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Irineu de Almeida: compositor e oficleide no choro

Irineu de Almeida (1862–1914), o Irineu Batina, foi compositor, multi-instrumentista de oficleide e professor de Pixinguinha no início do choro carioca.

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Introdução

Irineu Gomes de Almeida (Rio de Janeiro, 23 de novembro de 1862 – 22 de agosto de 1914), conhecido como Irineu Batina, foi compositor, professor e multi-instrumentista, atuando no oficleide, trombone e bombardino. Figura importante da música carioca na passagem do século XIX para o XX, participou de bandas, companhias líricas, ranchos carnavalescos, teatros de circo e grupos de choro.

Seu nome está especialmente ligado ao oficleide, instrumento grave de sopro que ocupava um espaço importante nos conjuntos daquele período, e à linguagem do contraponto, em que linhas graves dialogavam com a melodia principal.

Irineu também teve participação decisiva na formação musical de Pixinguinha. Foi seu professor, levou o jovem flautista para apresentações profissionais e tocou ao seu lado nas primeiras gravações do Choro Carioca.

A curta distância entre as gerações dos dois músicos ajuda a compreender uma transformação fundamental na linguagem do choro: dos contracantos realizados pelo oficleide no início do século XX às linhas que Pixinguinha desenvolveria décadas depois ao saxofone.


Formação musical

Irineu estudou harmonia, contraponto e fuga no Conservatório Imperial de Música, formação que se refletiria tanto em sua atuação profissional quanto na maneira como construía suas linhas instrumentais.

Trabalhava em diferentes ambientes musicais. Nos conjuntos de choro, seu instrumento mais característico era o oficleide. Nas companhias líricas que se apresentavam no Rio de Janeiro, atuava principalmente como trombonista, enquanto na Banda do Corpo de Bombeiros tocou instrumentos graves da família dos metais.

Seu ingresso na banda, então regida por Anacleto de Medeiros, está documentado em 1900. Além de instrumentista, Irineu também compunha para formações desse tipo. Entre suas obras está a marcha Arthur Azevedo, executada pela Banda do Corpo de Bombeiros em programa registrado em 1909.


Irineu Batina e o oficleide

O apelido Irineu Batina surgiu pelo hábito de usar uma longa sobrecasaca, peça comum no vestuário masculino da época, cuja aparência lembrava uma batina.

Entre os carnavalescos, ganhou ainda outro apelido: Lorde Mamoeiro. “Mamoeiro” era uma das maneiras pelas quais os chorões se referiam ao oficleide.

Inventado na França no início do século XIX, o oficleide é um instrumento de metal de tubo cônico, tocado com bocal, mas dotado de chaves semelhantes às encontradas em instrumentos de madeira. No Brasil, encontrou espaço nas bandas e também nos primeiros conjuntos de choro.

Sua região grave permitia sustentar os baixos, mas instrumentistas como Irineu iam muito além dessa função. Em suas gravações, o oficleide desenvolve linhas próprias, responde à melodia, antecipa movimentos harmônicos e cria contracantos.

Esse modo de tocar ajuda a revelar uma etapa anterior ao desenvolvimento das baixarias do violão e dos contracantos que mais tarde se tornariam uma das características fundamentais dos regionais de choro.


As rodas do Rio de Janeiro

Irineu circulou entre alguns dos principais músicos da vida musical carioca de seu tempo.

Frequentava a tradicional loja O Cavaquinho de Ouro, ponto de encontro de instrumentistas onde se tocava e discutia música. Por ali passaram nomes como Quincas Laranjeiras, Luiz de Souza, Anacleto de Medeiros, Sátiro Bilhar e o jovem Heitor Villa-Lobos.

Em 1903, Irineu participou de uma grande homenagem musical a Santos Dumont, recém-chegado da Europa. O grupo reunia violões, cavaquinhos, flautas, trompete, bombardão, dois oficleides e até Villa-Lobos tocando ocarina.

Outra fotografia histórica, feita em Paquetá em 1906, registra Irineu com seu oficleide ao lado de músicos como João dos Santos, Luiz de Souza e Luiz Gonzaga da Hora. A imagem tornou-se um dos documentos visuais mais conhecidos das primeiras gerações do choro.


Música para o circo

Uma parte menos conhecida da trajetória de Irineu ocorreu no circo-teatro, importante espaço de circulação da música popular brasileira no início do século XX.

Irineu trabalhou com Benjamin de Oliveira, artista fundamental para o desenvolvimento do circo-teatro no Brasil, compondo e arranjando músicas para espetáculos apresentados principalmente no Circo Spinelli, no Rio de Janeiro.

Entre 1905 e 1912, sua música esteve associada a pelo menos doze montagens. Somadas, elas reuniam mais de duzentos números musicais.

Em Os Guaranys, Irineu adaptou trechos da ópera O Guarani, de Carlos Gomes. Para O Colar Perdido, escreveu dezenas de números, e a farsa A Princesa Cristal contou com 33 peças de sua autoria, entre valsas, marchas, polcas e schottisches.

Essa produção mostra um músico cuja atividade ultrapassava amplamente as rodas de choro, alcançando bandas, teatro popular e espetáculos de grande circulação.


A Pensão Vianna e Pixinguinha

Um dos encontros mais importantes de sua vida aconteceu na casa de Alfredo da Rocha Vianna, pai de Pixinguinha.

O casarão do Catumbi ficou conhecido como Pensão Vianna. Mais do que uma residência familiar, era um ponto de encontro de músicos. Por seus cômodos passaram chorões como Candinho do Trombone, Quincas Laranjeiras, Bonfiglio de Oliveira e outros nomes da música carioca.

Irineu passou a viver ali com sua mãe e seus filhos.

Nesse ambiente, tornou-se professor do jovem Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha. Percebendo rapidamente sua habilidade, começou a levá-lo para bailes e apresentações.

Em 1911, quando Pixinguinha tinha apenas 13 anos, Irineu o incorporou à orquestra do rancho carnavalesco Filhas da Jardineira, do qual era diretor de harmonia.

Era uma formação que reunia instrumentos de diferentes tradições: flautas, violões, bandolim e pandeiros conviviam com clarinete, trompetes, bombardino, contrabaixo e o oficleide de Irineu.

Ali, o jovem Pixinguinha começou a viver profissionalmente o ambiente musical que conhecia desde criança dentro de casa.


O Choro Carioca e as primeiras gravações

Ainda em 1911, Irineu e Pixinguinha participaram das primeiras sessões de gravação do conjunto Choro Carioca para a Casa Faulhaber, representante brasileira do selo alemão Favorite.

O grupo reunia músicos da família Vianna e tinha Irineu como uma de suas figuras centrais.

Foram registrados títulos como Nininha, Dainéa, São João Debaixo d’Água, Albertina, Salve e Aí, Morcego!, além de peças de outros compositores.

Esses discos são documentos preciosos de uma época em que o choro ainda estava consolidando muitas das características pelas quais seria reconhecido posteriormente.

Neles, a flauta ocupa frequentemente a linha principal enquanto o oficleide percorre o registro grave com frases independentes. Em vez de simplesmente marcar as fundamentais dos acordes, Irineu constrói verdadeiras melodias paralelas.

Um registro especialmente importante é Qualquer Cousa, gravado em 1911, no qual o próprio Irineu de Almeida aparece como solista de oficleide. Trata-se de um dos raríssimos registros de um solo desse instrumento, constituindo um documento excepcional para conhecer diretamente sua sonoridade e a maneira de tocar de Irineu.

A gravação original está preservada no acervo do Instituto Moreira Salles e pode ser ouvida atualmente, permitindo conhecer não apenas a composição de Irineu, mas sua própria interpretação ao instrumento.


O contraponto e a linguagem do choro

A relação entre Irineu e Pixinguinha não se limitou às aulas ou às primeiras oportunidades profissionais.

A escrita e a maneira de acompanhar desenvolvidas por Irineu fazem parte da história do contraponto no choro.

Décadas mais tarde, quando Pixinguinha passou a tocar saxofone tenor ao lado do flautista Benedito Lacerda, sua função deixou de ser normalmente a apresentação da melodia principal. O sax passou a criar linhas graves que respondiam à flauta, contornavam os acordes e estabeleciam outra camada melódica.

Essa prática se tornaria uma das referências mais importantes para as baixarias do violão de sete cordas e para o acompanhamento instrumental brasileiro.

A experiência de Pixinguinha ao lado do oficleide de Irineu pertence, portanto, aos antecedentes diretos dessa linguagem.


Compositor

Irineu deixou uma produção extensa, distribuída entre polcas, valsas, schottisches, tangos brasileiros, maxixes, marchas e choros.

Entre suas obras preservadas estão:

  • Aí, Morcego!
  • Albertina
  • Arthur Azevedo
  • Bem Te Quero
  • Boêmia Terra
  • Dainéa
  • Despedida
  • Digitalis
  • Jaci
  • Mariana em Sarilho
  • Nininha
  • O Lico Sorrindo
  • Qualquer Cousa
  • Salve
  • São João Debaixo d’Água

Algumas dessas composições continuaram circulando muito depois de sua morte.

Jaci, por exemplo, recebeu arranjo de Pixinguinha para a Orquestra do Pessoal da Velha Guarda. Mariana em Sarilho foi posteriormente registrada por diferentes formações ligadas ao choro, entre elas a dupla Pixinguinha e Benedito Lacerda, além do Conjunto Época de Ouro.

Parte de suas melodias também recebeu versos de Catulo da Paixão Cearense, demonstrando a circulação dessas peças entre o universo instrumental e a canção.


Os últimos anos

Irineu permaneceu ligado à Pensão Vianna até o fim da vida.

Faleceu no Rio de Janeiro em 22 de agosto de 1914, aos 51 anos, vítima de tuberculose pulmonar. Foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier.

Sua morte coincidiu aproximadamente com o desaparecimento gradual do oficleide dos conjuntos brasileiros. Outros instrumentos graves passaram a ocupar seus espaços nas bandas, enquanto, no choro, violões e posteriormente o saxofone assumiriam muitas das funções de baixo e contraponto que o instrumento havia desempenhado.

Por isso, durante décadas, tornou-se difícil até mesmo imaginar a sonoridade dos conjuntos em que Irineu havia atuado.

Os poucos discos preservados abriram uma janela para esse mundo.


A redescoberta de Irineu de Almeida

No século XXI, sua obra passou por um amplo processo de pesquisa e recuperação.

Partituras dispersas em coleções particulares e arquivos de músicos foram reunidas, enquanto antigas gravações serviram para reconstruir peças que haviam sobrevivido de maneira incompleta.

Esse trabalho resultou no projeto Irineu de Almeida e o Oficleide – 100 Anos Depois, desenvolvido por músicos como Everson Moraes, Aquiles Moraes e Leonardo Miranda, com participação de instrumentistas ligados à Escola Portátil de Música.

O álbum, lançado em 2016, trouxe novamente o oficleide para o centro de um conjunto de choro e apresentou obras de Irineu que haviam permanecido pouco conhecidas durante aproximadamente um século.

A pesquisa continuou com a catalogação de partituras, documentos históricos e registros fonográficos, permitindo reconstruir uma trajetória muito mais ampla do que aquela conhecida anteriormente.

Irineu de Almeida reaparece, assim, não apenas como o professor de um jovem Pixinguinha, mas como um compositor, instrumentista e professor que participou diretamente da formação da linguagem do choro nas primeiras décadas de sua história.

Fontes

  • Instituto Casa do Choro — Enciclopédia Ilustrada do Choro no Século XIX; verbete de Irineu de Almeida e catálogo de partituras, que atualmente reúne 36 entradas relacionadas ao compositor. (Casa do Choro)
  • Instituto Moreira Salles / Rádio Batuta — documentação sobre Irineu de Almeida, o Choro Carioca, o oficleide e sua relação com Pixinguinha. (Rádio Batuta)
  • Discografia Brasileira — documentação fonográfica de Irineu e pesquisa sobre as gravações da Casa Faulhaber realizadas a partir de 1911. (Discografia Brasileira)
  • MORAES, Everson Neves de. Irineu de Almeida e o Oficleide: o resgate de um instrumento esquecido. Escola de Música da UFRJ, 2021. A pesquisa reúne documentação civil, periódicos, partituras e acervos da Casa do Choro e do IMS, além de revisar as datas biográficas de Irineu.

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