Choropedia

Luciana Rabello: cavaquinista e produtora do choro brasileiro

Luciana Rabello é cavaquinista, compositora e co-fundadora da Acari Records e da Escola Portátil de Música, figura central na preservação e difusão do choro.

Luciana RabellocavaquinhochoroAcari RecordsEscola Portátil de Músicamúsica brasileira

luciana rabello

Introdução

Luciana Maria Rabello Pinheiro (Petrópolis, 24 de janeiro de 1961 —) é cavaquinista, compositora e produtora musical brasileira, considerada uma das maiores referências nacionais no cavaquinho e figura central na preservação, difusão e institucionalização do choro nas últimas décadas. Autodidata no instrumento que a consagrou, Luciana iniciou sua carreira profissional aos 15 anos no histórico conjunto Os Carioquinhas e construiu ao longo de mais de quatro décadas uma trajetória que alia o virtuosismo instrumental à atuação como produtora fonográfica, educadora e pesquisadora.

Sua importância para o choro ultrapassa o plano da performance: Luciana Rabello é co-fundadora da Escola Portátil de Música e da Acari Records — a primeira gravadora brasileira especializada em choro —, criadora do Festival Nacional de Choro e uma das responsáveis pelo mapeamento sistemático do repertório chorístico histórico. Herdeira direta da tradição dos grandes cavaquinistas do choro clássico, tem em Canhoto e Jonas Pereira da Silva — ambos do universo do Regional de Benedito Lacerda e do conjunto Época de Ouro — suas maiores referências no instrumento.


Formação e Contexto Musical

Luciana Rabello cresceu em ambiente familiar propício à música. Aos seis anos, aprendeu violão com o avô materno, José de Queiroz Baptista, primeira influência formal em sua formação. Entre os nove e os 14 anos estudou piano e teoria musical com Maria Alice Salles, professora da escola clássica — formação que lhe conferiu sólida base técnica e letramento musical, elementos raros entre os cavaquinistas de sua geração e que marcariam sua atuação posterior como arranjadora, compositora e educadora. Com essa professora permaneceu por cinco anos.

O cavaquinho, instrumento pelo qual seria reconhecida, foi aprendido de forma autodidata. Suas maiores referências no instrumento foram os mestres Canhoto e Jonas Pereira da Silva, ambos do conjunto Época de Ouro — linhagem que a situa diretamente na tradição do choro clássico carioca. Começou a compor aos 13 anos, e aos 15 ingressou no mercado profissional.

O contexto de sua formação é o do choro em pleno processo de renovação geracional nos anos 1970: uma tradição que havia atravessado décadas de ostracismo relativo e que, naquele momento, encontrava em jovens instrumentistas como Luciana, seu irmão Raphael Rabello e o violonista Maurício Carrilho uma nova geração disposta a levá-la adiante com rigor e identidade própria.


Estilo Musical

O estilo de Luciana Rabello no cavaquinho combina a herança dos grandes mestres do instrumento com uma abordagem técnica própria, desenvolvida a partir de seu aprendizado autodidata e de seu contato direto com a tradição oral do choro.

Linguagem rítmica e a levada: Uma das contribuições técnicas mais documentadas de Luciana Rabello é o desenvolvimento de uma levada específica para o cavaquinho — padrão rítmico-harmônico de acompanhamento — que ela criou transpondo para o seu instrumento as características da levada do violonista Meira, conhecida como "teleco-teco". Essa adaptação não é uma simples transferência: implica repensar os ataques, a distribuição entre cordas graves e agudas e a articulação rítmica dentro das particularidades do cavaquinho. Esse padrão é ensinado por Luciana a seus alunos e foi executado de forma exemplar por sua filha Ana Rabello na gravação do choro Alumiando, citada como referência prática dessa técnica.

Composição: Como compositora, transita entre o choro, o samba, a valsa e a canção. Desenvolveu seu talento composicional em parcerias com Raphael Rabello, Cristóvão Bastos e o poeta e letrista Paulo César Pinheiro, com quem é casada. Seu primeiro CD solo (2000) apresentou 12 músicas inéditas, sendo oito de sua autoria. Seu segundo álbum, Candeia Branca (2014), contém 14 faixas autorais, 13 delas em parceria com Paulo César Pinheiro.

Perfil interpretativo: Sua atuação como instrumentista é marcada pelo rigor técnico, pela musicalidade discreta e pelo profundo enraizamento na tradição do choro clássico. É descrita pelos pares como referência de cavaquinho "de acompanhamento" — função que, no choro, exige simultaneamente precisão rítmica, conhecimento harmônico e sensibilidade para servir o conjunto sem impor a si mesma.


Obras e Projetos Importantes

A produção de Luciana Rabello abrange tanto composições autorais quanto projetos de grande envergadura para a preservação e difusão do choro:

Obra / Projeto Ano Observações
LP "Os Carioquinhas no Choro" 1977 Disco de estreia com o grupo; lançado pela Som Livre.
LP "Tributo a Jacob do Bandolim" 1980 Gravado com o conjunto de Joel Nascimento; incluiu a Suíte Retrato de Radamés Gnattali.
Primeiro CD solo 2000 12 faixas inéditas, oito de sua autoria; participação de Maurício Carrilho, Cristóvão Bastos e Celsinho Silva.
Acari Records 2000 Gravadora co-fundada com Maurício Carrilho; primeira especializada em choro no Brasil.
Escola Portátil de Música (EPM) 2000 Co-fundada com Maurício Carrilho e Pedro Aragão no Sesc de Ramos; projeto de ensino de choro.
Coleção "Princípios do Choro" 15 CDs lançados pela Acari Records; material didático de referência para o gênero.
"Choro Carioca – Música do Brasil" 2007 Caixa com 9 CDs e 74 compositores; fruto do "Inventário do Repertório do Choro", mapeando mais de 8.000 obras entre 1870 e 1920.
"Candeia Branca" 2014 Segundo CD solo; 14 faixas autorais, 13 em parceria com Paulo César Pinheiro.

Exemplo Musical

O choro "Alumiando" é frequentemente citado como referência prática da levada de cavaquinho desenvolvida por Luciana Rabello. Na gravação, executada por sua filha Ana Rabello sob orientação da mãe, é possível observar a técnica de distinção entre ataques em cordas graves e agudas — elemento central da levada que Luciana transpôs da prática violonística do mestre Meira para o cavaquinho. O resultado é um acompanhamento que, preservando a ginga rítmica característica do choro, ganha uma articulação mais rica e diferenciada do que a levada tradicional do instrumento, tornando-se um modelo pedagógico e interpretativo de referência.


Influências e Relações

Influências sobre Luciana Rabello:

  • Canhoto — Cavaquinista do Regional de Benedito Lacerda; maior referência direta no instrumento.
  • Jonas Pereira da Silva — Cavaquinista do conjunto Época de Ouro; segunda grande referência na tradição clássica do instrumento.
  • Meira — Violonista cuja levada "teleco-teco" ao violão inspirou Luciana a desenvolver sua própria levada adaptada ao cavaquinho.
  • José de Queiroz Baptista — Avô materno e primeiro professor de violão; ponto de partida de sua formação musical.
  • Maria Alice Salles — Professora de piano e teoria musical; responsável pela base de letramento musical que distingue Luciana entre os cavaquinistas de sua geração.

Músicos e projetos influenciados por Luciana:

  • Ana Rabello — Filha e aluna; cavaquinista que dá continuidade direta à tradição técnica desenvolvida por Luciana, incluindo a levada transposta do violonista Meira.
  • Gerações de chorões da Escola Portátil de Música — Centenas de instrumentistas formados pelo projeto que ela co-fundou, fomentando novos grupos e novas vozes no choro brasileiro.

Colaboradores e parcerias centrais:

  • Raphael Rabello (irmão) — Parceiro de carreira desde Os Carioquinhas; co-compositor e figura central em sua trajetória até seu falecimento em 1995.
  • Maurício Carrilho — Parceiro de longa data; co-fundador da Acari Records e da Escola Portátil de Música.
  • Radamés Gnattali — Compositor que lhe dedicou a peça Variações sem tema, para cavaquinho e piano — homenagem que atesta o reconhecimento de sua statura como instrumentista entre os grandes nomes da música brasileira.
  • Paulo César Pinheiro — Marido e principal parceiro composicional; poeta e letrista com quem assina a maior parte de sua obra autoral.

Contexto de circulação:

  • Atuou em discos e shows de Caetano Veloso, Chico Buarque, Elizeth Cardoso, Elton Medeiros, Francis Hime, Gilberto Gil, João Nogueira, Nana Caymmi, Nara Leão, Paulinho da Viola, Baden Powell, Altamiro Carrilho, Toquinho e outros.
  • Em 1980, realizou turnê pela Itália, França e Suíça acompanhando Toquinho, com apresentações no Teatro Sistina (Roma) e no Olympia (Paris), sendo aclamada pela crítica europeia e convidada a retornar em 1982.

Legado

O legado de Luciana Rabello se estende por três dimensões complementares: a da performance, a da produção cultural e a da educação musical.

Como instrumentista, consolidou o cavaquinho como instrumento solista e de conjunto de alto nível dentro do choro, contribuindo para elevar o prestígio de um instrumento historicamente relegado ao segundo plano na percepção do público.

Como produtora e empreendedora cultural, suas iniciativas tiveram impacto estrutural no choro brasileiro. A Acari Records (2000) inaugurou no Brasil o modelo de gravadora especializada exclusivamente no gênero, viabilizando dezenas de discos que de outra forma dificilmente encontrariam espaço no mercado. A Escola Portátil de Música (2000) tornou-se um dos mais importantes polos de formação de novos chorões no Rio de Janeiro, reunindo mestres e iniciantes num modelo de transmissão oral e formal que recapitula o espírito das antigas rodas de choro. O "Inventário do Repertório do Choro", que resultou na caixa Choro Carioca – Música do Brasil (2007), representou um esforço de preservação histórica sem precedentes, recuperando mais de oito mil obras de compositores entre 1870 e 1920 — a maioria inédita.

Como educadora, Luciana Rabello transmite uma linhagem técnica direta que remonta aos grandes mestres do cavaquinho clássico, garantindo que esse vocabulário específico — incluindo a levada que ela própria desenvolveu a partir da tradição violonística — continue vivo e em evolução nas mãos de novas gerações.


Fontes

As informações deste verbete baseiam-se nas fontes a seguir. Dada a relativa escassez de literatura acadêmica publicada especificamente sobre Luciana Rabello, recomenda-se a consulta direta aos acervos institucionais indicados para pesquisas aprofundadas:

  • Enciclopédia da Música Brasileira (Art Editora / Publifolha) — Verbete biográfico sobre Luciana Rabello.
  • Acervo da Escola Portátil de Música (EPM) — Documentação institucional sobre fundação e atividades do projeto.
  • Acari Records — Catálogo fonográfico e notas de encarte dos discos lançados pelo selo, incluindo a coleção Princípios do Choro e a caixa Choro Carioca – Música do Brasil.
  • Instituto Casa do Choro — Fichas biográficas e documentação sobre instrumentistas e conjuntos do choro brasileiro.
  • CAZES, Henrique. Choro: do Quintal ao Municipal. São Paulo: Editora 34, 1998. — Contextualização histórica do choro e das gerações de instrumentistas às quais Luciana pertence.
  • Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS-RJ) — Registros do festival "Chorando no Rio" (2001) e outros eventos documentados em acervo audiovisual.

Nota: Para pesquisa sobre a obra autoral de Luciana Rabello, recomenda-se a consulta direta ao catálogo da Acari Records e às notas de encarte de seus discos solo — em especial o primeiro CD (2000) e Candeia Branca (2014) —, que contêm informações detalhadas sobre autorias, parcerias e o contexto de cada composição.

Curso sugerido

Saia do contexto editorial e entre no estudo guiado com partitura sincronizada e etapas estruturadas.

Todos os cursos

Explore o catálogo público de cursos conectado aos hubs de conteúdo.