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O que é choro? Definição, história e características

Entenda o que é o choro: a primeira música urbana brasileira, nascida no Rio em 1870. Explore seus três sentidos históricos, forma em rondó e prática coletiva.

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Definição

O choro — também chamado de chorinho — é a primeira expressão musical urbana tipicamente brasileira. Nasceu no Rio de Janeiro por volta de 1870, quando músicos populares passaram a tocar danças de salão europeias de um jeito próprio: sincopado, swingado, com uma expressividade que não estava nas partituras originais — uma rítmica herdada das matrizes africanas, em especial do lundu e dos batuques dos escravos. O que começou como um jeito de tocar foi se transformando, ao longo de décadas, num gênero musical com forma, instrumentação e linguagem próprias.

Hoje, o conceito de choro carrega pelo menos três sentidos distintos — todos corretos, cada um correspondendo a um momento diferente de sua história:

  1. Um jeito de tocar — o estilo interpretativo sincopado que os chorões aplicavam à música importada.
  2. Um conjunto e um evento — o grupo de instrumentistas (originalmente o terno: flauta, violão e cavaquinho) e a festa onde eles tocavam.
  3. Um gênero musical — a forma estruturada em rondó, com três ou dois temas distintos, que conhecemos hoje.

Entender esses três sentidos não é apenas curiosidade histórica: é a chave para compreender por que o choro é ao mesmo tempo tão específico na forma e tão amplo como linguagem.


Os três sentidos históricos do choro

1. O choro como jeito de tocar (c. 1870)

Tudo começa com a polca. A partir de 1844, as danças de salão europeias — polca, valsa, mazurca, schottisch — chegaram ao Brasil e viraram moda. Nos salões da elite, tocavam-se à europeia. Mas nos bailes populares do subúrbio carioca, músicos de classe média tocavam essas mesmas músicas de outro jeito.

Eles incorporavam o balanço sincopado do lundu e dos batuques africanos. "Amoleciam" a rigidez métrica da polca. Fraseavam com uma expressividade melancólica, chorosa. Esse jeito de tocar foi o que deu nome ao fenômeno: choro.

Para José Ramos Tinhorão, a palavra designaria a sensação de melancolia transmitida pelas baixarias improvisadas do violão. Para Henrique Cazes, viria dessa "maneira chorosa de frasear" que os chorões aplicavam às danças europeias. Seja qual for a origem exata da palavra — os historiadores divergem, como veremos adiante —, o fato é que ela nomeou primeiro um estilo, não um gênero.

2. O choro como conjunto e como evento (c. 1870–1910)

Ao mesmo tempo em que designava o estilo, a palavra "choro" passou a nomear também o próprio grupo de músicos que tocava dessa maneira e as festas onde eles se apresentavam. O cronista Alexandre Gonçalves Pinto, em seu livro O Choro (1936), usa o termo exatamente assim: "o competente choro" que animava determinada reunião era o conjunto de músicos, não o gênero.

A formação mais clássica desse conjunto — chamada de terno ou pau e corda — era composta por três instrumentos:

  • Flauta — o instrumento solista por excelência
  • Violão — harmonia e contracanto (as "baixarias")
  • Cavaquinho — ritmo e harmonia no agudo

Com o tempo, outros instrumentos foram sendo incorporados: o pandeiro, o violão de sete cordas, o bandolim, o clarinete, o saxofone, o trombone. Mas o núcleo original permaneceu como referência.

3. O choro como gênero musical estruturado (a partir de c. 1910)

Com as contribuições de Joaquim Callado, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e, principalmente, Pixinguinha, o choro foi adquirindo características formais próprias e deixando de ser apenas um estilo de interpretação. Na indústria fonográfica, a palavra "choro" só começa a aparecer como designação de gênero por volta de 1910–1911.

O choro clássico, tal como se consolidou, tem estas características estruturais:

  • Compasso: predominantemente binário (2/4)
  • Forma: dois ou três temas (A e B, ou A, B e C), sempre organizados em rondó — o tema A retorna após cada novo tema: A–A–B–B–A ou A–A–B–B–A–C–C–A
  • Cada parte: tipicamente 16 compassos
  • Modulações: a parte B vai geralmente ao relativo ou à dominante; a parte C, quando existe, vai ao homônimo
  • Caráter: essencialmente instrumental

O choro com três temas (A, B e C) é o mais associado ao gênero na sua fase clássica, mas o choro de dois temas (A e B), seguindo o mesmo princípio de retorno — A–A–B–B–A —, é igualmente legítimo e muito frequente no repertório.


A etimologia da palavra — quatro teses

A origem exata da palavra "choro" é um dos temas mais debatidos na musicologia brasileira. Os principais pesquisadores defendem quatro explicações diferentes, nenhuma delas definitivamente comprovada:

Tese Origem Autor(es)
Africana / sociológica Deriva de xolo, baile de escravos nas fazendas coloniais Câmara Cascudo, Renato Almeida
Colonial / profissional Abreviação de choromeleiros, corporações de músicos instrumentistas do período colonial Ary Vasconcelos
Musical / afetiva Maneira melancólica e "chorosa" de tocar; ou a sensação de melancolia das baixarias do violão José Ramos Tinhorão, Lúcio Rangel
Linguística Aglutinação do verbo chorar com o latim chorus (coro) Maestro Batista Siqueira

O mais seguro, no estado atual da pesquisa, é reconhecer a controvérsia como parte do próprio caráter mestiço e múltiplo do gênero — um nome que carrega muitos sentidos porque nasceu de muitas fontes.


Como o choro aparece na prática musical

Na roda de choro: o espaço mais tradicional de prática do gênero é a roda — uma reunião informal onde músicos tocam de memória, revezando-se no solo, acompanhando uns aos outros e improvisando dentro da forma. A roda exige conhecimento do repertório clássico, capacidade de acompanhar sem ensaio e sensibilidade para o conjunto.

No regional: a formação de conjunto mais consolidada no século XX é o regional de choro, com flauta (ou bandolim, clarinete), cavaquinho, violão de 6 cordas, violão de 7 cordas e pandeiro. Cada instrumento tem função clara: o solista faz a melodia, o cavaquinho e o pandeiro sustentam o ritmo, o violão de 6 cordas harmoniza, e o violão de 7 cordas faz as baixarias.

Na composição: escrever um choro implica dominar a forma em rondó, as modulações características entre as partes e a linguagem rítmica sincopada. Compositores como Nazareth e Pixinguinha expandiram essas fronteiras, mas sempre dentro de um vocabulário reconhecível.


Como reconhecer ouvindo

Ao escutar um choro, preste atenção em:

  • A síncopa: o deslocamento do acento para o tempo fraco ou a subdivisão — é o "balanço" característico que diferencia o choro de uma polca europeia tocada "na letra"
  • A forma em rondó: perceba quando a música muda de tema e de tonalidade; cada tema tem tipicamente 16 compassos e o retorno ao tema A é claramente perceptível
  • O diálogo entre os instrumentos: no choro bem tocado, os instrumentos de acompanhamento não são apenas suporte — o violão de 7 cordas improvisa baixarias, o cavaquinho pontua, o pandeiro respira junto com o solista
  • A ornamentação do solista: floreados, grupetos, apojaturas — a melodia raramente é tocada "limpa"; o fraseado é expressivo e pessoal

Como estudar na prática

Para quem está começando, o caminho mais eficaz é:

  1. Aprender o repertório de ouvido — antes de ler a partitura, ouça gravações históricas e tente cantar a melodia
  2. Aprender a forma — identifique os temas e as modulações em cada peça que estudar
  3. Aprender a acompanhar — independentemente do instrumento, aprender a fazer o papel de acompanhador numa roda é tão importante quanto saber o solo
  4. Frequentar rodas — o choro é uma prática oral e coletiva; nenhum livro substitui a experiência de tocar junto

Erros comuns de entendimento

"Choro é só para instrumentos de sopro e violão." Não. Qualquer instrumento pode fazer parte de uma roda de choro — piano, bandolim, trombone, saxofone. A formação clássica com flauta é histórica, não obrigatória.

"Choro é choroso, triste." O nome pode sugerir isso, mas o repertório é enormemente variado. Brejeiro, de Nazareth, é vivaz e bem-humorado. Um a Zero, de Pixinguinha, é eufórico. Apanhei-te, Cavaquinho é festivo. A melancolia existe em alguns choros, não em todos.

"Todo choro tem três partes." A forma com três temas (A, B e C) é muito comum, mas o choro de dois temas (A e B) — que segue o mesmo princípio de rondó, com A retornando após B — é igualmente legítimo e muito presente no repertório. Brasileirinho, de Waldir Azevedo, é um exemplo consagrado de choro em dois temas. As duas formas coexistem na tradição desde o início.

"Choro e samba são a mesma coisa." São gêneros distintos com raízes parcialmente comuns. O choro é essencialmente instrumental; o samba é predominantemente vocal. O ritmo, a forma e a prática social dos dois são diferentes, embora dialoguem historicamente.

"O choro parou no tempo." O gênero teve períodos de ostracismo, mas nunca parou de ser praticado e renovado. A geração dos anos 1970 (com músicos como Raphael Rabello, Maurício Carrilho e Egberto Gismonti) e os movimentos de revivalismo das décadas seguintes mostram um gênero vivo e em transformação.


Conexões dentro da Choropedia

Compositores centrais:Joaquim Callado · Chiquinha Gonzaga · Ernesto Nazareth · Pixinguinha
Conceitos relacionados:Síncopa · Forma Rondó · Baixaria · Regional de Choro · Roda de Choro · Os Chorões
Instrumentos:Flauta · Violão de 7 Cordas · Cavaquinho · Pandeiro · Bandolim
Repertório de referência:Flor Amorosa (Callado) · Odeon (Nazareth) · Carinhoso (Pixinguinha) · Brasileirinho (Waldir Azevedo)


Fontes

  • TINHORÃO, José Ramos. História Social da Música Popular Brasileira. Editora 34, 1998. — Referência fundamental para a origem histórica e social do choro, incluindo a tese da etimologia pelas baixarias do violão.
  • CAZES, Henrique. Choro: do Quintal ao Municipal. São Paulo: Editora 34, 1998. — A obra de referência sobre a evolução do choro como prática musical e social, da origem ao século XX.
  • VASCONCELOS, Ary. Raízes da Música Popular Brasileira. Rio de Janeiro: Rio Fundo Ed., 1991. — Fonte da tese etimológica dos choromeleiros.
  • PINTO, Alexandre Gonçalves. O Choro: reminiscências dos chorões antigos. Rio de Janeiro, 1936 (reed. FUNARTE, 1978). — Crônica de época; uso histórico do termo "choro" para designar o conjunto e o evento.
  • SÈVE, Mário. Vocabulário do Choro: estudos e composições. Rio de Janeiro: Lumiar, 1999. — Referência técnica sobre forma, harmonia e linguagem do gênero.
  • DINIZ, André. Joaquim Callado: o pai do choro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. — Estudo sobre o papel de Callado na consolidação do gênero.
  • Enciclopédia Itaú Cultural — Verbete "Choro": panorama histórico com referências bibliográficas detalhadas.
  • Musica Brasilis — musicabrasilis.org.br: artigo sobre o choro com síntese histórica e formal.

Nota: A palavra "choro" e sua etimologia permanecem objeto de debate entre musicólogos. Este verbete apresenta as principais teses sem hierarquizá-las, respeitando o estado atual da pesquisa histórica.

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