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Meira – violonista, compositor e professor de choro

Conheça Meira (Jayme Thomás Florence), violonista brasileiro fundamental para o choro, samba e regionais de rádio. Saiba sobre sua obra, alunos e legado.

Meiraviolonista brasileirochororegionalDino Sete Cordas

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Introdução

Jayme Thomás Florence, conhecido como Meira (Paudalho, Pernambuco, 1º de outubro de 1909 — Rio de Janeiro, 8 de novembro de 1982), foi violonista, compositor e professor, com atuação decisiva na história do choro, do samba e dos regionais de rádio. Sua trajetória atravessou os grandes conjuntos de acompanhamento da música popular brasileira, desde o Regional de Benedito Lacerda até o Regional do Canhoto, em uma parceria histórica com Dino Sete Cordas.

Sua importância para o choro está ligada a três dimensões que raramente se encontram com tanta força em um único músico: a arte do acompanhamento, um catálogo de composições que permanecem no repertório instrumental brasileiro, em especial o choro Arranca Toco, também conhecido como Primavera, e uma atuação pedagógica que formou gerações de violonistas, entre eles Baden Powell, Raphael Rabello, João de Aquino e Maurício Carrilho. Nesse cruzamento entre execução, criação e transmissão, Meira consolidou um modelo de violão brasileiro cuja influência ainda organiza a linguagem do choro contemporâneo.


Formação e Contexto Musical

Meira iniciou sua relação com a música ainda em Pernambuco. Seu irmão Robson foi uma de suas primeiras referências no violão, oferecendo o contato inicial com o instrumento e com o repertório popular da região. Em Recife, integrou o conjunto Voz do Sertão, liderado pelo bandolinista Luperce Miranda — uma escola prática para o jovem violonista, ligada à música instrumental brasileira e ao ambiente dos regionais.

Em 1928, mudou-se para o Rio de Janeiro. Na capital federal, aproximou-se de figuras centrais do violão brasileiro, entre elas João Pernambuco, e conviveu com o ambiente musical de Vila Isabel. Também participou de apresentações na Casa de Caboclo, espaço ligado ao teatro popular, ao samba e à música urbana carioca. Essa fase colocou Meira em contato direto com a rede de músicos, compositores e ambientes que sustentavam o choro carioca no fim da década de 1920 e início dos anos 1930.

A partir da década de 1930, passou a atuar profissionalmente no Rio de Janeiro. Em 1937, entrou para o Regional de Benedito Lacerda, um dos conjuntos de acompanhamento mais importantes da música popular brasileira. A formação reunia Benedito Lacerda na flauta, Canhoto no cavaquinho, Dino no violão de sete cordas e Meira no violão de seis cordas. O grupo acompanhou cantores, solistas e gravações em um período de intensa atividade do rádio e da indústria fonográfica.

Com a saída de Benedito Lacerda, o conjunto passou a ser conhecido como Regional do Canhoto. Meira permaneceu no grupo e consolidou sua atuação como violonista de acompanhamento, protagonizando com Dino Sete Cordas uma das parcerias mais importantes do violão brasileiro no século XX: enquanto Dino desenvolvia baixarias e contrapontos no sete cordas, Meira sustentava a base harmônica e rítmica no violão de seis, definindo uma sonoridade que se tornou referência para o acompanhamento no choro.


Estilo Musical

O estilo de Meira se define pelo cruzamento entre o domínio do acompanhamento, a clareza harmônica e uma escrita composicional enraizada nos gêneros da música popular urbana. Alguns de seus traços mais característicos são:

O acompanhamento como ofício: É a marca central da linguagem de Meira. No choro, o violonista acompanhador precisa conhecer a melodia, prever modulações, sustentar o ritmo e dialogar com o cavaquinho, o pandeiro, a flauta, o bandolim ou a voz. Meira dominava essa função com segurança absoluta, transformando o acompanhamento em uma prática musical sofisticada.

Linguagem harmônica: A harmonia é o eixo estrutural de sua atuação. Meira dominava o vocabulário tonal do choro e do samba, dominantes secundárias, modulações, cadências ampliadas, com um senso de condução que permitia sustentar solistas em qualquer tonalidade, transpor à vista e antecipar caminhos harmônicos.

Ritmo e síncopa: A precisão rítmica era outro pilar de sua prática. No acompanhamento dos regionais, Meira sustentava o balanço do choro e do samba com regularidade e nuance, articulando as células rítmicas típicas do gênero sem rigidez metronômica, sempre em diálogo com o pandeiro e o cavaquinho.

Diálogo com o sete cordas: Sua parceria com Dino Sete Cordas ilustra a dimensão coletiva de sua linguagem. Enquanto Dino desenvolvia baixarias, contracantos e respostas melódicas no sete cordas, Meira sustentava a estrutura harmônica e rítmica no violão de seis, com uma divisão de funções que se tornou paradigma para gerações posteriores de acompanhadores.

Instrumentação e textura: Embora historicamente lembrado pelo violão de seis cordas, Meira também tocava cavaquinho e bandolim, e atuava como violão solo. Esse repertório múltiplo alimentava sua compreensão do conjunto: ele conhecia por dentro cada uma das vozes do regional, o que se traduzia em maior sensibilidade no acompanhamento.

Formas típicas: Sua produção composicional articula choros, sambas, sambas-canção, valsas, baiões e batucadas, com estruturas próximas das adotadas pela tradição do choro carioca e da música popular urbana da primeira metade do século XX. As parcerias com Augusto Mesquita, Dino, Canhoto, Leonel Azevedo e Altamiro Carrilho compõem parte importante desse catálogo.

Inovações e aspectos distintivos: A contribuição mais singular de Meira está no modo como afirmou o violão de seis cordas como voz plenamente organizadora dentro do regional, ao lado do sete cordas. Antes de ser apenas base, o violão em suas mãos era condução, previsão, resposta e sustentação — uma prática que se tornou modelo pedagógico e influenciou o modo como o instrumento passou a ser ensinado e ouvido no choro.


Obras Importantes

A seguir, uma seleção de composições e parcerias representativas do catálogo de Meira, entre choros, sambas, valsas, baiões e batucadas:

Título Gênero Observações
Arranca Toco (também Primavera) Choro Peça mais conhecida do catálogo de Meira; incorporada ao repertório instrumental brasileiro, com múltiplas gravações ao longo do tempo.
Molambo Samba-canção Parceria com Augusto Mesquita; maior sucesso de Meira como compositor, com várias gravações.
Minha Flauta de Prata Choro Obra ligada à tradição instrumental dos regionais.
Aperto de Mão Samba Parceria com Dino e Augusto Mesquita.
Deixa pra Lá Choro Parceria com Augusto Mesquita.
Pra Me Esquecer Samba Parceria com Augusto Mesquita.
Prêmio de Consolação Samba Parceria com Augusto Mesquita.
Quando a Saudade Apertar Valsa Parceria com Leonel Azevedo.
Teco-Teco Baião Parceria com Canhoto.
Viagem à Lua Batucada Parceria com Altamiro Carrilho.

Exemplo Musical

Arranca Toco, também conhecido como Primavera, é a peça mais útil para introduzir o ouvinte à obra de Meira como compositor. Choro em estrutura tradicional, incorporou-se ao repertório instrumental brasileiro e recebeu diferentes gravações ao longo do tempo. Sua escuta atenta permite reconhecer o vocabulário harmônico, a condução da linha melódica e o senso de balanço rítmico que caracterizam a linguagem de Meira.

Para escutar Meira como acompanhador — dimensão central de sua contribuição —, o caminho é buscar as gravações do Regional de Benedito Lacerda e do Regional do Canhoto, em que sua parceria com Dino Sete Cordas se manifesta com clareza. Nessas gravações, o violão de seis cordas de Meira sustenta a base harmônica e rítmica enquanto Dino articula as baixarias, revelando uma divisão de funções que se tornou paradigma do acompanhamento no choro.


Influências e Relações

Influências sobre Meira:

  • Robson Florence — Irmão e uma de suas primeiras referências no violão, na fase inicial em Pernambuco.
  • Luperce Miranda — Bandolinista pernambucano que liderava o conjunto Voz do Sertão, do qual Meira participou em Recife. Uma das principais escolas práticas de seu início de carreira.
  • João Pernambuco — Referência central do violão brasileiro, com quem Meira se aproximou nos primeiros anos no Rio de Janeiro.
  • Tradição dos regionais — O ambiente dos conjuntos de acompanhamento, do rádio e da indústria fonográfica no Rio dos anos 1930 formou o horizonte prático em que Meira construiu sua linguagem.

Diálogos e parcerias:

  • Dino Sete Cordas — Parceiro histórico no Regional de Benedito Lacerda e no Regional do Canhoto. A dupla Meira e Dino é uma das mais importantes referências do violão de acompanhamento no choro brasileiro.
  • Benedito Lacerda — Flautista e compositor, líder do regional em que Meira entrou em 1937.
  • Canhoto — Cavaquinista com quem Meira dividiu por longos anos a base rítmico-harmônica dos regionais, primeiro sob a liderança de Benedito Lacerda e depois no conjunto que ficou conhecido como Regional do Canhoto. Coautor de Teco-Teco.
  • Augusto Mesquita — Principal parceiro compositional, coautor de Molambo, Aperto de Mão, Deixa pra Lá, Pra Me Esquecer e Prêmio de Consolação.
  • Altamiro Carrilho, Leonel Azevedo — Parceiros em composições específicas, ampliando a rede de colaborações no ambiente do choro e da música instrumental.

Alunos e sucessores:

  • Baden Powell — Um dos alunos mais célebres de Meira, cuja linguagem violonística se tornou referência mundial.
  • Raphael Rabello — Aluno a partir dos doze anos, viria a reinventar o violão de sete cordas na década de 1980.
  • João de Aquino, Maurício Carrilho — Violonistas cuja formação passou por Meira, e que se tornariam nomes centrais do choro e da música instrumental brasileira nas gerações seguintes.

Legado

Meira ocupa um lugar de referência na história do choro brasileiro. Sua atuação como violonista de acompanhamento contribuiu para afirmar essa função como prática musical sofisticada e essencial — não como base passiva, mas como escuta ativa, condução harmônica e diálogo constante com os demais instrumentos do regional.

Ao lado de músicos como Canhoto e Dino Sete Cordas, participou de uma formação que marcou a história dos regionais e definiu padrões de acompanhamento que influenciaram gerações posteriores de violonistas. A dupla Meira–Dino, com seus violões de seis e sete cordas em diálogo, tornou-se um modelo de como articular funções complementares dentro do conjunto — uma referência ainda estudada por músicos que se dedicam ao choro.

Como compositor, deixou obras que permanecem no repertório da música popular brasileira. Arranca Toco é, entre elas, a mais lembrada, mas Molambo, Minha Flauta de Prata e o conjunto de parcerias com Augusto Mesquita mostram um catálogo variado, que atravessa choros, sambas, valsas, baiões e batucadas.

A dimensão pedagógica de sua trajetória amplia ainda mais o alcance de seu legado. Ao formar Baden Powell, Raphael Rabello, João de Aquino e Maurício Carrilho, entre outros, Meira contribuiu para a continuidade e a renovação da linguagem do violão no choro e na música popular brasileira. Cada um desses alunos seguiu caminhos próprios, mas todos carregam a marca de uma formação sólida em técnica, leitura, repertório, prática de acompanhamento, transposição e compreensão harmônica.

Meira permanece como uma referência para o estudo do acompanhamento, da prática dos regionais e da formação do violão brasileiro no século XX. Sua obra mostra que a grandeza de um músico pode se medir não apenas pelo brilho do solo, mas pela solidez do que ele oferece a quem toca ao lado.


Registros de Referência

A dimensão mais audível do trabalho de Meira está nas gravações realizadas junto aos regionais em que atuou, ao lado de solistas e cantores do rádio e do disco. Além disso, suas composições, sobretudo Arranca Toco e Molambo, receberam múltiplas gravações ao longo do tempo:

  • Gravações do Regional de Benedito Lacerda (a partir de 1937), com Benedito Lacerda, Canhoto, Dino Sete Cordas e Meira.
  • Gravações do Regional do Canhoto, sucessor da formação anterior, com Meira e Dino Sete Cordas na base violonística.
  • Gravações de Arranca Toco / Primavera incorporadas ao repertório instrumental brasileiro por diferentes intérpretes ao longo do tempo.
  • Gravações de Molambo, um dos sambas-canção mais lembrados da produção de Meira em parceria com Augusto Mesquita.

Fontes

As seguintes fontes são relevantes para o estudo de Meira e do contexto musical em que atuou:

  • Instituto Casa do Choro. Verbete “Meira”. — Documentação central sobre vida, obra e trajetória, com dados biográficos, discográficos e institucionais.
  • Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Verbete “Meira / Jayme Thomás Florence”. — Verbete biográfico e discográfico de referência, com listagem de obras, gravações e parcerias.
  • Instituto Moreira Salles / Discografia Brasileira. — Referência para registros fonográficos do Regional de Benedito Lacerda, do Regional do Canhoto e para as gravações de obras associadas a Meira.

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