Choropedia
Luperce Miranda: bandolinista e compositor do choro
Verbete sobre Luperce Miranda (1904–1977), bandolinista pernambucano que consolidou o bandolim como solista no choro e gravou clássicos ao lado de Pixinguinha.

Introdução
Luperce Bezerra Pessoa de Miranda (Recife, Pernambuco, 28 de julho de 1904 – Rio de Janeiro, 5 de abril de 1977) foi bandolinista, compositor e multi-instrumentista brasileiro. É considerado um dos principais responsáveis por consolidar o bandolim como instrumento solista no choro. Destacou-se pelo virtuosismo, pela velocidade de execução e pela expressividade de suas interpretações.
Sua trajetória acompanhou a expansão da música popular brasileira no século XX, dos conjuntos regionais pernambucanos às grandes emissoras de rádio e gravadoras do Rio de Janeiro. Autor de centenas de composições, gravou com alguns dos principais artistas de sua época e contribuiu para o desenvolvimento da linguagem brasileira do bandolim.
Infância e formação musical
Luperce nasceu no bairro dos Afogados, no Recife, em uma família muito ligada à música. A mãe tocava piano e o pai tocava piano, violão e bandolim. Luperce tinha dez irmãos, e a família mantinha uma pequena orquestra caseira.
Seu primeiro contato com um instrumento foi o violino de um dos irmãos. Por volta dos 12 anos, adotou o bandolim como instrumento principal. Também tocava cavaquinho, violão, viola, guitarra portuguesa, violão tenor e piano.
Ainda adolescente, trabalhou como músico em cafés e cinemas do Recife. Aos 14 anos, apresentava-se como pianista do Jazz Band Leão do Norte. Nessa época, Pixinguinha, de passagem pela cidade com os Oito Batutas, convidou-o a seguir viagem com o grupo. Luperce recusou, porque ajudava a sustentar a família.
Na juventude, aproximou-se dos conjuntos de música regional do Recife, em um período de grande circulação de cocos, emboladas, frevos e outros gêneros nordestinos.
Os conjuntos nordestinos e a chegada ao Rio de Janeiro
Luperce estava entre os fundadores dos Turunas da Mauricéia, conjunto pernambucano que fez grande sucesso no Rio de Janeiro a partir de 1927. Ele, porém, não viajou com o grupo: seus irmãos João e Romualdo Miranda seguiram para o Rio, enquanto ele permaneceu no Recife.
Com o cantor Augusto Calheiros, os Turunas gravaram em 1927 a embolada Pinião, que se tornou um dos grandes sucessos do carnaval de 1928. A música é creditada a Luperce e Calheiros, mas sua autoria é discutida: pesquisadores apontam uma provável origem folclórica, e a partitura da época a atribuía aos próprios Turunas.
Luperce chegou ao Rio de Janeiro no início de 1928 com o conjunto Voz do Sertão, que havia fundado no Recife em 1927. Além dele próprio, no bandolim, o grupo reunia Robson Florence, também no bandolim, Jaime Florence, posteriormente conhecido como Meira, no violão, José Ferreira, no cavaquinho, e o cantor de emboladas Minona Carneiro.
Entre agosto de 1928 e março de 1929, o Voz do Sertão lançou 16 discos de 78 rotações pela Odeon, com duas músicas por disco, reunindo composições de Luperce como o choro Pra frente é que se anda, a valsa Lucinete e o fox-charleston Buliçoso. No mesmo período, ele gravou como solista pela Parlophon e foi contratado pela Rádio Clube do Brasil, a primeira emissora de sua longa trajetória no rádio.
O bandolim nas gravações e no rádio
No início da década de 1930, Luperce tornou-se um instrumentista requisitado pelas principais gravadoras do país. Seu bandolim está nas primeiras gravações dos sambas Com que roupa?, de Noel Rosa, e Se você jurar, de Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves, e pouco depois em No tabuleiro da baiana, de Ary Barroso.
Seu conjunto regional acompanhou artistas como Carmen Miranda, Francisco Alves, Mário Reis e Noel Rosa, numa época em que os pequenos grupos instrumentais tinham papel central nas gravações e nas transmissões radiofônicas.
Em 1931, fez uma excursão pela América do Sul com Carmen Miranda, Francisco Alves e Mário Reis, com apresentações na Argentina, no Chile e no Paraguai. Em Buenos Aires, tocou na Rádio El Mundo e no Cine Teatro Broadway, consolidando sua reputação de virtuose.
Depois da Rádio Clube do Brasil, atuou na Rádio Mayrink Veiga, onde foi atração do Programa Casé, e na Rádio Nacional. Na década de 1940, formou o Quarteto Brasil, com os violões de Romualdo Miranda e José Menezes e com Tute, gravando pela Continental.
A presença constante no rádio ajudou a difundir o bandolim como instrumento solista e acompanhador, levando seu repertório a um público muito mais amplo que o das rodas de choro.
O encontro com Pixinguinha
A relação musical entre Luperce Miranda e Pixinguinha, antigo admirador do bandolinista, produziu registros importantes para a história do choro.
Em 1934, Luperce gravou pela Victor uma versão instrumental de Carinhoso, anos antes de a composição receber a letra de João de Barro. Foi uma das primeiras gravações da música, que Pixinguinha já havia registrado em 1928, e o disco saiu com o título errado: Carinhos.
Na mesma sessão, gravou Naquele tempo, de Pixinguinha, lançada em disco ainda em 1934. É a primeira gravação conhecida desse clássico.
Pouco depois, Luperce gravou outras duas composições de Pixinguinha, o choro Recordando e a valsa Iolanda, ao lado do próprio compositor, na flauta, e de Arthur de Souza Nascimento, o Tute, no violão de sete cordas.
A formação reunia três instrumentos fundamentais na linguagem do choro: a flauta na condução melódica, o bandolim com sua articulação característica e o violão de sete cordas desenvolvendo o acompanhamento e os contrapontos graves. Esses registros documentam uma fase decisiva da música instrumental brasileira.
O estilo de Luperce Miranda
Luperce desenvolveu uma técnica de bandolim marcada pela agilidade, precisão e clareza de articulação. Sua execução explorava passagens rápidas, escalas, arpejos e ornamentos, combinados com frases melódicas elaboradas.
A velocidade tornou-se uma de suas marcas mais reconhecidas, mas seu estilo também se distinguia pelo tratamento expressivo das valsas e das melodias lentas. A riqueza dos fraseados, as soluções harmônicas inventivas e o domínio das possibilidades do instrumento ajudaram a estabelecer uma linguagem própria do bandolim brasileiro.
Ao lado de Jacob do Bandolim, catorze anos mais novo, Luperce tornou-se uma referência fundamental para os bandolinistas do choro no século XX.
Os dois tinham personalidades musicais distintas e uma relação de admiração mútua, mas não isenta de atrito. Em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, em 1967, Luperce afirmou ter sido professor de Jacob. Dias depois, no mesmo museu, Jacob respondeu que nunca fora seu aluno, embora elogiasse a técnica e a agilidade do pernambucano.
O retorno a Pernambuco
Em 1946, Luperce deixou as gravadoras e emissoras cariocas e voltou ao Recife, onde permaneceu até 1955.
Na capital pernambucana, trabalhou na Rádio Jornal do Commercio. Apresentava-se à frente da Grande Orquestra da emissora, então regida por César Guerra-Peixe, com o Trio Miranda, formado com os irmãos Nelson e Romualdo, e com seu regional, que contava com o jovem pandeirista Jackson do Pandeiro.
Pela emissora, excursionou por cidades nordestinas, de Salvador a Fortaleza. O período fortaleceu a prática do choro no Nordeste e coincidiu com a ascensão de Jacob do Bandolim no Rio de Janeiro.
A volta ao Rio de Janeiro e o ensino musical
Em maio de 1955, Luperce foi ao Rio para um show na Associação Brasileira de Imprensa e logo foi contratado pela Rádio Nacional, onde permaneceu até sua aposentadoria, em 1973. Também passou a gravar pela Sinter.
Em 1956, fundou a Academia Luperce Miranda, dedicada ao ensino de instrumentos de cordas. A escola sistematizou uma atividade de professor que ele já exercia informalmente havia anos.
Entre seus alunos esteve o paraibano Evandro do Bandolim, que se destacaria na geração seguinte.
Em 1970, foi o primeiro a receber o título de Bacharel da Música Popular Brasileira, concedido pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. A atividade como professor seguiu até o fim da vida, ao lado de uma carreira construída nos palcos, nos estúdios e no rádio.
Obras importantes
A produção de Luperce Miranda é estimada em cerca de 500 composições, entre choros, valsas, frevos, emboladas e outros gêneros populares.
Entre suas obras mais conhecidas estão:
- Segura o dedo: choro gravado pelo compositor em 1934, pela Victor, com conjunto regional, conhecido pelas exigências técnicas.
- Reboliço: choro gravado pela primeira vez em 1945 pelo Quarteto Brasil, uma de suas obras mais difundidas.
- Picadinho à baiana: choro gravado nos anos 1950, hoje parte do repertório tradicional do bandolim.
- Frevo pernambucano: parceria com Osvaldo Santiago, lançada por Francisco Alves no carnaval de 1931, considerada a primeira gravação com a palavra "frevo" no título.
- Fala, coração: valsa gravada pelo compositor em 1934, que evidencia sua escrita melódica.
- Tezinha: valsa lançada em seu primeiro disco pela Sinter, após a volta ao Rio.
- Pinião: embolada creditada a Luperce e Augusto Calheiros, de autoria discutida.
A diversidade de sua obra reflete o contato permanente com diferentes manifestações musicais brasileiras e sua atuação tanto como solista quanto como acompanhante.
Discografia selecionada
Luperce participou de cerca de 700 gravações ao longo da carreira. A maior parte foi lançada em discos de 78 rotações, antes da consolidação do LP no Brasil.
- Ritmos Brasileiros – Vol. 2: Choros e Valsas — anos 1950, Sinter
- De Ontem e Sempre — 1968, Museu da Imagem e do Som
- O Bandolim e o Mestre — 1970, Prodígio
- Luperce Miranda — 1971, Som/Copacabana
- História de um Bandolim — 1977, Discos Marcus Pereira
- Luperce Miranda Interpreta Luperce Miranda — 1978, lançamento póstumo
Em 1995, o bandolinista Pedro Amorim lançou Pedro Amorim Toca Luperce Miranda, seu primeiro disco solo, dedicado integralmente à obra do compositor pernambucano.
Últimos anos e importância para o choro
Na década de 1970, Luperce foi filmado no curta Chorinhos e chorões (1973) e, em 1976, num recital no Copacabana Palace registrado pelo cinejornal Brasil Hoje. Morreu no Rio de Janeiro em 5 de abril de 1977, aos 72 anos, depois de um infarto e após mais de cinco décadas de atividade musical.
Sua contribuição ultrapassou o virtuosismo. Participou da expansão do choro na indústria fonográfica, ajudou a firmar o bandolim como voz solista dos conjuntos regionais e deixou um repertório ainda tocado pelos músicos do gênero.
Como intérprete, compositor e professor, Luperce representa um elo entre a tradição dos chorões das primeiras décadas do século XX e as gerações que continuaram a desenvolver a linguagem do bandolim brasileiro.
Fontes
- Instituto Moreira Salles. Discografia Brasileira: Turuna, chorão e “máquina de tocar bandolim”: memórias de Luperce Miranda nos 120 anos de seu nascimento.
- Instituto Moreira Salles. Rádio Batuta: Luperce de ontem e sempre.
- Instituto Moreira Salles. Acervo José Ramos Tinhorão: Luperce Miranda, Luiz Barbosa e Pixinguinha.
- Instituto Casa do Choro. Acervo e verbete biográfico de Luperce Miranda.
- Instituto Memória Musical Brasileira (IMMuB). Discografia e registros de Luperce Miranda.
- Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Verbete Luperce Miranda.
- Discography of American Historical Recordings (UCSB). Victor 33825 e Victor 33795.
- BARBOZA, Marília Trindade. Luperce Miranda, o Paganini do bandolim. Rio de Janeiro: Editora da Fonseca, 2004.
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