Choropedia
Raphael Rabello: violonista, compositor e o sete cordas
Conheça a vida e obra de Raphael Rabello, herdeiro de Dino 7 Cordas, que projetou o violão de sete cordas ao centro da música brasileira entre choro e concerto.

Introdução
Raphael Rabello, nome artístico de Rafael Baptista Rabello (Petrópolis, Rio de Janeiro, 31 de outubro de 1962 — Rio de Janeiro, 27 de abril de 1995), foi violonista, compositor e arranjador ligado ao choro, ao samba, à música instrumental brasileira e ao repertório de concerto para violão. Em uma carreira curta, intensa e fulgurante, ocupou uma posição singular na história do violão brasileiro: foi, ao mesmo tempo, herdeiro direto da escola de Dino 7 Cordas e um dos responsáveis por abrir um novo caminho para o instrumento a partir da década de 1980.
Sua importância para o choro está ligada a uma transformação específica: o deslocamento do violão de sete cordas do papel exclusivo de acompanhamento — a sustentação rítmico-harmônica dos regionais, o território das baixarias — para o campo do solo, do recital e da composição instrumental. Raphael não rompeu com a tradição; incendiou-a por dentro. Depois dele, tornou-se impossível pensar o sete cordas apenas como instrumento de base.
Formação e Contexto Musical
Raphael cresceu em uma família profundamente musical. Era o caçula de nove irmãos, entre eles a cantora Amélia Rabello e a cavaquinista Luciana Rabello. Seu avô materno, também violonista, foi uma de suas primeiras influências, e Raphael começou a tocar intuitivamente aos sete anos. Aos doze, passou a estudar com Jayme Florence, o Meira, mestre ligado ao Regional do Canhoto e referência decisiva para várias gerações de violonistas brasileiros.
Boa parte de sua formação, porém, veio da escuta atenta de discos, em especial os volumes de Choros Imortais, do Regional do Canhoto. Estudou também teoria musical com Maria Alice Salles e, mais tarde, harmonia com Ian Guest. Essa formação explica parte de sua linguagem: uma escuta popular muito afiada, uma técnica instrumental fora do comum e uma percepção harmônica que lhe permitia circular entre choro, samba, canção, repertório camerístico e música de concerto.
A carreira profissional começou ainda na adolescência. Em 1976, integrou Os Carioquinhas, grupo formado com Luciana Rabello, Paulo Alves, Téo e Mario Florêncio, e que, em sua segunda formação, passaria a contar também com Maurício Carrilho, Celso Cruz e Celsinho Silva. Foi nesse contexto que Raphael migrou do violão de seis para o violão de sete cordas, sob forte influência de Dino 7 Cordas, embora Dino não tenha sido formalmente seu professor.
Em 1977, Os Carioquinhas gravaram seu LP pela Som Livre. Durante as gravações, Raphael foi apresentado a Radamés Gnattali por Copinha, encontro que se tornaria central em sua trajetória. Pouco depois, em 1979, participou da formação da Camerata Carioca, conjunto criado para acompanhar Joel Nascimento na execução da suíte Retratos, de Radamés Gnattali, em versão para regional. Aos 13 anos, Raphael já fazia gravações profissionais; aos 14, tocava tanto em Os Carioquinhas quanto no grupo Choros do Brasil, formado por Turíbio Santos.
Estilo Musical
O estilo de Raphael Rabello combina virtuosismo, densidade polifônica, precisão rítmica e uma liberdade de fraseado incomum no violão brasileiro. Alguns de seus traços mais característicos são:
Linguagem melódica: As melodias e improvisos revelam grande fluência técnica e um fraseado expressivo, herdeiro do choro instrumental, mas ampliado por recursos do violão clássico e do flamenco. Há gosto pela linha longa, pelo canto contínuo e por inflexões que aproximam o violão da voz de um solista de sopro ou de bandolim.
Linguagem harmônica: A harmonia dialoga com o vocabulário do choro e do samba, mas incorpora recursos aprendidos com Ian Guest e com o repertório camerístico de Radamés Gnattali. Substituições, cromatismos, empréstimos modais e reharmonizações aparecem sem ostentação, sempre a serviço da condução da peça e do canto do conjunto.
Ritmo e síncopa: A pulsação do choro e do samba é permanente, mesmo nas peças de caráter mais próximo ao concerto. Suas baixarias e contracantos articulam síncopes e acentuações deslocadas com precisão milimétrica, e o balanço do fraseado permanece firme mesmo nos trechos de maior virtuosismo.
Baixarias e diálogo com o solista: No papel de acompanhador, Raphael leva ao limite a lógica das baixarias — longas, rápidas, densas — que preenchem espaços mínimos entre as frases do solista ou do cantor. O sete cordas, em suas mãos, não é apenas base: é quase uma segunda melodia, andando pelos graves com faro de bicho noturno, comentando, provocando, antecipando, respondendo e empurrando a frase para outro lugar.
Instrumentação e textura: Em 1986, Raphael encomendou ao luthier Mario Jorge Passos um violão de sete cordas com encordoamento de náilon, adaptando a linguagem tradicional do sete cordas de aço a uma sonoridade mais próxima do violão clássico. Esse gesto redesenhou a textura possível do instrumento e abriu caminho para o uso do sete cordas em contextos solistas e de concerto.
Formas típicas: O catálogo articulado por Raphael — como intérprete e como compositor — atravessa choros, sambas, canções, peças camerísticas e obras de concerto, sem hierarquia rígida entre esses campos. Suas próprias composições exploram formas próximas do choro e da música instrumental brasileira, com espaço para desenvolvimento e para virtuosismo.
Inovações e aspectos distintivos: A contribuição mais original de Raphael está no deslocamento do violão de sete cordas para o campo solista, sem abandonar a lógica do acompanhamento. A adoção do encordoamento de náilon e a incorporação de técnicas do violão clássico e do flamenco ampliaram a voltagem expressiva do instrumento e influenciaram diretamente a adoção do sete cordas de náilon por gerações posteriores, incluindo nomes como Rogério Caetano e Yamandu Costa.
Obras Importantes
A seguir, uma seleção de gravações e composições representativas do estilo de Raphael Rabello, entre discos autorais, encontros históricos e obras próprias:
| Título | Categoria | Observações |
|---|---|---|
| Rafael Sete Cordas (1982) | Álbum de estreia solo | Marco da afirmação do sete cordas como instrumento solista. |
| Tributo a Garoto (1982) | Duo com Radamés Gnattali | Aproxima choro, violão brasileiro e repertório camerístico. |
| Raphael Rabello interpreta Radamés Gnattali (1987) | Álbum solo | Registro fundamental da relação com a obra violonística de Radamés; duas tocatas foram gravadas com o sete cordas de náilon de 1986. |
| Raphael Rabello & Dino 7 Cordas (1991) | Duo | Encontro simbólico entre mestre e discípulo, tradição e expansão do sete cordas. |
| Todo o Sentimento (1991) | Parceria com Elizeth Cardoso | Exemplo do refinamento de Raphael como acompanhador. |
| Dois Irmãos (1992) | Duo com Paulo Moura | Diálogo entre violão e clarineta/saxofone no repertório popular brasileiro. |
| Todos os Tons (1992) | Álbum solo | Um dos registros centrais de sua maturidade como solista. |
| Meu Avô | Composição autoral | Homenagem a uma de suas primeiras referências musicais. |
| Sete Cordas | Composição autoral | Peça-manifesto sobre o instrumento que redefiniu. |
| Peito Aberto | Composição autoral | Integra o conjunto de obras próprias mais executadas. |
Exemplo Musical
Tocata em ritmo de samba, de Radamés Gnattali, na gravação de Raphael Rabello interpreta Radamés Gnattali (1987), é uma das peças mais úteis para introduzir o ouvinte ao seu estilo. Registrada com o violão de sete cordas de náilon construído em 1986 por Mario Jorge Passos, a interpretação condensa boa parte do projeto artístico de Raphael: a densidade polifônica do sete cordas de tradição chorística, a precisão rítmica do samba, a sonoridade mais próxima do violão clássico e um pensamento composicional que atravessa popular e concerto sem fronteiras rígidas. Ao lado de faixas de Rafael Sete Cordas e do encontro com Dino 7 Cordas, essa gravação sintetiza o lugar singular do violonista na música brasileira.
Influências e Relações
Influências sobre Raphael Rabello:
- Dino 7 Cordas — Referência maior de sua linguagem no sete cordas. Mesmo sem ter sido formalmente seu professor, Dino permanece como “sotaque” interno do violão de Raphael, presente até nos trechos solistas.
- Jayme Florence, o Meira — Professor entre os doze e os anos de formação, mestre ligado ao Regional do Canhoto e à tradição do violão brasileiro.
- Regional do Canhoto e os Choros Imortais — O contato com esses discos, na fase de aprendizado, moldou seu ouvido e seu senso de repertório.
- Radamés Gnattali — Compositor e amigo, fonte de repertório e interlocutor decisivo na aproximação entre choro, música popular e sala de concerto.
- Violão clássico e flamenco — Estudo assumido pelo próprio Raphael como recurso para dar ao violão brasileiro uma técnica mais extrovertida e agressiva.
Diálogos e relações:
- Camerata Carioca — Conjunto criado em 1979 para acompanhar Joel Nascimento na execução de Retratos, de Radamés Gnattali, e um dos ambientes centrais da renovação do choro instrumental nos anos 1980.
- Os Carioquinhas — Grupo de estreia profissional, ao lado de Luciana Rabello, Paulo Alves, Téo e Mario Florêncio, e depois Maurício Carrilho, Celso Cruz e Celsinho Silva.
- Elizeth Cardoso — Parceira em Todo o Sentimento (1991), um dos registros que melhor expõem seu trabalho como acompanhador.
- Paulo Moura — Parceiro em Dois Irmãos (1992), um diálogo instrumental de referência.
- Ney Matogrosso, Amélia Rabello, Armandinho Macedo — Entre os muitos artistas com quem gravou ao longo de uma discografia intensa.
Legado
Raphael Rabello morreu muito jovem, mas sua obra reorganizou o lugar do violão de sete cordas na música brasileira. Antes dele, o instrumento já possuía uma tradição riquíssima no acompanhamento, sobretudo por meio de Dino 7 Cordas. Depois dele, tornou-se impossível pensar o sete cordas apenas como instrumento de base.
Seu legado está nessa ponte: Raphael não rompeu com a escola antiga, ele a incendiou por dentro. Trouxe o sete cordas para o solo, para o concerto e para a escuta de novas gerações, mantendo viva a lógica das baixarias, do acompanhamento e da conversa rítmico-harmônica do choro. Foi tanto solista quanto acompanhador de altíssima qualidade — e a força de seu estilo está justamente na recusa dessa divisão rígida.
Sua obra ampliou de forma decisiva o horizonte técnico do violão brasileiro. A adoção do encordoamento de náilon no sete cordas, em 1986, abriu uma nova linhagem que influenciou diretamente a geração seguinte de violonistas. A partir dele, o sete cordas passou a carregar outra ambição: continuou sendo chão, baixaria e acompanhamento, mas ganhou também altura, voo e voz própria.
A Escola de Choro Raphael Rabello, criada em Brasília após sua morte, dá corpo institucional a essa herança. Nascida do projeto de criar uma instituição dedicada à música brasileira em nível superior, ideia que ele chegou a iniciar com Reco do Bandolim, ela mantém vivo o compromisso com a formação e com a continuidade da tradição que ele contribuiu para transformar.
Raphael foi, em síntese, um ponto de mutação do violão brasileiro. Sua trajetória curta produziu um deslocamento cujos efeitos seguem organizando as escolhas de intérpretes, compositores e ouvintes até hoje.
Discografia Selecionada
- Rafael Sete Cordas, 1982.
- Tributo a Garoto, com Radamés Gnattali, 1982.
- Raphael Rabello interpreta Radamés Gnattali, 1987.
- Raphael Rabello & Dino 7 Cordas, 1991.
- Todo o Sentimento, com Elizeth Cardoso, 1991.
- Dois Irmãos, com Paulo Moura, 1992.
- Todos os Tons, 1992.
Fontes
As seguintes fontes são relevantes para o estudo de Raphael Rabello e do contexto musical em que atuou:
- Casa do Choro. Acervo. Verbete “Raphael Rabello”. — Documentação central sobre vida, obra e trajetória, com dados biográficos, discográficos e institucionais.
- Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Verbete “Raphael Rabello”. — Verbete biográfico e discográfico de referência, com listagem de obras, gravações e parcerias.
- Instituto Moreira Salles. Rádio Batuta. Textos de Lucas Nobile sobre Rafael Sete Cordas e Raphael Rabello interpreta Radamés Gnattali. — Análises históricas sobre discos fundamentais do violonista.
- GONÇALVES, Marcello. A escola do violão de 7 cordas brasileiro: da origem às manifestações atuais. PPGM/UFRJ. — Estudo acadêmico de referência sobre a tradição do sete cordas e sobre a virada representada por Raphael com a adoção do encordoamento de náilon.
- Itaú Cultural. Texto sobre a pesquisa de Lucas Nobile para a biografia Raphael Rabello: o violão em erupção. — Contextualiza a produção biográfica recente em torno do violonista.
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