Choropedia
Louro: clarinetista e compositor do choro
Lourival Inácio de Carvalho, o Louro, foi clarinetista, saxofonista e compositor de choro. Conheça sua trajetória, o Grupo do Louro e Urubu Malandro.

Introdução
Lourival Inácio de Carvalho (Niterói, Rio de Janeiro, 22 de abril de 1894 – 17 de junho de 1956), conhecido como Louro, foi clarinetista, saxofonista, compositor e mestre de banda brasileiro. Sua carreira se desenvolveu nas primeiras décadas do século XX, período em que o choro se consolidava como gênero e a indústria fonográfica se expandia no país.
Sua trajetória começou nas bandas de música fluminenses e seguiu nos conjuntos instrumentais que animavam bailes, festas populares, teatros e cinemas. À frente de seu próprio grupo, gravou dezenas de discos com repertório próprio e de compositores de sua geração.
Suas gravações de maior sucesso foram Urubu Malandro e Moleque Vagabundo.
Formação musical e primeiros anos
Nascido em Niterói, Louro começou a estudar música na banda da Companhia Manufatora Fluminense, fábrica de tecidos onde também trabalhava. Ali teve contato com a prática instrumental coletiva, a leitura musical e o repertório das bandas da época.
Seu talento chamou a atenção cedo. Com pouco mais de 16 anos, foi convidado a organizar e reger a banda de música de Rio Bonito, no interior do estado do Rio de Janeiro.
Mais tarde, tornou-se mestre de banda do Grupo Vinte e Um de Abril, em Capivari, município vizinho a Rio Bonito que passou a se chamar Silva Jardim em 1943. Foi nesse período que criou sua adaptação de Urubu Malandro, tema popular que ficaria associado ao seu nome.
O Grupo do Louro
Depois de deixar a atividade de mestre de banda, Louro organizou o Grupo do Louro, que passou a tocar em festas, bailes, teatros e cinemas do Rio de Janeiro e de Niterói.
Um dos integrantes do conjunto foi João da Baiana (João Machado Guedes, 1887–1974), compositor, cantor e instrumentista de pandeiro e prato-e-faca, que também passou pelo Grupo da Guarda Velha e pelo conjunto Diabos do Céu.
O repertório do grupo reunia choros, sambas, polcas, mazurcas, schottisches e maxixes. Essa diversidade era característica dos conjuntos de chorões da época, que transitavam entre as danças de origem europeia e os ritmos brasileiros.
Além das composições de Louro, o grupo interpretava obras de Anacleto de Medeiros, Ernesto Nazareth, Azevedo Lemos, José Belisário, Otávio Dutra, Donga e Benedito Montes, entre outros.
As gravações
A partir de 1913, o Grupo do Louro realizou dezenas de gravações para a Casa Edison, empresa fundamental na implantação da indústria fonográfica brasileira.
Esses registros pertencem à era das gravações acústicas, quando os músicos tocavam diante de grandes cornetas que captavam o som mecanicamente, antes da introdução dos microfones elétricos. Eles documentam a sonoridade dos pequenos conjuntos instrumentais brasileiros antes da consolidação dos regionais associados à era do rádio.
As gravações de Urubu Malandro e Moleque Vagabundo foram os maiores sucessos do grupo.
Louro continuou gravando na era elétrica. Em dezembro de 1930, registrou para a Victor, no Rio de Janeiro, dois choros de sua autoria como solista de saxofone: Em Alta Madrugada e Osvaldina.
Urubu Malandro
Urubu Malandro é a obra mais conhecida associada a Louro. Segundo a Casa do Choro, sua origem está em um tema popular que circulava no interior fluminense, ao qual Louro deu uma adaptação própria quando era mestre de banda em Capivari.
A distinção entre a melodia tradicional e as intervenções de Louro é importante para compreender a história da peça. Embora a obra apareça catalogada em seu nome, sua biografia a descreve como adaptação de um tema anterior.
Com o passar dos anos, Urubu Malandro entrou para o repertório de diferentes gerações de chorões e ficou especialmente associado à prática das variações melódicas, recurso que permite ao solista desenvolver novas frases sobre um tema conhecido.
O Grupo do Louro na Festa da Penha
Na década de 1920, o Grupo do Louro foi presença constante na Festa da Penha, uma das celebrações populares mais importantes do Rio de Janeiro, ao lado dos grupos de Caninha, Pixinguinha, Donga e Sinhô.
Além de sua dimensão religiosa, a festa era um espaço de encontro entre músicos profissionais e amadores e de divulgação de novas composições.
A participação regular do grupo demonstra sua inserção no circuito musical carioca da época.
Composições
Louro deixou obras em diferentes gêneros da música popular urbana. O acervo da Casa do Choro registra 16 composições:
- A Origem da Dor
- Catinga de Mulato
- Céu Moreno
- Coração que Chora
- Édila
- Então Não Sei!
- Jardineiro
- Juvenal Brandão
- Mágoas do Louro
- Não É Exato
- O Namoro do Avelino
- Oculta
- Parafuso do Inferno
- Quando Ela Gosta
- Rogério no Choro
- Urubu Malandro
Seus discos de 1930 para a Victor acrescentam outros dois choros de sua autoria:
- Em Alta Madrugada
- Osvaldina
Louro e a história do choro
A trajetória de Louro reúne práticas fundamentais para o desenvolvimento do choro no início do século XX: a formação nas bandas de música, a organização de um conjunto próprio e a participação nas primeiras décadas da indústria fonográfica.
Seu repertório também documenta a convivência entre gêneros que contribuíram para a formação do repertório dos chorões, como a polca, o maxixe, o schottisch e o samba.
Louro faleceu em 17 de junho de 1956, aos 62 anos. Seus discos e partituras permanecem como documentos importantes para o estudo da música instrumental brasileira das primeiras décadas do século XX.
Fontes
- Instituto Casa do Choro. Louro (Lourival Inácio de Carvalho). Enciclopédia Ilustrada do Choro no Século XIX. Referência principal para os dados biográficos e a trajetória profissional.
- Instituto Casa do Choro. Catálogo de obras de Louro. Registro de 16 composições preservadas no acervo.
- Instituto Moreira Salles. João da Baiana tocando prato-e-faca. Fotografia, c. 1968, Coleção Pixinguinha. A legenda biográfica registra a participação de João da Baiana no Grupo do Louro.
- Discography of American Historical Recordings (UC Santa Barbara Library). Louro. Registro das gravações Victor de dezembro de 1930: Em Alta Madrugada (matriz 65081, disco Victor 33433) e Osvaldina (matriz 65082, disco Victor 33443), ambas como solo de saxofone.
- IBGE. Silva Jardim: histórico do município. Registro da mudança de nome de Capivari para Silva Jardim (Decreto-lei estadual nº 1.056, de 31/12/1943).
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