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Viriato Figueira da Silva – Flautista, compositor e pioneiro do saxofone no Brasil

Viriato Figueira da Silva foi flautista, compositor e um dos primeiros solistas de saxofone no Brasil, ligado à primeira geração do choro. Conheça sua obra, como 'Só para Moer', e seu legado.

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Introdução

Viriato Figueira da Silva (Macaé, c. 1851 – Rio de Janeiro, 24 de abril de 1883) foi um flautista, compositor, regente e pioneiro do saxofone no Brasil, ligado à primeira geração de músicos que ajudou a formar a linguagem do choro no Rio de Janeiro imperial. Natural de Macaé, no estado do Rio de Janeiro, atuou na capital do Império em um momento decisivo para a música urbana brasileira, quando polcas, quadrilhas, valsas, lundus e tangos brasileiros começavam a ser tocados com uma inflexão local, marcada pela síncope, pela ornamentação, pela oralidade e pelo virtuosismo dos instrumentistas populares.


Formação e Contexto

Viriato pertenceu ao ambiente musical da segunda metade do século XIX, quando o Rio de Janeiro reunia teatro musicado, bandas, salões, sociedades recreativas, saraus, bailes, festas públicas e rodas informais de músicos. Esse mundo não separava de maneira rígida o músico "erudito" do músico "popular". Um mesmo instrumentista podia tocar em teatro, acompanhar dança, participar de banda, reger conjuntos, lecionar e circular nas práticas que mais tarde seriam reconhecidas como choro.

Viriato estudou no Conservatório de Música do Rio de Janeiro com Joaquim Callado, de quem se tornou grande amigo. Essa proximidade é fundamental, pois Callado é uma figura central no processo de formação do choro, tanto pela atuação como flautista quanto pela fixação de um modelo instrumental em que a flauta dialogava com violões e cavaquinho. Viriato surge, portanto, não como personagem periférico, mas dentro do núcleo mais antigo da chamada velha guarda dos chorões.

Após a morte de Callado, Viriato tornou-se o principal flautista de sua geração. Tocava em teatros, lecionava em casas particulares e participou de festas abolicionistas, oferecendo gratuitamente sua arte em favor da causa.


Atuação Artística

Viriato integrou a Orquestra do Teatro Fênix Dramática, do Rio de Janeiro, sob direção do maestro Henrique Alves de Mesquita. Em 1866, essa orquestra se apresentou em São Paulo, no Teatro São José. Esse dado é importante porque mostra Viriato inserido no circuito profissional da música teatral do Império, não apenas nas rodas informais.

Além da flauta, Viriato foi um dos primeiros músicos a se destacar no Brasil como solista de saxofone. O saxofone era, então, um instrumento relativamente novo no circuito musical brasileiro.

Sua atuação também se cruzou com o movimento abolicionista. Teve participação marcante nas Conferências Emancipadoras, inclusive como regente da Banda dos Cigarreiros de Niterói. Viriato era um flautista mestiço que atuou ao lado de outros músicos negros e mestiços no ambiente musical e político do período, como Henrique Alves de Mesquita, Joaquim Callado e Horácio Fluminense.

Pedro de Assis registrou uma turnê artística de Viriato pelas capitais do Norte, realizada com grande êxito, seguindo o exemplo do flautista belga André Reichert.


Obras e Repertório

A obra de Viriato sobrevive de forma fragmentária, por meio de partituras, manuscritos, reedições, registros fonográficos posteriores e referências em acervos. São conhecidas 16 obras associadas ao compositor, entre elas "É Segredo", "Então, Não É!", "Eufrasia", "Flor da Noite", "Gratidão", "Lucinda", "Macia", "Perpétua", "Polca em Dó nº 1", "Polca em Dó nº 2", "Saudade de São João do Príncipe", "Só para Moer" e "Uma Dor". Há dúvida quanto à autoria de "Uma Dor", cuja melodia seria idêntica à da polca "Saudosa", de Joaquim Callado.

Sua composição mais conhecida é "Só para Moer", polca editada em 1877 por José Maria Alves da Rocha e posteriormente por Artur Napoleão. A obra permaneceu no repertório dos chorões e ganhou longa circulação fonográfica. Existem cópias para piano, flauta, melodia, cifra e arranjos de Maurício Carrilho.

Patápio Silva gravou "Só para Moer" pela Odeon em 1904, com acompanhamento de piano. A peça recebeu posteriormente letra de Catulo da Paixão Cearense e passou a circular também como "Não Vê-la Mais", gravada por Bahiano em 1912. Aqui se vê um processo comum na música brasileira do período: uma peça instrumental de dança ganha novo destino como canção, atravessando suportes, intérpretes e mercados musicais diferentes.


Estilo Musical e Importância para o Choro

Viriato escreveu principalmente dentro do universo das danças urbanas do século XIX, sobretudo a polca. No entanto, o valor histórico de sua obra não está apenas no gênero indicado nas partituras, mas na forma como esse repertório se articulou com a linguagem nascente do choro. No século XIX, a polca ainda não era "choro" como gênero plenamente consolidado, mas fazia parte da árvore genealógica do choro, como uma das danças europeias abrasileiradas pela prática dos músicos cariocas.

Em "É Segredo", a análise destaca o uso de passagens cromáticas, a organização formal em seções contrastantes e a relação tonal entre partes, aspectos que aproximam a peça do repertório instrumental que seria cultivado pelos chorões. São conhecidas seis versões escritas da obra, todas descritas como polca, mas essa classificação era muitas vezes genérica diante da variedade de práticas que se abrigavam sob o mesmo nome.

O caso de "É Segredo" também ajuda a entender um ponto essencial do choro: a partitura não conta a história inteira. Em um manuscrito, aparecem indicações como "vagarosa" e "expressivo", sugerindo caráter e intenção interpretativa. Comparações entre gravações de Odette Ernest Dias e Andrea Ernest mostram como andamento, articulação, rubato, dinâmica, sonoridade e ornamentação participam da comunicação da peça. Ou seja, em Viriato, como em tantos chorões do século XIX, a obra vive entre papel, memória, gesto e performance.


Obras Selecionadas

Título Gênero Observações
Só para Moer Polca Editada em 1877. Gravada por Patápio Silva (Odeon, 1904).
É Segredo Polca Seis versões manuscritas conhecidas.
Macia Polca
Então, Não É! Polca
Eufrasia Polca
Perpétua Polca
Polca em Dó nº 1 Polca
Polca em Dó nº 2 Polca
Caiu! Não Disse? Polca
Carolina Polca
Flor da Noite Quadrilha
Gratidão Quadrilha
Lucinda Quadrilha
Saudade de São João do Príncipe Choro
Não Vê-la Mais Canção Derivada de "Só para Moer", com letra de Catulo da Paixão Cearense.

Legado

O legado de Viriato Figueira da Silva está em três frentes principais. A primeira é instrumental: ele foi um dos flautistas mais respeitados da geração posterior a Callado e um nome relevante na consolidação da flauta como voz solista no choro. A segunda é repertorial: peças como "Só para Moer", "Macia" e "É Segredo" ajudam a compreender o repertório de transição entre as danças de salão oitocentistas e a linguagem chorona. A terceira é histórica: sua atuação em teatros, bandas, salões, rodas e eventos abolicionistas mostra como o choro nasceu dentro de uma vida musical urbana, mestiça, profissional, popular e politicamente atravessada.

Sua obra foi retomada em projetos de pesquisa e gravação, como a coleção Princípios do Choro, lançada pela Acari Records/Biscoito Fino, que registrou peças de compositores do século XIX e início do século XX. "Uma Dor" e outras cinco polcas de Viriato foram gravadas nessa coleção. Suas composições aparecem também em discos como Choros Amorosos, Choros Imortais nº 2, Choros, por que sax?, Memórias Musicais: Patápio Silva e Princípios do Choro.

Viriato deve ser entendido, portanto, não apenas como autor de "Só para Moer", mas como um dos elos decisivos da linhagem de flautistas-compositores que preparou o terreno para o choro. Sua história ainda pede mais pesquisa, especialmente em periódicos, acervos de partituras e documentos civis. Mas o que já sabemos é suficiente para recolocá-lo no centro da formação da música urbana brasileira: um flautista de alto prestígio, compositor de polcas que continuaram vivas no repertório, músico ligado ao universo teatral e participante de causas públicas no fim do Império.


Fontes

  • Instituto Casa do Choro — Verbete biográfico e catálogo de 16 obras associadas ao compositor, incluindo partituras e arranjos de Maurício Carrilho. Disponível em: casadochoro.com.br
  • Instituto Moreira Salles / Discografia Brasileira — Registros fonográficos de "Só para Moer" por Patápio Silva (Odeon, 1904) e "Não Vê-la Mais" por Bahiano (1912). Disponível em: ims.com.br
  • Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — Verbete biográfico de Viriato Figueira da Silva, com cronologia e obras. Disponível em: dicionariompb.com.br
  • ABEM (Associação Brasileira de Educação Musical) — Estudo sobre a participação de Viriato nas Conferências Emancipadoras e sua atuação como regente da Banda dos Cigarreiros de Niterói.
  • SciELO Books — Levantamento sobre músicos ativos no Rio de Janeiro oitocentista, com referência a Ary Vasconcelos.
  • CARRILHO, Maurício. Coleção Princípios do Choro. Acari Records/Biscoito Fino. — Gravações de seis polcas de Viriato.

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