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José Rielli: acordeonista e compositor do choro paulista

Conheça José Rielli (1885–1947), acordeonista e compositor italiano radicado em São Paulo, pioneiro do acordeom em disco e integrante do Sexteto Piratininga e da Orquestra Colbaz.

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Giuseppe Rielli

Introdução

José Rielli, nome pelo qual ficou conhecido Giuseppe Rielli (Pontedera, Pisa, Itália, 19 de novembro de 1885 – São Paulo, 22 de março de 1947), foi compositor e acordeonista, figura importante da música instrumental paulista na primeira metade do século XX.

Imigrante italiano criado no interior de São Paulo, participou dos primeiros registros fonográficos do acordeom no Brasil e atuou em conjuntos fundamentais para a consolidação do choro paulista, como o Sexteto Piratininga e a Orquestra Colbaz.

Sua trajetória atravessa um período decisivo da música brasileira: das primeiras gravações mecânicas da década de 1910 à expansão das gravadoras, do cinema falado, do rádio e das grandes formações instrumentais das décadas seguintes.


Da Itália para São Paulo

Rielli chegou ao Brasil em 1891, ainda criança, acompanhado do pai, que foi viver em Itu, no interior paulista. Por volta dos dez anos começou a aprender música com o organista da igreja matriz da cidade, que percebeu sua aptidão musical.

Tornou-se marceneiro e, paralelamente, continuou estudando piano e harmônica. Desenvolveu também a arte do conserto e da afinação de pianos e harmônicas, atividade que o colocou em contato direto com diferentes mecanismos de teclado e fole.

Mais tarde mudou-se para o bairro do Brás, na capital, onde se tornaria um dos instrumentistas mais ativos da cena paulistana. Sua formação aconteceu em um ambiente musical anterior à consolidação do mercado fonográfico brasileiro. Quando começou a gravar, o acordeom ainda ocupava um espaço bastante diferente daquele que alcançaria posteriormente na música popular.


Um pioneiro do acordeom em disco

Em 1914, Rielli começou a gravar para a Odeon/Casa Edison, em registros nos quais aparece também com seu nome de batismo, Giuseppe Rielli. Gravaria depois pela Columbia e pela paulistana Arte-Fone.

Esses discos estão entre os primeiros documentos fonográficos do acordeom na música popular brasileira. Seu repertório incluía valsas, mazurcas, tangos, peças de salão e adaptações de obras conhecidas, refletindo a ampla circulação desses gêneros no início do século XX.

Entre suas composições desse período aparecem as mazurcas Às Margens do Tietê e Saudades da Lapa.

A presença de Rielli nos primeiros anos da indústria do disco é particularmente significativa porque antecede a grande popularização do acordeom no Brasil. Décadas antes de sanfoneiros e acordeonistas se tornarem personagens centrais do rádio e da música popular, o instrumento já aparecia nos estúdios através de músicos como ele.


O Sexteto Piratininga

A partir de 1927, Rielli passou a integrar o Sexteto Piratininga, o primeiro conjunto de que fez parte e um dos mais importantes do choro paulista do período.

O grupo era ligado ao violinista e compositor Alberto Marino. Com ele, Rielli gravou em 1932 Rapaziada do Brás e Luar de São Paulo, duas valsas de Marino associadas à paisagem musical paulistana daquele período.

Ao mesmo tempo, continuou registrando suas próprias composições, entre elas Arminda, Saudosa Araraquara e Stella.

O Sexteto Piratininga revela uma característica importante do choro paulista das primeiras décadas do século XX. Ao lado de instrumentos de cordas e do violino, o acordeom ajudava a criar uma sonoridade distinta daquela associada aos regionais cariocas de flauta, cavaquinho e violões.


A Orquestra Colbaz

Outro capítulo fundamental da trajetória de Rielli foi sua participação na Orquestra Colbaz, criada no início da década de 1930 e dirigida pelo pianista e maestro Gaó, Odmar Amaral Gurgel.

O nome da orquestra vinha do endereço telegráfico da Columbia no Brasil, cujos estúdios ficavam em São Paulo. A formação reunia alguns dos principais instrumentistas da cena paulista: Gaó ao piano, Atílio Grany na flauta, Jonas Aragão na clarineta, José do Patrocínio Oliveira, o Zezinho, mais tarde conhecido como Zé Carioca, no violino, Hudson Gaya, o Petit, no violão, e Rielli no acordeom.

Com essa formação, Rielli participou de gravações importantes da obra de Zequinha de Abreu, entre elas Tico-Tico no Fubá, Os Pintinhos no Terreiro, Nossa Padroeira, Amando sobre o Mar e Branca.

Esses registros ocupam um lugar especial na história do choro. A gravação de Tico-Tico no Fubá pela Colbaz, lançada pela Columbia em 1931, no disco 22029, foi a primeira da composição que, anos mais tarde, se tornaria conhecida internacionalmente. Em 1932, a orquestra fez também o primeiro registro de Os Pintinhos no Terreiro, outro futuro clássico do gênero.

A presença do acordeom de Rielli dentro da orquestra também mostra a variedade instrumental existente no choro paulista daquele período, no qual formações próximas das orquestras de salão conviviam com pequenos conjuntos regionais.


Compositor e solista

Rielli manteve paralelamente uma produção própria como compositor e solista.

Seu repertório circulava por gêneros muito presentes no mercado fonográfico da época, sobretudo valsas e mazurcas. Em 1932 gravou pela Columbia a valsa Alma Dolorosa e a mazurca Olga, ambas de sua autoria. Em 1939 registrou, entre outras, a mazurca Sombras do Império e a polca Saltitante. Entre suas gravações encontram-se ainda títulos como Alegrias de Primavera, Rapaziada de São Caetano e Joly.

A Discografia Brasileira registra mais de uma centena de fonogramas relacionados a Rielli como intérprete ao longo de sua trajetória, além de diferentes composições de sua autoria.

Esse conjunto de gravações permite observar um músico que não estava restrito a um único gênero. A mesma trajetória que o colocou dentro da história do choro também passa pelas valsas urbanas, mazurcas, polcas, rancheiras e outras formas que circulavam entre salões, rádios, discos e conjuntos populares.

Em 1931, Rielli apareceu ainda em Coisas Nossas, de Wallace Downey, o primeiro filme brasileiro em forma de revista musical.


Entre o choro e a música sertaneja

Nas décadas seguintes, o acordeom ganharia um espaço cada vez maior na música popular brasileira. Rielli participou diretamente dessa transformação.

Sua atuação passou também pelo universo da música rural e sertaneja produzida em São Paulo. Uma de suas composições mais conhecidas nesse repertório é Feijão Queimado, parceria com Raul Torres, posteriormente gravada por Raul Torres e Florêncio.

Nos últimos cinco anos de vida, Rielli manteve na Rádio Bandeirantes o programa Os Três Batutas do Sertão, no ar até sua morte, em 1947.

Essa aproximação mostra como as fronteiras entre choro, música de salão e repertório sertanejo eram permeáveis na São Paulo das décadas de 1930 e 1940. Instrumentistas circulavam entre rádios, estúdios, orquestras e conjuntos acompanhadores, levando técnicas e repertórios de um ambiente para outro.

O acordeom estava no centro dessa circulação.


Uma família de músicos

A música continuou também dentro da família Rielli.

Dos quatro filhos de Rielli, Emílio Rielli e Oswaldo Rielli, conhecido artisticamente como Rielinho, seguiram carreira musical. Emílio atuou como compositor e maestro; Oswaldo tornou-se acordeonista, compositor e artista de rádio e disco.

Em 1941, o próprio José Rielli organizou a Orquestra Típica Rielli, formação dedicada ao repertório das orquestras típicas e ao universo do tango, que passou a ser dirigida por Emílio.

Rielinho continuaria gravando durante décadas e registraria inclusive composições do pai, fazendo com que parte desse repertório permanecesse em circulação depois da morte de José Rielli.


José Rielli e o choro paulista

A trajetória de José Rielli ajuda a ampliar a compreensão da história do choro para além do eixo mais documentado do Rio de Janeiro.

Nas primeiras décadas do século XX, São Paulo desenvolveu uma cena instrumental própria, alimentada pela imigração, pelos cafés, teatros, rádios, gravadoras e pela expansão urbana. Músicos como Gaó, Garoto, Alberto Marino, Armandinho Neves e José Rielli participaram desse ambiente.

Dentro dessa história, Rielli ocupa uma posição particular.

Foi um dos primeiros acordeonistas registrados pela indústria fonográfica brasileira, participou de conjuntos importantes da música instrumental paulista e esteve presente nas primeiras gravações de obras que se tornariam documentos fundamentais do repertório de choro.

Sua história mostra também que o acordeom já fazia parte da música urbana brasileira muito antes de sua explosão de popularidade a partir das décadas de 1940 e 1950.


Obras importantes

Entre suas composições estão:

  • Às Margens do Tietê
  • Saudades da Lapa
  • Arminda
  • Saudosa Araraquara
  • Stella
  • Alegrias de Primavera
  • Alma Dolorosa
  • Olga
  • Sombras do Império
  • Saltitante
  • Rapaziada de São Caetano
  • Joly
  • Feijão Queimado, com Raul Torres

Gravações selecionadas

Como intérprete em conjuntos:

  • Rapaziada do Brás, de Alberto Marino — Sexteto Piratininga
  • Luar de São Paulo, de Alberto Marino — Sexteto Piratininga
  • Tico-Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu — Orquestra Colbaz, primeira gravação, 1931
  • Os Pintinhos no Terreiro, de Zequinha de Abreu — Orquestra Colbaz, primeira gravação, 1932
  • Nossa Padroeira, de Zequinha de Abreu — Orquestra Colbaz
  • Amando sobre o Mar, de Zequinha de Abreu — Orquestra Colbaz
  • Branca, de Zequinha de Abreu — Orquestra Colbaz

Fontes

  • Instituto Casa do Choro. Acervo e documentação sobre José Rielli e o choro paulista.
  • Instituto Moreira Salles. Discografia Brasileira e registros fonográficos de José Rielli, Sexteto Piratininga e Orquestra Colbaz.
  • Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Verbete “José Rielli”.
  • Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Verbete “Orquestra Colbaz”.
  • PRANDO, Flávia Rejane. Pesquisa sobre o violão e a música popular em São Paulo. ECA-USP.
  • José Rielli, chorão sanfoneiro de Itu. Catraca Livre.

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