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Joel Nascimento: bandolinista e o choro

Verbete sobre o bandolinista Joel Nascimento: trajetória, Camerata Carioca, parceria com Radamés Gnattali e a renovação do choro brasileiro.

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Introdução

Joel Nascimento (Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1937) é bandolinista, compositor e multi-instrumentista, um dos nomes centrais do choro brasileiro a partir da década de 1970. Sua trajetória ocupa uma posição singular entre a geração formada sob a influência direta de Jacob do Bandolim e os músicos que participariam da renovação do gênero nas décadas seguintes.

Embora tenha se consagrado ao bandolim de oito cordas, sua formação passou pelo piano, cavaquinho, violão e acordeom. Essa experiência ampla contribuiu para uma maneira de tocar que combina a articulação característica do choro com uma concepção musical próxima da escrita camerística.

Joel também teve papel decisivo na aproximação entre o regional de choro e a obra de Radamés Gnattali. A formação que daria origem à Camerata Carioca, reunida inicialmente para interpretar Retratos, tornou-se uma referência para uma geração de instrumentistas e abriu novas possibilidades de repertório e de escrita para os conjuntos de choro.

Formação e primeiros anos

Nascido na Penha Circular, no subúrbio do Rio de Janeiro, Joel começou a se interessar por música ainda criança. Aos dez anos já tocava cavaquinho e, aos 14, iniciou estudos de piano. Depois estudou acordeom na Academia Mário Mascarenhas e, aos 18 anos, ingressou no Conservatório Brasileiro de Música, onde estudou piano clássico com Max de Menezes Gil.

Essa formação deixaria marcas profundas em sua maneira de estudar e interpretar. Mesmo quando o bandolim se tornou seu principal instrumento, Joel manteve uma concepção de estudo construída a partir da disciplina do piano clássico, trabalhando articulação, dinâmica, sonoridade e organização das frases com grande atenção.

Ainda jovem conheceu Jacob do Bandolim, numa época em que tocava principalmente cavaquinho e estudava piano. O contato com Jacob foi importante para sua compreensão do instrumento.

O retorno à música e o bandolim

Aos 22 anos, Joel interrompeu sua trajetória musical depois de perder completamente a audição do ouvido direito em decorrência de uma otoesclerose. Afastou-se dos instrumentos, trabalhou na Panair do Brasil e posteriormente formou-se como técnico em radiologia, profissão que exerceu em hospitais públicos do Rio de Janeiro e no Instituto Médico Legal.

O retorno começou em 1968, por intermédio de seu irmão Joyr Nascimento, violonista e um dos fundadores do Sovaco de Cobra. Joyr levou à casa de Joel o Dr. Oraci, advogado e músico amador. Oraci pediu que Joel tocasse cavaquinho e, impressionado com o que ouviu, convidou-o para participar das rodas de choro que promovia em sua casa, frequentadas por músicos como Dino Sete Cordas e César Faria.

Em 1969, Dr. Oraci presenteou Joel com um bandolim adquirido na tradicional loja carioca Ao Bandolim de Ouro, conhecida pela fabricação e comercialização de instrumentos de cordas. O presente mudaria definitivamente o rumo de sua trajetória: já depois dos 30 anos, Joel passou a se dedicar ao bandolim e começou a construir a carreira pela qual se tornaria um dos principais instrumentistas de sua geração.

A influência de Jacob permaneceu presente, mas Joel desenvolveu progressivamente uma linguagem própria. Sua formação pianística e o interesse por repertórios que ultrapassavam os limites tradicionais do choro fariam com que o bandolim se tornasse, em suas mãos, um instrumento capaz de transitar entre rodas, gravações populares e obras de maior elaboração camerística.

Essa abertura de repertório seria uma das características fundamentais de sua carreira.

O Sovaco de Cobra e a retomada do choro

Joel esteve ligado ao Sovaco de Cobra, na Penha, reduto de chorões surgido no final dos anos 1960 e que se tornou um dos principais pontos de encontro do choro carioca durante a década de 1970.

O local reuniu músicos de diferentes gerações e ajudou a fortalecer uma prática que nunca havia desaparecido das rodas e dos bairros do Rio, mas que voltaria a ganhar grande visibilidade pública durante a década de 1970.

Nesse período, concertos, festivais e novos discos recolocaram o choro em grandes salas e no mercado fonográfico. Ao lado de músicos como Déo Rian, Abel Ferreira, Altamiro Carrilho, Waldir Azevedo e Paulo Moura, Joel tornou-se um dos instrumentistas associados a esse movimento de retomada.

Seu bandolim, porém, apontava também para outra direção: além do repertório tradicional, Joel se interessava pela música de concerto, pelos arranjos elaborados e por compositores capazes de aproximar escrita e prática popular.

Essa busca encontraria em Radamés Gnattali um interlocutor fundamental.

*Chorando pelos dedos*

Em 1976, Joel lançou seu primeiro disco solo, Chorando pelos dedos.

O título vinha da composição de João Nogueira e Cláudio Jorge, criada em sua homenagem e gravada por João Nogueira no ano anterior.

O álbum apresentou um bandolinista capaz de percorrer diferentes regiões da música brasileira sem abandonar a linguagem do choro. Entre as faixas estavam Evocação de Jacob, de Avena de Castro, Chorinho do Sovaco de Cobra, de Abel Ferreira, além de composições do próprio Joel.

Vieram depois trabalhos como Meu sonho e O pássaro, ampliando ainda mais o repertório registrado pelo bandolinista.

Paralelamente à carreira solo, Joel tornou-se presença frequente em estúdio. Seu bandolim pode ser ouvido em gravações de artistas como Chico Buarque, Clara Nunes, João Nogueira, Paulinho da Viola, Nara Leão, Dona Ivone Lara, Elizeth Cardoso e Paulo Moura, entre muitos outros.

Joel Nascimento e Radamés Gnattali

A relação com Radamés Gnattali ocupa um lugar especial na trajetória de Joel.

Nos anos 1970, Joel aproximou-se de Retratos, obra que Radamés havia escrito originalmente para bandolim e conjunto instrumental e que Jacob do Bandolim gravara em 1964.

Joel estudou a composição e passou a tocá-la com o próprio Radamés ao piano. A afinidade musical entre os dois levou a uma colaboração que ultrapassaria a relação entre intérprete e compositor.

Em 1979, Joel pediu a Radamés uma nova instrumentação de Retratos, substituindo as cordas da versão anterior por uma formação baseada no regional de choro.

Para executar o trabalho, reuniu alguns dos jovens músicos mais importantes daquele momento: Raphael Rabello, Maurício Carrilho, Luís Otávio Braga, Luciana Rabello e Celsinho Silva.

Esse núcleo daria origem à primeira formação da Camerata Carioca.

A nova versão de Retratos colocou lado a lado duas tradições que durante muito tempo haviam sido tratadas separadamente: a escrita camerística e a formação instrumental do choro.

O resultado foi registrado no álbum Tributo a Jacob do Bandolim, lançado em 1980.

A Camerata Carioca

A Camerata Carioca tornou-se uma das experiências fundamentais da música instrumental brasileira daquele período.

Em vez de utilizar o regional apenas como acompanhamento para um solista, o conjunto explorava arranjos nos quais cada instrumento assumia funções cuidadosamente escritas. Violões, cavaquinho, percussão e bandolim participavam de uma textura coletiva, com contracantos, mudanças de função e diálogo constante entre as vozes.

Joel ocupava o centro melódico da formação, mas sem transformar o grupo em simples acompanhamento de bandolim.

Essa concepção aparece com clareza nos trabalhos realizados com Radamés.

Em Vivaldi & Pixinguinha, o conjunto colocou lado a lado repertórios aparentemente distantes. Obras de Antonio Vivaldi conviviam com composições de Pixinguinha, mostrando que a formação do regional podia lidar tanto com contraponto e escrita camerística quanto com o balanço e a articulação próprios do choro.

A experiência teve forte repercussão sobre a geração seguinte. A Camerata ajudou a demonstrar que a tradição do choro podia ser preservada não pela repetição de modelos, mas também pela ampliação de suas possibilidades instrumentais.

Entre o choro e outros repertórios

A trajetória de Joel Nascimento ultrapassa o repertório tradicional do choro. Ao longo da carreira, seu bandolim transitou por obras de Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Ernesto Nazareth e Waldir Azevedo, mas também por compositores como Vivaldi, Villa-Lobos e Radamés Gnattali, em formações que iam do regional a conjuntos camerísticos e orquestras.

Joel também desenvolveu uma produção própria como compositor, escrevendo choros, peças instrumentais e obras para piano. Entre suas composições estão Ecos, O pássaro, Primavera, Contrastes, Cantilena, Caminhos, Congada do Sino, Silhueta e Lamento.

Ecos ganhou projeção na década de 1970 ao integrar a trilha sonora da novela À sombra dos laranjais e também foi registrada em seu primeiro álbum.

Parte de sua produção para piano recebeu nova leitura em 2023, no trabalho Maria Teresa Madeira interpreta Joel Nascimento – Obras para piano, evidenciando uma escrita que não se restringia às possibilidades do bandolim.

O Sexteto Brasileiro e as viagens internacionais

Joel formou o Sexteto Brasileiro, com músicos ligados à mesma geração instrumental que havia renovado o choro.

O conjunto reuniu formações que incluíram nomes como Paulo Sérgio Santos, Maurício Carrilho, Luís Otávio Braga, João Lyra, Henrique Cazes e Beto Cazes.

Com o grupo, Joel realizou turnês pelos Estados Unidos no final da década de 1980 e participou do Santa Fe Chamber Music Festival, levando ao circuito de música de câmara norte-americano um repertório que atravessava Pixinguinha, Jacob, Radamés, Villa-Lobos, Ernesto Nazareth e temas tradicionais brasileiros.

Gravações dessas apresentações seriam lançadas em trabalhos como Joel Nascimento and the Brazilian Sextet – Live! e, posteriormente, Joel Nascimento & Sexteto Brasileiro.

A relação com Jacob

Mesmo tendo seguido caminhos próprios, Joel nunca abandonou a referência de Jacob do Bandolim.

Em 1998 lançou Relendo Jacob do Bandolim, dedicado integralmente à obra do compositor. O repertório inclui peças como Noites cariocas, Doce de coco, Vibrações, Bole-bole, Reminiscências, Remelexo, Dolente e Alvorada.

Duas décadas depois, voltou a esse universo ao lado de Fábio Peron no álbum Jacob do Bandolim 100 Anos – Sentimento & Balanço, lançado em 2018.

Esses registros mostram uma relação construída não apenas pela admiração, mas pela continuidade de uma escola instrumental. Joel absorveu aspectos fundamentais da técnica e da concepção de Jacob, ao mesmo tempo em que levou o bandolim para repertórios e formações diferentes daqueles que haviam marcado a geração anterior.

Ensino e transmissão

A atuação de Joel também passou pela formação de novos músicos.

Ao longo de vários anos ministrou cursos de bandolim, prática de conjunto e oficinas de choro em festivais e instituições brasileiras, participando repetidamente da Oficina de Música de Curitiba e do Festival de Londrina.

Em 2010 foi convidado para a aula inaugural do curso de Bacharelado em Bandolim da Escola de Música da UFRJ, um marco do processo de institucionalização do instrumento dentro do ensino superior brasileiro.

Sua relação com músicos mais jovens também se desenvolveu fora das salas de aula. Joel manteve contato permanente com diferentes gerações de bandolinistas, violonistas e cavaquinistas.

Um encontro simbólico ocorreu com Hamilton de Holanda, com quem gravou De bandolim a bandolim. O projeto colocou frente a frente duas concepções do instrumento formadas em momentos distintos da história do choro.

O bandolim colorido

A expressão que acabou associada à figura de Joel nasceu de sua relação com Radamés Gnattali.

Ao ouvi-lo interpretar Retratos, Radamés descreveu sua maneira de tocar recorrendo à imagem da cor: enquanto outros bandolins lhe pareciam em preto e branco, o de Joel seria colorido.

A frase acabou se tornando uma síntese adequada de sua trajetória.

A cor, nesse caso, não está apenas no timbre. Está na forma como Joel atravessou repertórios, formações e gerações sem estabelecer uma fronteira rígida entre o chorão, o intérprete de música de câmara, o músico de estúdio e o compositor.

Sua carreira ajudou a estabelecer uma ponte entre a escola do bandolim consolidada por Jacob e uma geração que, a partir dos anos 1970 e 1980, ampliaria profundamente o espaço ocupado pelo choro na música instrumental brasileira.

Discografia selecionada

  • Chorando pelos dedos — 1976
  • Meu sonho — 1978
  • O pássaro — 1978
  • Tributo a Jacob do Bandolim, com a Camerata Carioca e participação de Radamés Gnattali — 1980
  • Vivaldi & Pixinguinha, com Radamés Gnattali e Camerata Carioca — 1982
  • Tocar, com a Camerata Carioca — 1983
  • Joel Nascimento and the Brazilian Sextet – Live! — 1989
  • Chorando de verdade — 1995
  • Relendo Jacob do Bandolim — 1998
  • Joel Nascimento & Sexteto Brasileiro — 1998
  • Valsas brasileiras, com Fernanda Canaud — 2008
  • De bandolim a bandolim, com Hamilton de Holanda — 2009
  • Joel Nascimento – Som, Estilo & Improviso – 80 Anos — 2017
  • Jacob do Bandolim 100 Anos – Sentimento & Balanço, com Fábio Peron — 2018

Fontes

  • Instituto Casa do Choro — acervo Memória do Choro: verbete de Joel Nascimento, documentação biográfica, discografia e registros relacionados à Camerata Carioca. Disponível em: https://acervo.casadochoro.com.br/

  • Instituto Moreira Salles — Acervo IMS e Rádio Batuta: programas, registros fonográficos e documentação sobre Joel Nascimento, Jacob do Bandolim, Radamés Gnattali e a Camerata Carioca. Disponível em: https://ims.com.br/ e https://radiobatuta.ims.com.br/

  • Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — verbete Joel Nascimento. Disponível em: https://dicionariompb.com.br/

  • O Globo — reportagem e entrevista com Joel Nascimento por ocasião de seus 80 anos, com informações sobre sua trajetória, a otoesclerose e o retorno à atividade musical.

  • Folha de Londrina — entrevista com Joel Nascimento, com depoimentos sobre sua formação, afastamento da música e atividade profissional como técnico em radiologia.

  • TV Cultura — documentação sobre a trajetória de Joel Nascimento e a história do bandolim recebido do Dr. Oraci, adquirido na loja Ao Bandolim de Ouro.

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