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Subgêneros do choro: polca, maxixe, valsa e mais

Explore os subgêneros do choro como polca, maxixe, valsa, schottisch, lundu, samba-choro e varandão. Entenda suas origens históricas e características rítmicas.

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Oficinainscricoes crédito Tom Silveira5


O choro não se formou como um gênero isolado e fechado, mas como uma linguagem urbana brasileira construída pela apropriação, transformação e reelaboração de diversas musicalidades que circularam no país entre os séculos XIX e XX. Polca, valsa, schottisch, lundu, habanera, modinha, tango brasileiro e, posteriormente, outras inflexões rítmicas e expressivas passaram a conviver no repertório dos chorões, sendo absorvidas por um mesmo sotaque instrumental.

Por isso, ao tratar dos chamados "subgêneros do choro", é preciso reconhecer que nem sempre estamos diante de divisões rígidas. Muitas vezes, trata-se de famílias rítmico-estilísticas, categorias de repertório ou modos de tocar que coexistem no interior da tradição do choro.


Subgênero, forma ou levada?

No universo do choro, essas três noções frequentemente se cruzam. Em alguns casos, o nome designa um gênero histórico de dança ou canção, como polca, valsa ou schottisch. Em outros, designa sobretudo uma maneira de acompanhar — uma levada —, como ocorre em certos usos do varandão ou do choro-sambado. Há ainda o plano da forma, ligado à organização das seções e à arquitetura do repertório.

Por isso, uma mesma peça pode ser entendida ao mesmo tempo por sua forma, por sua origem histórica e pela levada que a caracteriza na prática instrumental.

O uso de "subgêneros do choro" é válido, desde que se compreenda sua flexibilidade. Em vez de compartimentos fixos, o termo aponta para diferentes matrizes e inflexões que participam da linguagem do choro.


Polca e polca-choro

A polca ocupa um lugar central na formação histórica do choro. Introduzida no Brasil no século XIX como dança de salão em compasso binário, foi progressivamente abrasileirada pelos músicos populares. Em contato com matrizes afro-brasileiras — especialmente o lundu —, deixou de ser apenas uma dança importada e passou a funcionar como matéria-prima para a formação de uma linguagem urbana brasileira.

A expressão polca-choro descreve essa zona de transição. Ela se aplica a peças em que ainda se reconhece a identidade histórica da polca, mas cuja interpretação, fraseado, acompanhamento e balanço já pertencem claramente ao universo do choro. O próprio testemunho atribuído a Pixinguinha — "naquele tempo, tudo era polca" — mostra como esses rótulos eram historicamente fluidos.


Maxixe, choro-maxixe e tango brasileiro

O maxixe é uma das matrizes decisivas da música popular urbana brasileira do fim do século XIX e início do XX. Descrito como dança fortemente sincopada e ligada a contextos populares urbanos, está associado à transformação da polca em contato com o lundu, o batuque e outras práticas afro-brasileiras.

Nesse contexto, o tango brasileiro aparece muitas vezes como categoria próxima, em certos casos funcionando quase como uma forma estilizada ou socialmente legitimada do mesmo fenômeno rítmico. Já o termo choro-maxixe é útil para indicar obras ou execuções em que a linguagem do choro se combina com o impulso rítmico e o caráter dançante do maxixe. Mais do que fronteiras fixas, há aqui um campo de forte continuidade histórica e estilística.


Valsa e valsa-choro

A valsa representa a principal presença ternária dentro do universo do choro. Embora seja um gênero europeu, sua difusão no Brasil foi ampla, atravessando repertórios eruditos e populares e tornando-se parte importante das rodas e dos conjuntos de choro.

A expressão valsa-choro não costuma indicar um gênero histórico autônomo, mas antes uma maneira de tocar valsa com linguagem de choro. Ornamentação, baixarias, condução de acompanhamento, convenções do regional e inflexões de fraseado aproximam essas valsas do universo chorístico, mesmo quando o acervo ou o catálogo as registra simplesmente como "valsa".


Schottisch, xote e xótis

O schottisch — que no Brasil também aparece como xote ou xótis — é mais um exemplo de dança europeia absorvida e reelaborada no ambiente musical brasileiro. Em compasso binário e próximo da polca em vários aspectos, passou a integrar o repertório popular e aparece também no universo do choro como uma de suas formas históricas de repertório.

No contexto chorístico, o schottisch importa menos como peça exótica do passado e mais como um dos gêneros conformadores da linguagem. Sua presença mostra que o choro sempre se constituiu a partir de um campo amplo de danças e canções instrumentalizadas por um mesmo modo de tocar.


Lundu como matriz

O lundu ocupa posição fundamental na genealogia do choro. Mais do que um gênero específico, ele funciona como matriz rítmica, corporal e cultural da música popular brasileira urbana. Associado a origens africanas e afro-diaspóricas, influenciou decisivamente os processos de abrasileiramento de gêneros europeus e a formação do balanço característico que depois se consolidaria no choro.

Por isso, ao se falar em subgêneros do choro, o lundu deve ser entendido em dupla chave: como gênero de repertório e como uma das bases profundas da linguagem rítmico-estilística do choro.


Samba-choro e choro-sambado

Os termos samba-choro e choro-sambado ajudam a nomear a aproximação entre a linguagem do choro e paradigmas rítmicos do samba, sobretudo a partir das transformações ocorridas nas primeiras décadas do século XX.

O samba-choro costuma designar peças em que elementos do samba e do choro se fundem de maneira mais equilibrada, seja na base rítmica, seja no caráter dançante ou na linguagem instrumental. Já o choro-sambado costuma indicar, com mais precisão, um tipo de choro cuja levada e acentuação se aproximam do samba. Essa distinção faz sentido historicamente, já que a documentação sobre o choro aponta mudanças importantes no acompanhamento e na pulsação rítmica do regional ao longo do século XX, com maior presença da batucada do samba em relação a paradigmas anteriores ligados ao maxixe.


Samba-canção e choro-canção

O samba-canção pertence mais amplamente ao campo da canção popular brasileira, mas interessa aqui por representar um eixo lírico e melódico que dialoga com o ambiente expressivo do choro. Seu andamento mais repousado e sua ênfase melódico-harmônica mostram uma vertente menos dançante e mais cantabile da música urbana brasileira.

Já o choro-canção é uma categoria diretamente ligada ao próprio universo do choro. Em materiais pedagógicos e em acervos, aparece como rótulo para obras de caráter mais lírico, cantável e expressivo, frequentemente menos virtuosístico e menos percussivo que outras modalidades do repertório. Trata-se de uma inflexão interna do choro, em que a cantabilidade da melodia e a expressividade do fraseado ganham maior relevo.


Varandão e choro-varandão

O varandão — ou choro-varandão — é um caso particularmente revelador da flexibilidade classificatória do choro. Diferentemente de polca, valsa ou schottisch, ele não se impõe sobretudo como gênero histórico do século XIX, mas como termo de prática, associado a uma levada, a um caráter e a um determinado modo de condução rítmica.

Na literatura ligada à prática instrumental e ao ensino, o varandão aparece relacionado a choros de andamento moderado, sensação mais assentada e acompanhamento frequentemente mais desenhado ou arpejado. Seu valor classificatório é menos o de nomear uma forma histórica e mais o de descrever um tipo de condução e ambiência musical. Isso mostra, de maneira exemplar, que no choro certos "subgêneros" se definem menos pela origem formal da peça e mais pelo comportamento da performance.


Considerações finais

Falar em subgêneros do choro é útil, desde que se evite uma taxonomia rígida demais. No choro, os nomes podem designar um gênero de dança, uma matriz histórica, uma categoria de catálogo, um caráter expressivo ou uma levada de acompanhamento. Polca, maxixe, valsa, schottisch, lundu, samba-choro, choro-sambado, choro-canção e varandão pertencem a esse universo móvel, em que forma, prática instrumental, história social e escuta coletiva se entrelaçam.

Talvez seja mais preciso dizer que o choro abriga famílias rítmico-estilísticas do que subgêneros inteiramente fechados. Mas justamente aí está sua riqueza: o choro não é uma gaveta única, e sim uma constelação de modos de tocar, acompanhar, compor e sentir.

Como todo panorama desta natureza, este verbete pode ser ampliado e aprofundado. Ainda assim, oferece uma base sólida para compreender as principais matrizes e inflexões que participam da tradição do choro.


Referências

  • Instituto Casa do Choro — acervo de partituras e classificações de repertório.
  • Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — verbetes relativos a choro, polca, maxixe, tango brasileiro, valsa, schottisch, lundu e modinha.
  • Documentação oficial do processo de registro do choro como patrimônio cultural imaterial do Brasil, com discussão sobre matrizes históricas, formação instrumental, forma e levada.

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