa decisiva da música popular urbana brasileira em que bandas do interior, piano de salão, mercado de partituras, dança e circulação fonográfica ainda conversavam intensamente entre si. Sua obra documenta esse encontro e mostra como o choro podia nascer e ganhar forma também fora do eixo carioca estrito, sem perder densidade musical nem força de permanência.

Zequinha deve ser lembrado não apenas como o autor de um choro célebre, mas como um compositor que ajudou a consolidar uma linguagem brasileira de enorme apelo melódico, grande flexibilidade instrumental e forte capacidade de circulação. Em seu catálogo convivem o virtuosismo risonho do choro e o lirismo da valsa — duas faces que explicam por que sua música atravessou o século e segue viva entre músicos, pesquisadores e ouvintes.


Fontes

  • Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — Verbete "Zequinha de Abreu". Fonte principal para dados biográficos, trajetória geral e avaliação de Branca como título central do catálogo.
  • Instituto Casa do Choro — Verbete e catálogo de obras de Zequinha de Abreu. Fonte central para a formação musical, cronologia da carreira e circulação do repertório.
  • Música Brasilis — Ficha do compositor e partitura de Tico-tico no Fubá. Referência para dados do catálogo e preservação das partituras.
  • Discografia Brasileira / Instituto Moreira Salles — Registro fonográfico de Tico-tico no Fubá, incluindo a gravação da Orquestra Colbaz (1931, Columbia).
  • Rádio Batuta / Instituto Moreira Salles — Playlist e contextualização histórica de Tico-tico no Fubá, incluindo a reapresentação nos Jogos Olímpicos do Rio de 2016.

Nota editorial: este verbete evita a formulação absoluta de que Tico-tico no Fubá seria "a música brasileira mais gravada do mundo". As fontes consultadas sustentam com mais segurança a formulação de que ela é uma das músicas brasileiras mais gravadas e de maior circulação internacional.

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