Choropedia
Raul de Barros: trombonista e compositor do choro brasileiro
Raul de Barros foi um trombonista e compositor brasileiro que consolidou o trombone como instrumento solista no choro, autor do clássico Na Glória.

Introdução
Raul Nogueira Machado de Barros (Rio de Janeiro, 25 de novembro de 1915 – Itaboraí, 8 de junho de 2009) foi trombonista, compositor e regente, e ocupa lugar importante na história da música popular brasileira e do choro. Reconhecido como um dos grandes trombonistas brasileiros, seu nome ficou ligado ao célebre choro Na Glória, peça que se tornou sua assinatura artística.
Seu caso é especialmente interessante porque Raul de Barros ajudou a firmar o trombone como voz plenamente reconhecível dentro do universo do choro, da gafieira, do rádio e das orquestras populares. Em vez de aparecer apenas como instrumento de apoio ou cor de arranjo, o trombone em suas mãos ganhou presença de solista, balanço de pista e identidade própria. Essa posição explica por que sua obra atravessa ao mesmo tempo o repertório instrumental, a dança e a memória radiofônica brasileira.
Formação e Contexto Musical
Raul de Barros iniciou seus estudos musicais nos anos 1930, primeiro no sax-horn, com Ivo Coutinho, e depois no trombone, com Eugênio Zanata. A partir de 1935 começou a tocar em clubes de bairros e subúrbios do Rio de Janeiro e, mais tarde, trabalhou nos dancings Carioca e Eldorado. Foi nesse circuito de dança, baile e rádio que sua linguagem musical se consolidou.
Sua carreira se expandiu quando passou pela Rádio Tupi, depois pela Rádio Globo — onde formou sua própria orquestra para o programa Trem da Alegria —, e mais tarde pela Rádio Nacional, onde chegou a apresentar programa semanal. Esse percurso mostra que Raul pertenceu a uma geração de músicos para os quais o choro não vivia isolado, mas em diálogo constante com o rádio, os salões, as gravações comerciais e as orquestras populares.
Estilo Musical
A importância de Raul de Barros no choro se liga diretamente ao modo como seu trombone combinava fraseado instrumental, impulso rítmico e comunicação imediata.
O trombone como voz solista: em vez de aparecer apenas como suporte harmônico ou cor de arranjo, o trombone de Raul ganhou presença de protagonista dentro do choro. Esse reposicionamento do instrumento é sua contribuição mais original — e mais duradoura — ao vocabulário do gênero.
Choro e gafieira: Na Glória, gravada em 1949, foi descrita como "um clássico das pistas de dança" — observação precisa porque a peça condensa bem sua linguagem: é choro, mas um choro com forte vocação coreográfica, espírito de gafieira e impacto popular imediato.
Discografia como retrato de estilo: seus discos e gravações passam por títulos como Trombone Zangado, Raul de Barros com o seu Trombone Romântico, Raul de Barros Toca para Dançar e, já na metade dos anos 1970, Brasil, Trombone. O conjunto desses registros projeta um músico que soube unir virtuosismo, apelo dançante e personalidade tímbrica muito nítida.
Obras Importantes
| Título | Observações |
|---|---|
| Na Glória | Parceria com Ari dos Santos; gravada em 15 de junho de 1949 com Raul de Barros e seu regional. Composta quando Raul e Ari eram colegas de orquestra no Dancing Eldorado, na Praça Tiradentes; alude ao bairro da Glória, no Rio de Janeiro. Clássico das pistas de dança e peça mais conhecida de seu catálogo. |
| O Pobre Vive de Teimoso · Malabarista (Donga) | Gravados em 1948, no primeiro disco solo ao trombone de Raul de Barros. |
| Pororó...pororó · Gilda · Melodia Celestial | Composições e gravações representativas de sua produção ao longo dos anos 1940 e 1950. |
Exemplo Musical
Na Glória é a porta de entrada mais natural para o universo de Raul de Barros — e também a mais reveladora de seu lugar no choro. Ao ouvi-la, o que chama atenção não é apenas a melodia, mas o modo como o trombone a conduz: com peso, humor e uma maleabilidade rítmica que não se espera do instrumento. É essa combinação de brilho, malícia e vocação dançante que fez da peça um clássico ao mesmo tempo do choro e da gafieira — e que explica por que o nome de Raul de Barros continua associado a ela décadas depois de sua gravação.
Influências e Relações
Formação e contexto:
- Ivo Coutinho — Primeiro mestre de Raul, no sax-horn, nos anos 1930.
- Eugênio Zanata — Professor de trombone; base técnica de sua trajetória como instrumentista.
- Dancing Carioca e Dancing Eldorado — Ambientes de formação prática onde sua linguagem musical se consolidou no circuito de dança e baile carioca.
Circulação profissional:
- Rádio Tupi, Rádio Globo e Rádio Nacional — Estações onde construiu sua presença como solista e líder de orquestra, com programas próprios e atuação regular.
- Ari dos Santos — Parceiro na composição de Na Glória, colega de orquestra no Dancing Eldorado.
- Ary Vasconcelos — Em 1955, promoveu concurso na revista O Cruzeiro no qual Raul foi eleito o melhor trombonista.
Gravações de referência:
- Cartola — Raul de Barros aparece creditado no trombone em Corra e Olhe o Céu, no álbum Cartola (1974), ao lado de Dino 7 Cordas, Canhoto, Meira, Copinha, Jorginho do Pandeiro, Wilson Canegal, Marçal e Gilberto d'Ávila, com arranjo de Dino 7 Cordas. Esse crédito provém de discografia crítica posterior, não da ficha técnica original do encarte, e deve ser lido como informação de identificação retroativa — ainda assim, confirma Raul dentro de uma constelação de instrumentistas centrais na sonoridade do disco.
Legado
O legado de Raul de Barros no choro está em ter mostrado que o trombone podia ocupar um lugar de frente sem perder a malícia rítmica, a elegância melódica e o vínculo com a dança. Seu nome ficou fortemente preso a Na Glória, e com razão: a peça se tornou seu prefixo musical e permaneceu viva no repertório de bares, gafieiras e rodas. Mas sua importância não se esgota nesse tema. Raul representa uma forma de fazer música em que choro, rádio, baile, orquestra e gravação comercial convivem no mesmo corpo sonoro.
Lembrá-lo hoje é lembrar que a história do choro não foi construída apenas por flautas, cavaquinhos, bandolins e violões. Também foi construída por músicos que trouxeram ao gênero o peso, o brilho e o humor do trombone. Raul de Barros é um desses casos raros em que o instrumento parece entrar no repertório já falando com sotaque próprio.
Fontes
- Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — Verbete "Raul de Barros". Fonte principal para dados biográficos, trajetória profissional, catálogo de obras e reconhecimento como trombonista.
- Discografia Brasileira / Instituto Moreira Salles — Fonograma Na Glória e página de artista de Raul de Barros. Referência para datas de gravação, catálogo fonográfico (23 fonogramas, 13 composições) e contexto discográfico.
- Rádio Batuta / Instituto Moreira Salles — Texto sobre Na Glória, incluindo a origem da composição no Dancing Eldorado e a descrição da peça como clássico das pistas de dança.
- Discos do Brasil — Ficha crítica do álbum Cartola (1974). Fonte para o crédito de Raul de Barros em Corra e Olhe o Céu, com a ressalva de que se trata de discografia crítica e não de ficha técnica original.
Nota de pesquisa: o material biográfico mais sólido e rastreável para este verbete foi encontrado no Dicionário Cravo Albin e no acervo do IMS. Não foram localizadas páginas do Instituto Casa do Choro especificamente dedicadas a Raul de Barros; esse dado é registrado aqui para orientar pesquisa futura.
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