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Radamés Gnattali: biografia, obras e legado no choro brasileiro

Conheça a trajetória de Radamés Gnattali, sua fusão entre erudito e popular, obras como Suíte Retratos e sua influência no choro e na música brasileira.

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Introdução

Radamés Gnattali (Porto Alegre, 27 de janeiro de 1906 – Rio de Janeiro, 13 de fevereiro de 1988) foi compositor, arranjador, regente e pianista brasileiro, amplamente reconhecido como um dos raros músicos a transitar com fluência absoluta entre os universos da música erudita e da música popular. Sua atuação determinou, conforme aponta a musicóloga Marcia Taborda, novos paradigmas na concepção e execução dos arranjos de choro, representando um marco estilístico na trajetória do gênero.

Formado como pianista concertista, Radamés abandonou a carreira solista nos anos 1930 para dedicar-se à música popular — decisão que mudaria os rumos da história musical brasileira. Ao longo de mais de cinco décadas, compôs choros, valsas, sambas, concertos, sinfonias e trilhas sonoras, criou arranjos emblemáticos que se tornaram indissociáveis das composições originais — como o de Aquarela do Brasil —, revolucionou a orquestração da Rádio Nacional, fundou conjuntos instrumentais de referência e foi mentor de uma geração inteira de jovens músicos do choro. Valdinha Barbosa e Anne Marie Devos sintetizaram sua inquietude criativa no título de sua biografia: Radamés Gnattali: o eterno experimentador.


Formação e Contexto Musical

Radamés cresceu em Porto Alegre, numa família de origem italiana profundamente ligada à música. Seu pai, Alessandro Gnattali, era marceneiro de profissão, mas apaixonado pela ópera — chegou a se tornar músico profissional, tocando fagote e depois atuando como regente. Sua mãe, Adélia Fossati Gnattali, era pianista. A paixão do casal pela ópera era tão intensa que batizaram os três primeiros filhos com nomes de personagens de Verdi: Radamés, Aída e Ernâni. Os três seguiriam a carreira musical.

Começou a aprender piano com a mãe ainda menino e paralelamente iniciou estudos de violino com a prima Olga Fossati. Aos nove anos, já dava sinais precoces de seu talento como arranjador: foi condecorado pelo cônsul da Itália por ter regido uma pequena orquestra infantil executando arranjos de sua própria autoria. Aos 14 anos, ingressou no Conservatório de Porto Alegre diretamente no 5º ano do curso de piano. Nesse período, já frequentava blocos de carnaval e rodas de seresteiros, e como não podia levar o piano a esses ambientes, passou a tocar violão e cavaquinho — seus primeiros contatos práticos com os instrumentos do choro.

Em 1923, concluiu com medalha de ouro o curso de piano no Instituto de Belas-Artes de Porto Alegre. Levado ao Rio de Janeiro para um recital que foi muito elogiado pela crítica, ficou conhecendo o compositor Ernesto Nazareth, que costumava ouvir do lado de fora do cinema Odeon — encontro que deixaria marcas em sua formação estética. Em 1925, a convite de Mário de Andrade, realizou recital no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Com os irmãos Alexandre e Ernâni, fundou o Quarteto Henrique Oswald, trocando o violino pela viola — experiência que foi fundamental para sua futura carreira como orquestrador.

A experiência que consolidou sua formação de conjunto veio da amizade com o baterista Luciano Perrone, com quem se conheceu em 1929 no Cassino das Fontes, na cidade mineira de Lambari. Perrone se tornaria seu parceiro musical ao longo de toda a vida e um de seus músicos prediletos.


Estilo Musical

O estilo de Radamés Gnattali é o resultado de uma síntese que nenhum outro músico brasileiro de sua geração conseguiu alcançar: a fusão orgânica entre a sofisticação técnica da música de concerto europeia e a riqueza rítmica, melódica e expressiva da música popular brasileira — especialmente o choro, o samba e o baião.

Linguagem harmônica: A harmonia de Radamés vai muito além do vocabulário tonal corrente no choro de sua época. Sua formação erudita lhe dava domínio de progressões cromáticas, modulações distantes, dissonâncias controladas e condução de vozes de rigor contrapontístico. Essa sofisticação, no entanto, nunca soa acadêmica ou imposta — ela se integra ao discurso popular com naturalidade, ampliando as possibilidades expressivas sem romper o vínculo com a tradição.

Orquestração e arranjo: É talvez na orquestração que reside a contribuição mais revolucionária de Radamés. No programa Um Milhão de Melodias da Rádio Nacional (1943–1956), ele substituiu a base de jazz americano — piano, baixo, bateria e guitarra — por uma formação genuinamente brasileira: dois violões (com Garoto e Bola Sete), cavaquinho (Zé Menezes), bateria e percussão (Luciano Perrone), contrabaixo (Vidal), pandeiro (João da Bahiana), caixeta e prato com faca (Heitor dos Prazeres) e ganzá (Bide). Passou a usar os instrumentos da orquestra de forma percussiva, obtendo efeitos até então inéditos. Uma ideia fundamental — colocar o ritmo dentro da própria orquestra — veio de Luciano Perrone e foi posta em prática por Radamés de maneira pioneira.

Linguagem melódica: Suas melodias transitam entre o lirismo das valsas de salão, a malícia do choro carioca e uma inventividade que reflete a escuta atenta de compositores como Ernesto Nazareth, Pixinguinha e Debussy. Há em seus temas uma elegância de construção que evidencia o ofício do compositor formado na tradição europeia, mas temperada por um sabor inconfundivelmente brasileiro.

Tratamento do choro: Radamés não tratava o choro como gênero menor ou folclórico a ser "elevado" — ao contrário, reconhecia sua sofisticação intrínseca. Sua famosa frase sobre Pixinguinha resume essa postura: "Existem milhões de choros, mas os bons mesmo são os do Pixinguinha. Bom por estar mais elaborado? Não, é porque ele é um sujeito genial." Ao mesmo tempo, não se furtava a expandir os limites do gênero: na Suíte Retratos, combinou bandolim solo, conjunto regional e orquestra de cordas numa obra que é simultaneamente um tributo reverente à tradição e uma proposta de renovação formal e tímbrica.

Instrumentação e formações: Ao longo de sua carreira, Radamés experimentou com as mais diversas formações: do Trio Carioca (piano, violino e violoncelo) ao Quarteto e Sexteto Continental, da Orquestra Brasileira ao duo com Raphael Rabello, da grande orquestra sinfônica à intimidade da Camerata Carioca. Essa inquietude na busca por novas combinações tímbricas é uma das razões de seu apelido de "eterno experimentador".


Obras Importantes

A seguir, uma seleção de composições de Radamés Gnattali representativas de seu estilo e presentes no repertório fundamental do choro e da música brasileira:

Título Gênero Observações
Suíte Retratos (1956) Suíte para bandolim, regional e orquestra Obra-prima do choro-concerto; homenageia Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga. Dedicada a Jacob do Bandolim, que a gravou em 1964.
Remexendo Choro Um dos choros mais conhecidos de Radamés; gravado pelo Quarteto Continental e em inúmeras versões.
Cabuloso Choro Gravado com o Trio Carioca em 1937; peça de caráter vivo e inventivo.
Tristonho Choro Gravado pela Orquestra Victor Brasileira em 1943; de caráter lírico e introspectivo, contrasta com a vivacidade habitual do gênero.
Recordando Choro Gravado com o Trio Carioca; peça de sabor nostálgico.
Amoroso Choro Gravado pela Orquestra Típica Victor em 1936.
Estilo de Vida Polca-choro Registrada pela Orquestra Típica Victor em 1935; exemplo de seu domínio da linguagem chorística.
Conversa Mole (Jacobeana) Choro Composta em homenagem a Jacob do Bandolim; gravada com a Camerata Carioca.
Bate-papo a Três Vozes Samba Gravado com Luciano Perrone e Vidal em 1956; exemplo de sua escrita camerística para o samba.
Serenata do Joá Choro Uma de suas primeiras composições gravadas, por Luiz Americano em 1934.
Meu Amigo Tom Jobim Choro Homenagem ao maestro Antônio Carlos Jobim; gravada com o Sexteto.
Meu Amigo Pixinga Choro Tributo a Pixinguinha, composto com a reverência que sempre dedicou ao mestre do choro.
Uma Rosa para Pixinguinha Choro Executada no histórico concerto Pixinguinha 70 no Teatro Municipal em 1968.

Exemplo Musical

"Suíte Retratos" é a obra mais emblemática de Radamés Gnattali no universo do choro e oferece uma síntese privilegiada de sua arte como compositor e orquestrador. Escrita em 1956 para bandolim solo, conjunto regional e orquestra de cordas, a suíte homenageia quatro compositores que Radamés considerava pilares da música instrumental brasileira: Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga. Cada movimento é um "retrato" musical — não uma citação literal, mas uma recriação estilística que capta a essência de cada homenageado através da linguagem pessoal de Radamés.

A complexidade da obra levou Jacob do Bandolim, seu dedicatário, a aprofundar seus estudos de escrita e teoria musical. Em carta célebre a Radamés, Jacob confessou que antes de Retratos vivia reclamando que era preciso ensaiar, e que a partir daquele encontro passou a entender que, mais do que ensaiar, era necessário estudar. Jacob descreveu o sorriso silencioso de aprovação de Radamés após a execução como o maior prêmio de seus trinta anos de carreira, reconhecendo que a partir dali existia um outro Jacob — "feito por você, pelo seu estímulo, pela sua confiança e pelo talento que você nos oferece".

"Remexendo", por sua vez, é uma porta de entrada acessível ao choro de Radamés. Peça de caráter vivo e malicioso, nela se pode observar a clareza de construção melódica herdada de sua formação erudita a serviço de uma linguagem inequivocamente popular — uma síntese que é a marca registrada de seu idioma.


Influências e Relações

Influências sobre Radamés Gnattali:

  • Ernesto Nazareth — O encontro com Nazareth no cinema Odeon, ainda jovem, marcou profundamente Radamés, que se tornaria um dos grandes intérpretes de sua obra pianística, adaptando-se com naturalidade à dinâmica de suas composições.
  • Pixinguinha — Admiração irrestrita e declarada; considerava seus choros os melhores já escritos. Homenageou-o diversas vezes em composições (Uma Rosa para Pixinguinha, Meu Amigo Pixinga) e no primeiro movimento da Suíte Retratos.
  • Luciano Perrone — Parceiro musical de toda a vida; a ideia de integrar o ritmo à orquestra, que revolucionou a sonoridade da Rádio Nacional, partiu de Perrone.
  • Tradição erudita europeia — A formação como pianista concertista, os estudos com Guilherme Fontainha e Agnelo França, e a experiência com quarteto de cordas deram-lhe ferramentas técnicas que nenhum outro arranjador popular brasileiro possuía.
  • Villa-Lobos — Contemporâneo e referência na fusão entre erudito e popular; ambos compartilhavam a convicção de que a música brasileira possuía sofisticação intrínseca digna de tratamento sinfônico.

Músicos e tradições influenciados por Radamés:

  • Jacob do Bandolim — A Suíte Retratos transformou sua abordagem musical, levando-o a aprofundar estudos teóricos e a elevar o nível de exigência do conjunto Época de Ouro. Jacob extraiu conhecimentos de instrumentação e arranjo de Radamés e transpôs-os para a formação do Época de Ouro.
  • Raphael Rabello — Apresentado a Radamés por Copinha durante as gravações do LP Os Carioquinhas em 1977, Raphael tornou-se seu parceiro em gravações históricas e um dos integrantes da Camerata Carioca.
  • Camerata Carioca — Conjunto formado em 1979 por jovens músicos — entre eles Raphael Rabello, Joel Nascimento, Luciana Rabello, Maurício Carrilho e Luiz Otávio Braga — sob a orientação e inspiração direta de Radamés. Hermínio Bello de Carvalho batizou o grupo e produziu o show e disco Tributo a Jacob do Bandolim, com participação especial do maestro.
  • Luiz Otávio Braga e a lutheria do violão de sete cordas — Braga, violonista da Camerata Carioca, encomendou em 1983 ao luthier Sérgio Abreu o primeiro violão de sete cordas com cordas de náilon, para adequar o timbre ao contexto camerístico dos arranjos de Radamés — inaugurando uma nova fase na lutheria do instrumento, logo seguida por Raphael Rabello.
  • Orquestração popular brasileira — Sua atuação na Rádio Nacional e nas gravadoras estabeleceu as bases da orquestração popular moderna no Brasil, substituindo modelos importados do jazz americano por uma linguagem sonora genuinamente brasileira.

Conjuntos e parcerias:

  • Trio Carioca (1936) — Com Romeu Ghipsman (violino) e Iberê Gomes Grosso (violoncelo); atuou na Rádio Nacional tocando choros e toadas.
  • Orquestra Brasileira de Radamés Gnattali (1943–1956) — Criada para o programa Um Milhão de Melodias da Rádio Nacional; revolucionou a orquestração radiofônica brasileira.
  • Quarteto Continental (1949) — Com Luciano Perrone, José Menezes e Vidal; evoluiu para Quinteto e depois Sexteto.
  • Sexteto Radamés Gnattali (1960) — Formação definitiva com Radamés e Aída Gnattali (pianos), Chiquinho do Acordeom, Zé Menezes (guitarra), Vidal (contrabaixo) e Luciano Perrone (percussão). Viajou pela Europa integrando a III Caravana Oficial da Música Popular Brasileira.
  • Camerata Carioca (1979) — Conjunto de jovens músicos formado para executar a Suíte Retratos em versão camerística; tornou-se uma das formações mais importantes do choro das décadas de 1970 e 1980.

Legado

O legado de Radamés Gnattali para o choro e para a música brasileira é imenso e multifacetado. Sua trajetória representa o ponto culminante de uma evolução estilística do choro que, conforme a periodização proposta por Marcia Taborda, passa pelo terno de pau e corda, pelo Regional de Benedito Lacerda, por Jacob do Bandolim e desemboca na criação de Gnattali — cuja atuação estabeleceu novos paradigmas na concepção e execução dos arranjos do gênero.

Como compositor, deixou um catálogo monumental que inclui choros, valsas, sambas, concertos para piano, concertos para violão, sinfonias e trilhas sonoras. O acervo do Instituto Casa do Choro conta com 55 obras catalogadas do compositor. Como arranjador, seus trabalhos para a Rádio Nacional e para as gravadoras criaram a sonoridade que definiu a era de ouro do rádio brasileiro. Como mentor, foi peça fundamental no movimento de redescoberta do choro nos anos 1970, estimulando releituras de mestres como Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth e formando uma geração de instrumentistas que levaria o gênero adiante — Raphael Rabello, Joel Nascimento, Maurício Carrilho, Luciana Rabello, Luiz Otávio Braga, entre outros.

A Casa do Choro, no Rio de Janeiro, homenageia Radamés dando seu nome ao auditório principal da instituição — o Auditório Radamés Gnattali. Em 1983, recebeu o Prêmio Shell na categoria música erudita, concedido por unanimidade. Em 2006, no centenário de seu nascimento, a Orquestra Petrobras Sinfônica o homenageou com a gravação ao vivo de seu Concerto para Piano e Orquestra. Em 2010, foi homenageado na coletânea Chorinho do Brasil com um CD inteiro intitulado Radamés Gnattali – O modernizador do choro.

Foi membro da Academia Brasileira de Música e da Academia de Música Popular Brasileira. Faleceu em 13 de fevereiro de 1988, aos 82 anos, vítima de um segundo derrame cerebral.


Fontes

As seguintes fontes foram consultadas para a elaboração deste verbete:

  • BARBOSA, Valdinha; DEVOS, Anne Marie. Radamés Gnattali: o eterno experimentador. Rio de Janeiro: Funarte, 1985. — Biografia de referência, fonte primária fundamental sobre a vida e a obra do compositor.
  • TABORDA, Marcia. "As Abordagens Estilísticas no Choro Brasileiro." Historia Actual Online, nº 23, 2010. — Proposta de periodização do choro que situa Radamés como ponto culminante da trajetória estilística do gênero.
  • PELLEGRINI, Remo. Análise dos Acompanhamentos de Dino Sete Cordas em Samba e Choro. Dissertação de mestrado, UNICAMP, 2005. — Contém a carta de Jacob do Bandolim a Radamés e análise do contexto musical.
  • CAZES, Henrique. Choro: do Quintal ao Municipal. São Paulo: Editora 34, 1998. — Obra fundamental sobre a história do choro, com referências à atuação de Radamés.
  • Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — Verbete completo sobre Radamés Gnattali com cronologia detalhada, discografia e obras. Disponível em: dicionariompb.com.br
  • Acervo do Instituto Casa do Choro — Catálogo com 55 obras do compositor e verbete biográfico. Disponível em: acervo.casadochoro.com.br

Nota: A trajetória de Radamés Gnattali atravessa praticamente todas as fases e dimensões do choro no século XX. Para aprofundamento em aspectos específicos — como sua relação com Jacob do Bandolim, a Camerata Carioca ou a orquestração radiofônica —, recomenda-se a consulta cruzada das fontes acima com os depoimentos do compositor ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.

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