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Sátiro Bilhar: violonista e compositor do choro

Conheça a vida e a obra de Sátiro Bilhar, violonista cearense que marcou o choro com suas variações e a composição Tira Poeira.

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Introdução

Sátiro Lopes de Alcântara Bilhar, conhecido como Sátiro Bilhar ou Satyro Bilhar (Baturité, Ceará, 27 de fevereiro de 1860 – Rio de Janeiro, 23 de outubro de 1926), foi violonista, pianista e compositor brasileiro.

Ligado às primeiras gerações de chorões do Rio de Janeiro, Sátiro viveu em uma época em que o choro ainda se formava nas serenatas, bailes e encontros de músicos. Conviveu com nomes como João Pernambuco, Quincas Laranjeiras, Catulo da Paixão Cearense, Donga e Villa-Lobos.

Sua importância para o choro está menos na quantidade de composições que deixou e mais em sua maneira de tocar. Sátiro ficou conhecido pela capacidade de transformar uma mesma música a cada execução, modificando harmonias, ritmos, acompanhamentos e baixarias.


O violão e os chorões antigos

Sátiro Bilhar fez parte do ambiente musical carioca do final do século XIX e das primeiras décadas do século XX, período decisivo para a formação do choro.

Durante o dia, trabalhava como funcionário da Estrada de Ferro Central do Brasil. Fora do expediente, circulava entre músicos, poetas, serenatistas e boêmios, participando de rodas, bailes e encontros musicais.

Era uma realidade comum entre os primeiros chorões. Muitos não viviam exclusivamente da música e transitavam entre empregos formais e uma intensa atividade musical.

Nesse ambiente, Sátiro tornou-se especialmente conhecido como violonista. Seu instrumento criava baixos, modificava acordes, respondia às melodias e transformava a música enquanto tocava.

Essa liberdade de interpretação seria uma das características fundamentais do violão de choro.


A arte de variar

Uma das histórias mais conhecidas sobre Sátiro foi contada por Donga.

Segundo ele, Sátiro não precisava de um repertório enorme para dominar um baile. Tocava poucas músicas, mas conseguia transformá-las tantas vezes que pareciam sempre novas.

Podia apresentar uma peça como choro e depois transformá-la em valsa, modificar a harmonia, inventar novas passagens ou mudar completamente o acompanhamento.

Daí surgiu a frase atribuída a Donga de que “com quatro músicas ele acabava com o baile”.

A história ajuda a entender algo importante sobre os primeiros tempos do choro. A música não era tratada como uma execução fixa da partitura. O intérprete precisava saber criar sobre ela.

Em Sátiro, variar era parte da composição.


Sátiro e a formação do choro

Sátiro Bilhar pertence a uma geração anterior às grandes gravações de choro e à consolidação de um repertório hoje considerado clássico.

Naquele período, a palavra choro estava ligada não apenas às composições, mas também à maneira de tocar e ao próprio encontro entre os músicos.

Polcas, valsas, lundus, modinhas e maxixes podiam fazer parte da mesma noite. O chorão precisava conhecer esses gêneros e ser capaz de acompanhá-los, transformá-los e responder aos outros músicos.

Sátiro representa exatamente essa tradição.

Sua capacidade de reharmonizar melodias, criar baixarias e mudar o caráter de uma peça mostra como boa parte da linguagem do choro foi construída oralmente, dentro das rodas, antes de ser preservada por partituras e gravações.

Por isso, sua história ajuda a compreender o choro como uma maneira brasileira de tocar.


Tira Poeira

A composição mais conhecida de Sátiro Bilhar é Tira Poeira, choro que atravessou o século XX e permaneceu no repertório dos instrumentistas.

A peça ganhou especial projeção através das interpretações de Jacob do Bandolim, ajudando a manter o nome de Sátiro presente entre gerações posteriores de chorões.

Tira Poeira também oferece uma ligação direta com aquele universo musical mais antigo. Sua construção permite variações, mudanças de articulação e diálogo constante entre melodia, harmonia e acompanhamento.

É uma música que convida o intérprete a fazer justamente aquilo pelo qual Sátiro ficou conhecido: não tocar duas vezes da mesma maneira.


Catulo e a música popular carioca

Sátiro também esteve próximo do universo das modinhas e canções populares.

Com Catulo da Paixão Cearense, um dos personagens centrais da vida musical carioca daquele período, aparece associado à canção As ondas são anjos que dormem no mar.

Outra composição, Gosto de ti porque gosto, circulou como modinha e lundu e chegou às primeiras décadas da indústria fonográfica em gravações de intérpretes como Cadete e Mário Pinheiro.

Essa circulação entre choro, lundu, modinha e maxixe era comum entre os músicos de sua geração e mostra como esses gêneros estavam muito mais próximos entre si do que as classificações atuais podem sugerir.


Obras importantes

Entre as composições associadas a Sátiro Bilhar estão:

  • Tira Poeira
  • Gosto de ti porque gosto
  • Gosto!
  • As ondas são anjos que dormem no mar, com Catulo da Paixão Cearense
  • Estudo de harpa
  • O que vejo em teus olhos
  • Tu és uma estrela

Grande parte de sua produção não chegou até nós, e sua obra conhecida é pequena quando comparada à de outros compositores do período.

Sua influência, porém, não pode ser medida apenas pelo número de partituras preservadas.

Sátiro pertence a uma geração na qual boa parte da música existia no momento da execução e era transmitida diretamente entre os músicos. Muito do que ele criou pode ter desaparecido justamente porque estava nas variações, nos acompanhamentos e nas soluções inventadas durante as rodas.


A importância de Sátiro para o choro

Sátiro Bilhar morreu no Rio de Janeiro em 23 de outubro de 1926.

Não existem gravações conhecidas de seu próprio violão. O que sabemos sobre sua maneira de tocar chegou principalmente através de depoimentos de músicos que conviveram com ele e das poucas composições que sobreviveram.

Ainda assim, seu nome permanece importante para a história do choro.

Sátiro representa uma época em que o chorão não era apenas alguém capaz de executar uma música. Era preciso acompanhar, improvisar, criar baixarias, alterar harmonias e reagir aos outros músicos.

Nesse sentido, sua trajetória ajuda a revelar uma das características que continuam no centro do choro até hoje: a música escrita é apenas o começo.

Entre a partitura e a roda existe um espaço de invenção. E foi justamente nesse espaço que Sátiro Bilhar se tornou um dos personagens mais marcantes da velha guarda do choro.


Registros de referência

  • Gosto de ti porque gosto – gravação de Cadete, Odeon.
  • Gosto de ti porque gosto – gravação de Mário Pinheiro, como lundu.
  • Tira Poeira – gravações de Jacob do Bandolim e de outros intérpretes ao longo do século XX.

Fontes

  • Instituto Casa do Choro – acervo, biografia e catálogo de obras de Sátiro Bilhar.
  • Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira – verbete biográfico e documentação sobre sua obra.
  • Instituto Moreira Salles – documentação sobre Sátiro Bilhar, Donga e os primeiros chorões.
  • Discografia Brasileira – registros fonográficos das composições de Sátiro Bilhar.
  • Música Brasilis – documentação complementar sobre Sátiro Bilhar e sua família.

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