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Maurício Carrilho: violonista, compositor e educador do choro
Conheça Maurício Carrilho, violonista, compositor e educador que une tradição, pesquisa e ensino do choro no Rio de Janeiro, autor de obras como 'Dino' e 'Meira'.

Introdução
Maurício Carrilho é violonista, compositor, arranjador, produtor, pesquisador e educador. Nascido no Rio de Janeiro em 26 de abril de 1957, tornou-se uma das figuras centrais do choro contemporâneo, tanto por sua atuação artística quanto por seu papel na transmissão, sistematização e renovação do gênero. Vem de uma família profundamente ligada à música.
Sua trajetória combina três dimensões fundamentais: a ligação direta com mestres da tradição, como Dino Sete Cordas, Meira e Radamés Gnattali; a atuação profissional como violonista e arranjador ao lado de nomes importantes da música brasileira; e a criação de instituições e projetos voltados à preservação, ao ensino e à circulação do repertório de choro, como a Escola Portátil de Música, a Acari Records e a Casa do Choro.
Formação Musical e Família
Maurício Carrilho nasceu em uma família de músicos. Seu pai, Álvaro Carrilho, foi flautista, e seu tio Altamiro Carrilho tornou-se um dos maiores nomes da flauta brasileira. Desde a infância, conviveu com músicos como Canhoto da Paraíba, Paulo Moura, Radamés Gnattali, Lindolfo Gaya, Elizeth Cardoso e Nara Leão, que frequentavam a casa onde morava.
Aos cinco anos, ganhou de Altamiro Carrilho um violão. Embora tenha iniciado os estudos musicais pelo piano, voltou-se para o violão em 1966. Estudou com Dino Sete Cordas e Jayme Florence, o Meira, além de ter estudado violão clássico com João Pedro Borges.
A relação com Meira foi decisiva. Aos 12 anos, Maurício passou a estudar com Meira em aulas longas, que combinavam leitura, técnica, repertório escrito e prática de ouvido. Para ele, Meira não apenas ensinou violão, mas também lhe deu confiança para seguir a profissão musical.
Essa formação ajuda a explicar uma marca constante em sua trajetória: a recusa de separar completamente tradição oral e estudo formal. O choro, para Maurício, não é apenas repertório escrito nem apenas prática intuitiva. É uma linguagem transmitida pelo convívio, pela escuta, pelo acompanhamento, pela memória, pela leitura e pela prática coletiva.
Dino, Meira e a Tradição do Violão Brasileiro
A formação de Maurício Carrilho passa por dois nomes centrais do violão brasileiro: Dino Sete Cordas e Meira. Dino foi uma referência fundamental para o violão de sete cordas e para a consolidação das baixarias no acompanhamento de choro e samba. Meira, por sua vez, tornou-se uma figura decisiva como professor e formador de violonistas.
A partir desses mestres, Maurício herdou uma compreensão profunda do violão de acompanhamento. Em sua visão, o violão no choro não deve ser entendido apenas como base harmônica. Ele organiza ritmo, conduz baixos, cria contracantos, sustenta o fraseado coletivo e dialoga com a melodia. É um instrumento de arquitetura: constrói a casa enquanto a música acontece.
Meira foi seu grande mestre de violão. Suas aulas combinavam teoria, leitura e prática direta, em que o aluno precisava acompanhar imediatamente melodias de diferentes gêneros, sem nada escrito. Essa experiência se tornaria um dos fundamentos de sua atuação pedagógica posterior. A aula de Meira, com partitura em uma mão e ouvido na outra, reaparece transformada na metodologia da Escola Portátil de Música.
Os Carioquinhas e a Retomada do Choro
Em 1977, Maurício integrou o conjunto Os Carioquinhas, ao lado de Luciana Rabello no cavaquinho, Rafael Rabello no violão de sete cordas e Celsinho Silva no pandeiro. O grupo gravou o LP Os Carioquinhas no choro e marcou uma etapa importante na retomada do choro por uma nova geração de músicos.
Esse período é importante porque conecta Maurício a uma geração que ainda conviveu diretamente com mestres antigos, mas também buscou novas formas de apresentação, estudo e gravação. Os anos 1970 foram um período fértil, no qual jovens músicos tocavam com nomes como Meira, Canhoto, Abel Ferreira, Waldir Azevedo, Dino e Copinha.
Os Carioquinhas representam, portanto, mais que um grupo de juventude. Eles simbolizam uma passagem de bastão. A tradição do regional, das rodas e dos mestres vivos começava a encontrar uma nova geração tecnicamente preparada, interessada em pesquisar, gravar, ensinar e ampliar o repertório.
Camerata Carioca e Radamés Gnattali
Após o fim dos Carioquinhas, Maurício passou a integrar a Camerata Carioca, grupo ligado a Radamés Gnattali e Joel Nascimento. Com a Camerata gravou quatro LPs. Em 1979, integrando o grupo, trabalhou em shows com Elizeth Cardoso, cantora que acompanharia por quase vinte anos em turnês nacionais e internacionais.
A Camerata Carioca foi decisiva para a modernização da linguagem camerística do choro. Sob a influência de Radamés, o grupo buscava unir a espontaneidade da tradição popular com o equilíbrio, a escrita e a precisão da música de câmara. Essa experiência esteve ligada a uma proposta estética que marcou a carreira de Maurício como intérprete e arranjador.
Essa síntese entre tradição e elaboração é uma das chaves para entender sua obra. Maurício não trata o choro como peça de museu, mas também não o dilui em uma modernização superficial. Sua música procura preservar o sotaque, o balanço e a lógica interna do gênero, ao mesmo tempo em que amplia formações, texturas e possibilidades composicionais.
O Trio
Em 1993, Maurício formou O Trio ao lado de Paulo Sérgio Santos, no clarinete e sax soprano, e Pedro Amorim, no bandolim e violão tenor. O grupo reuniu músicos ligados ao samba e ao choro, todos com experiência anterior. O primeiro CD foi gravado em Paris e indicado ao Prêmio Sharp na categoria de música instrumental.
O Trio deu continuidade à pesquisa de sonoridades camerísticas no choro. Sem abandonar o vocabulário tradicional, o grupo explorou arranjos mais elaborados, interação entre os instrumentos e repertório que atravessa fronteiras entre choro, samba e música instrumental brasileira.
A importância desse grupo está justamente na economia de meios. Com poucos instrumentos, a música precisa respirar com clareza. Cada linha aparece. Cada contracanto precisa ter função. O violão de Maurício, nesse contexto, não é mero acompanhamento: é chão, parede, janela e vento.
Compositor e Obra
Maurício Carrilho tem uma produção extensa como compositor. São 796 obras associadas a ele, incluindo choros, polcas, maxixes, valsas, schottisches, frevos, sambas e outros gêneros próximos ao universo do choro. Entre os títulos estão "Biju", "Boêmia", "Bolado", "Bons tempos", "Borboleta", "Bordado de prata", "Bozó no frevo" e "Brasileiro bandolim".
Outras obras incluem "Alumiando", parceria com João Lyra; "Choro cubano"; "Dino"; "Meira"; "O turbante do Joel"; "Proveta na madrugada"; "Serenata pro Pilger"; "Suíte para violão de sete cordas e orquestra"; "Trinta e três"; e "Um choro pra Anna".
Algumas dessas obras revelam explicitamente sua relação com a tradição. Títulos como "Dino", "Meira" e "Canhoto Tramontano" funcionam como homenagens a mestres e referências históricas. Outras exploram caminhos formais menos comuns, como o disco Choro ímpar, lançado em 2007, no qual apresentou composições em compassos ternários e quinários.
Como compositor, Maurício trabalha dentro de uma tradição viva. Sua obra não imita o passado, mas conversa com ele. Em vez de tratar o choro antigo como moldura fixa, utiliza seus elementos estruturais: modulações, baixarias, contracantos, síncopes, formas seccionais, balanço e vocabulário melódico. A tradição aparece como ferramenta, não como gaiola.
Acari Records e Pesquisa Fonográfica
Em 2000, Maurício Carrilho e Luciana Rabello criaram a Acari Records, primeira gravadora brasileira especializada em choro. Pelo selo foram lançados discos e coleções importantes, incluindo a série Princípios do Choro, com 15 CDs, e uma caixa dedicada à obra de Joaquim Callado.
Em 2001, o selo lançou a série Princípios do Choro, reunindo em 15 discos preciosidades de chorões do início do século XX.
Esse trabalho fonográfico tem importância histórica. Em um gênero cuja transmissão sempre dependeu muito da roda, da escuta e da memória, a gravação funciona como arquivo sonoro, material didático e gesto de preservação. A Acari Records ajudou a recolocar em circulação repertórios pouco conhecidos, obras inéditas e autores fundamentais da história do choro.
Em 2007, Maurício e Luciana Rabello lançaram a caixa Choro carioca: Música do Brasil, com nove CDs dedicados à obra de 74 chorões de várias regiões do país. O projeto nasceu da pesquisa Inventário do Repertório do Choro, realizada por Maurício Carrilho e Anna Paes, que revelou mais de oito mil obras de compositores do gênero entre 1870 e 1920, muitas delas inéditas.
Escola Portátil de Música e Casa do Choro
Maurício Carrilho é um dos nomes centrais da Escola Portátil de Música. A EPM foi fundada em 2000, em parceria com Pedro Aragão e Luciana Rabello, reunindo mestres do choro e fomentando novos grupos e instrumentistas.
Em 2000, Maurício fundou a Oficina de Choro ao lado de Luciana Rabello, Celsinho Silva, Álvaro Carrilho e Pedro Amorim. Essa experiência está diretamente ligada ao processo de formação da EPM e à consolidação de um modelo de ensino coletivo do choro.
Maurício é também um dos diretores do Instituto Casa do Choro. A Escola Portátil de Música é especializada no ensino do choro e de gêneros correlatos, fundada em 2000 e sediada no Rio de Janeiro, com atuação contínua em aulas, oficinas e festivais.
A importância da EPM está em transformar a tradição oral em prática pedagógica sem esvaziá-la. O objetivo não é substituir a roda pela sala de aula, mas criar pontes entre escuta, leitura, prática de conjunto, percepção, repertório e improvisação. É uma escola com cheiro de arquivo e barulho de roda: partitura na estante, ouvido aceso, pandeiro chamando.
Oralidade, Partitura e Transmissão
Uma das contribuições mais importantes de Maurício Carrilho é sua reflexão sobre a transmissão do choro. Muitas sutilezas da música popular não estão na partitura e são impossíveis de grafar. Essa visão não rejeita a escrita musical; ao contrário, coloca a partitura em seu devido lugar: como guia, não como substituta da experiência musical.
Na prática da EPM e da Casa do Choro, partituras com melodia e cifra servem como base para que os músicos construam arranjos, contracantos, caminhos harmônicos e soluções coletivas em tempo real. A partitura organiza o encontro, mas a música acontece no modo como cada instrumentista transforma aquele material em som vivo.
Essa posição é central para o estudo do choro. O gênero depende de leitura, mas não nasce apenas da leitura. Depende de técnica, mas não se resume a técnica. Depende de tradição, mas não sobrevive sem invenção. Maurício atua justamente nessa dobra: entre a memória dos mestres e a formação das novas gerações.
O Choro como Linguagem Ampla
Maurício Carrilho defende uma compreensão ampla do choro. O choro é uma linguagem presente em grande parte da música brasileira, mesmo quando não aparece explicitamente nomeado como choro. Para ele, compositores como Tom Jobim, Edu Lobo, Caetano Veloso e Chico Buarque também utilizam essa linguagem em diferentes momentos de suas obras.
Essa visão desloca o choro de uma definição limitada a uma formação instrumental específica. O choro não seria apenas flauta, bandolim, cavaquinho, violão de sete cordas e pandeiro. Também é um modo de organizar melodia, ritmo, harmonia, contraponto e balanço. É uma gramática brasileira que atravessa gêneros, épocas e formações.
Por isso, em sua obra e em sua prática pedagógica, Maurício trata o choro como matriz. Não uma relíquia antiga, mas uma língua musical capaz de continuar produzindo sentido.
Acervo e Preservação
A atuação de Maurício Carrilho também está ligada à preservação documental do choro. O Instituto Casa do Choro é um dos maiores acervos do Brasil dedicados exclusivamente ao gênero, com coleções como o Inventário do Repertório do Choro, a Coleção Escola Portátil de Música, a Coleção Maurício Carrilho e a Coleção Instituto Jacob do Bandolim.
Na Biblioteca Nacional, foram localizados cerca de 1.930 títulos de choros e gêneros relacionados entre os 6.000 títulos levantados por Maurício Carrilho e Anna Paes na pesquisa Inventário do Repertório do Choro no Século XIX.
A Coleção Maurício Carrilho contém parte da coleção pessoal de LPs do violonista, com cerca de mil discos, incorporada à Casa do Choro no início de 2016.
Esse trabalho mostra uma faceta decisiva de Maurício: a do músico-pesquisador. Ele não apenas toca o repertório; busca suas fontes, reorganiza partituras, grava obras esquecidas, forma alunos e cria estruturas institucionais para que o conhecimento não dependa apenas da memória individual.
Legado
Maurício Carrilho ocupa um lugar singular no choro contemporâneo. É herdeiro direto de mestres como Dino, Meira e Radamés Gnattali, mas também um articulador de instituições, repertórios, métodos e acervos. Sua trajetória mostra que preservar o choro não significa congelá-lo, e renovar o choro não significa apagar sua tradição.
Como violonista, aprofundou a linguagem do acompanhamento e do violão de sete cordas. Como compositor, ampliou o repertório contemporâneo do gênero. Como arranjador, trabalhou a sonoridade do choro em formações camerísticas e em diálogo com a música popular brasileira. Como educador, ajudou a transformar a transmissão oral em prática pedagógica organizada. Como pesquisador, contribuiu para revelar milhares de obras e fortalecer a memória documental do gênero.
Sua importância está justamente nessa combinação rara: Maurício Carrilho é músico de roda, músico de palco, músico de arquivo e músico de escola. Um artista que entende que o choro não vive apenas no passado, mas também no método, na escuta, no repertório novo, no aluno que aprende a acompanhar e no acervo que impede uma música de desaparecer.
No mapa do choro brasileiro, Maurício é uma ponte: de Dino a Rafael Rabello, de Meira à Escola Portátil, de Radamés à Casa do Choro, da tradição oral ao arquivo digital. Uma ponte de cordas, madeira, papel e ouvido.
Obras em Destaque
Alumiando: choro em parceria com João Lyra. A peça aparece como exemplo de sua produção ligada ao repertório instrumental contemporâneo do choro.
Dino: composição dedicada a Dino Sete Cordas, incluída no repertório de Choro ímpar. A obra evidencia a relação de Maurício com a tradição do violão de sete cordas e com os mestres que formaram sua linguagem.
Meira: composição dedicada a Jayme Florence, o Meira, seu grande mestre de violão. O título reforça a presença da memória afetiva e pedagógica em sua obra autoral.
O turbante do Joel: composição de Maurício Carrilho registrada em sua discografia, presente entre as faixas de seu CD autoral lançado pela Acari Records.
Suíte para violão de sete cordas e orquestra: obra que amplia o espaço do violão de sete cordas para além da formação tradicional do regional, colocando o instrumento em diálogo com a escrita orquestral. Foi interpretada por Maurício em Paris e também por Yamandú Costa com a Orquestra Sinfônica Brasileira.
Fontes
- Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — Verbete "Maurício Carrilho", com dados biográficos, registro de obras, parcerias, gravações e atuação institucional. Disponível em: dicionariompb.com.br
- Instituto Casa do Choro — Acervo de autores e catálogo de partituras de Maurício Carrilho, incluindo registros de grupos, atuação na Oficina de Choro e referência ao acervo da Coleção Maurício Carrilho. Disponível em: casadochoro.com.br
- ROSA, Luciana. "O músico e o professor: Entrevista com Mauricio Carrilho, professor na Escola Portátil de Música". MusiMid, 2022. — Reflexões de Maurício sobre ensino, oralidade, partitura e transmissão do choro.
- IPHAN. Dossiê Técnico do Choro. — Documento de patrimônio cultural sobre o choro brasileiro, com inventário de acervos, repertório e instituições, incluindo a atuação da Casa do Choro e da pesquisa Inventário do Repertório do Choro.
- Teoria e Debate. "Choro: continuidade e renovação". Entrevista com Maurício Carrilho, 1998. — Conversa sobre tradição, retomada do choro nos anos 1970 e a relação com Meira, Radamés Gnattali e a Camerata Carioca.
- Cadastro MuseusBr — Registro da Coleção Maurício Carrilho na Casa do Choro, com cerca de mil discos incorporados ao acervo em 2016.
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