Choropedia
Hermeto Pascoal: compositor e Música Universal
Verbete sobre Hermeto Pascoal: compositor, multi-instrumentista e criador da Música Universal, com trajetória, obras, discografia e relação com o choro.

Introdução
Hermeto Pascoal (Alagoas, 22 de junho de 1936 – Rio de Janeiro, 13 de setembro de 2025) foi compositor, arranjador e multi-instrumentista, responsável por uma das linguagens mais singulares surgidas na música brasileira.
Acordeão, piano, flauta, saxofone, violão, instrumentos de percussão e teclados conviviam em sua música com chaleiras, garrafas, brinquedos, água, sons de animais, ruídos cotidianos e a própria fala humana. Para Hermeto, a separação entre aquilo que era ou não era musical simplesmente não fazia sentido.
Sua obra atravessou o baião, o frevo, o choro, o jazz, a música de concerto, a improvisação livre e inúmeras manifestações populares brasileiras sem se estabelecer definitivamente dentro de nenhuma delas. Hermeto preferia chamar aquilo que fazia de Música Universal.
Mais do que a mistura de gêneros, essa ideia correspondia a uma forma de escutar: qualquer som poderia fazer parte da música.
Antes dos instrumentos, o som
Hermeto cresceu em Lagoa da Canoa, então pertencente ao município de Arapiraca, em Alagoas. Por ser albino e não poder permanecer longos períodos exposto ao sol, teve uma infância diferente das outras crianças que acompanhavam as famílias no trabalho rural.
Parte considerável desse tempo foi dedicada à observação dos sons ao seu redor.
Fazia pequenos pífanos com talos de mamona e outros materiais encontrados no campo, tocava para os pássaros, experimentava sons na água e aproveitava pedaços de metal descartados pela oficina de seu avô ferreiro para construir objetos sonoros.
A sanfona de oito baixos de seu pai acrescentou outro universo a essas descobertas. Ainda criança, Hermeto começou a tocá-la e passou a se apresentar ao lado do irmão José Neto em festas, casamentos e bailes.
Muitos elementos que décadas depois seriam vistos como experiências radicais em seus discos e concertos já estavam, de alguma maneira, presentes ali: os metais, os animais, a água, a improvisação, a atenção aos ruídos e a ideia de responder musicalmente aos sons da natureza.
Das rádios do Nordeste ao Rio de Janeiro
Em 1950, aos 14 anos, Hermeto e José Neto começaram a trabalhar na Rádio Tamandaré, no Recife. Pouco depois, passaram pela Rádio Jornal do Commercio, uma das instituições importantes da vida musical pernambucana daquele período.
Hermeto trabalhou ainda na Rádio Tabajara, em João Pessoa, onde integrou a orquestra do maestro Gomes, tocando sanfona. Mesmo sem formação convencional em leitura musical naquele momento, conseguia acompanhar os músicos guiado pelo ouvido.
Em 1958, mudou-se para o Rio de Janeiro. Atuou no regional de Pernambuco do Pandeiro e em conjuntos ligados a músicos como Fafá Lemos e Copinha. Paralelamente, aprofundou o estudo do piano e ampliou progressivamente o número de instrumentos que tocava.
O músico que havia começado na sanfona nordestina entrava agora em contato direto com regionais, boates, orquestras, choro, samba e a intensa vida profissional das grandes cidades.
São Paulo e o Quarteto Novo
Em 1961, Hermeto mudou-se para São Paulo. Trabalhou como pianista em casas noturnas e integrou formações como o Som Quatro e o Sambrasa Trio, este último ao lado de Airto Moreira e Humberto Clayber.
Em 1966 entrou para um conjunto formado por Heraldo do Monte, Theo de Barros e Airto Moreira. O antigo Trio Novo transformou-se então no Quarteto Novo.
O grupo teve vida curta, mas deixou uma marca profunda na música instrumental brasileira.
Seu único LP, Quarteto Novo, lançado em 1967, reuniu improvisação, ritmos nordestinos, elaboração harmônica e uma maneira particular de transportar elementos do baião, da música modal e de outras tradições brasileiras para uma formação instrumental moderna.
Ali apareceu também O Ovo, uma das primeiras composições de Hermeto registradas em disco.
No mesmo ano, o Quarteto Novo acompanhou Edu Lobo e Marília Medalha na apresentação de Ponteio, vencedora do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record.
O grupo terminou em 1969, mas aquela experiência já revelava algo essencial na trajetória de Hermeto: a busca por uma música brasileira capaz de dialogar com a improvisação sem simplesmente reproduzir modelos estrangeiros.
O encontro com Miles Davis
No início da década de 1970, a convite de Airto Moreira, Hermeto foi aos Estados Unidos para participar de gravações e arranjos.
Nesse ambiente conheceu Miles Davis.
Hermeto participou de sessões realizadas em 1970 que posteriormente apareceriam no álbum Live-Evil, lançado por Miles em 1971. Entre elas estavam composições de Hermeto como Igrejinha, apresentada internacionalmente como Little Church, e Nem um Talvez.
A convivência colocou o músico alagoano em contato direto com uma das cenas mais experimentais do jazz daquele momento, mas não significou uma transformação de Hermeto em músico de jazz.
Sua linguagem já vinha sendo construída a partir de outra combinação de experiências.
O jazz passaria a coexistir com o baião, o frevo, o choro, as bandas nordestinas, a música de concerto, a improvisação, os sons da natureza e tudo aquilo que seu ouvido considerasse musical.
A Música Livre
Em 1973, Hermeto lançou no Brasil A Música Livre de Hermeto Pascoal.
O título não poderia ser mais adequado.
No repertório aparecem composições próprias ao lado de Carinhoso, de Pixinguinha e Braguinha, e Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Obras profundamente identificadas com diferentes tradições brasileiras eram transformadas por arranjos, improvisações, mudanças de textura e novas possibilidades harmônicas.
Hermeto não tratava o repertório tradicional como uma peça de museu.
Uma música podia ser reconhecida, desmontada, reharmonizada, atravessada por improvisações e reconstruída de outra maneira.
Essa liberdade se tornaria uma das características permanentes de seu trabalho.
A Música Universal
Hermeto rejeitava a ideia de definir sua obra apenas como jazz, música popular brasileira, música experimental ou qualquer outro gênero.
Chamava-a de Música Universal.
A expressão não significava uma música sem origem. Pelo contrário: grande parte de seu vocabulário vinha de experiências profundamente brasileiras e nordestinas.
Baiões, frevos, cocos, maracatus, choros, valsas, sambas e outras formas conviviam com harmonias associadas ao jazz moderno, procedimentos da música de concerto, improvisação livre, ruídos, sons naturais e estruturas criadas pelo próprio compositor.
O princípio era a abertura.
Uma música poderia começar modal, atravessar harmonias densas, mudar de compasso, transformar-se em improvisação e terminar em outro universo sonoro sem que Hermeto enxergasse nisso qualquer contradição.
As fronteiras pertenciam aos gêneros.
A música, para ele, não precisava delas.
Tudo é som
A imagem pública de Hermeto ficou frequentemente associada aos instrumentos improváveis que utilizava.
Mas essas experiências não eram apenas efeitos cênicos.
Garrafas podiam formar conjuntos afinados. Panelas, chaleiras e brinquedos possuíam alturas e timbres específicos. Sons de animais podiam integrar uma composição. A água podia produzir ritmo, ressonância e altura.
Em Música da Lagoa, registrada em 1985 para o filme Sinfonia do Alto Ribeira, Hermeto e integrantes de seu grupo entram literalmente em uma lagoa e produzem música utilizando flautas, garrafas, vozes e a própria água.
A cena tornou-se uma das imagens mais conhecidas de sua obra porque sintetiza uma ideia cultivada desde a infância.
O instrumento não precisava terminar onde começava o mundo.
O próprio mundo podia ser o instrumento.
O Som da Aura
Uma das experiências mais originais desenvolvidas por Hermeto recebeu o nome de Som da Aura.
Hermeto percebia a fala humana como uma melodia.
Cada frase possui alturas, intervalos, ritmos e inflexões, mesmo quando quem fala não está tentando cantar. A partir dessa percepção, passou a identificar musicalmente essas alturas e acompanhá-las com instrumentos.
A voz falada deixava então de ser apenas texto e revelava uma melodia escondida dentro da própria linguagem.
Na década de 1980, Hermeto realizou experiências desse tipo utilizando, entre outros materiais, gravações de locutores esportivos.
O procedimento ampliava novamente sua definição de música.
Se pássaros, água e objetos possuíam música, a própria fala cotidiana também possuía.
Era necessário apenas escutá-la.
Hermeto Pascoal e Grupo
Uma parte fundamental da obra de Hermeto não pode ser compreendida apenas observando o compositor individualmente.
Entre o final dos anos 1970 e o início da década de 1990 consolidou-se o trabalho de Hermeto Pascoal e Grupo, por onde passaram músicos como Itiberê Zwarg, Jovino Santos Neto, Pernambuco, Carlos Malta e Márcio Bahia, entre outros.
Na casa de Hermeto no bairro Jabour, no Rio de Janeiro, desenvolveu-se uma rotina de trabalho que se tornaria conhecida entre músicos e pesquisadores como Escola Jabour.
Durante um longo período, o grupo ensaiava diariamente por cerca de seis horas, além do estudo individual realizado pelos instrumentistas.
Era um verdadeiro laboratório musical.
Hermeto escrevia constantemente, experimentava arranjos, alterava estruturas, trabalhava compassos incomuns, improvisação, interpretação e diferentes ritmos brasileiros. Os músicos precisavam desenvolver uma linguagem coletiva capaz de acompanhar uma produção composicional quase contínua.
Dessa fase surgiram discos fundamentais como Zabumbê-bum-á, Cérebro Magnético, Hermeto Pascoal & Grupo, Lagoa da Canoa, Município de Arapiraca, Brasil Universo, Só Não Toca Quem Não Quer e Festa dos Deuses.
A Escola Jabour também ajudou a formar músicos que posteriormente desenvolveriam importantes trabalhos próprios, espalhando diferentes aspectos da linguagem de Hermeto para novas gerações.
O Calendário do Som
Entre 23 de junho de 1996 e 22 de junho de 1997, Hermeto realizou um de seus projetos mais extraordinários.
Compôs uma música por dia durante um ano inteiro.
Nasceram assim as 366 composições do Calendário do Som, incluindo uma peça para 29 de fevereiro.
Hermeto escrevia onde estivesse: em casa, hotéis, viagens ou aviões.
A ideia era que cada pessoa pudesse encontrar uma composição correspondente ao dia de seu aniversário.
As partituras foram posteriormente reunidas no livro Calendário do Som.
O projeto demonstra uma característica central de Hermeto: composição, para ele, não era um acontecimento excepcional que dependia de inspiração rara. Era uma atividade cotidiana.
A música estava sempre acontecendo.
Hermeto e o choro
Hermeto não pertence ao choro da mesma maneira que Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo ou os músicos formados diretamente dentro da tradição dos conjuntos regionais.
Sua relação com o gênero ocorre por outro caminho.
O choro foi uma das muitas linguagens incorporadas ao seu universo musical.
Hermeto conviveu com músicos ligados aos regionais desde sua passagem pelo Rio de Janeiro, trabalhou com Copinha e Pernambuco do Pandeiro, gravou Carinhoso em A Música Livre de Hermeto Pascoal e escreveu peças diretamente relacionadas ao gênero.
Entre elas está Chorinho Pra Ele, registrada no álbum Slaves Mass, de 1977, composição que se tornou parte importante do repertório instrumental brasileiro e apresenta exigências técnicas e harmônicas características da escrita de Hermeto.
Outras obras aproximam-se do universo do choro por diferentes caminhos, incluindo homenagens como Pixitotinha e Salve, Copinha!.
Em 2024, o álbum Pra Você, Ilza voltou a revelar essa proximidade. O repertório nasceu de um caderno com composições dedicadas à esposa Ilza, e parte das primeiras peças selecionadas para o projeto era formada justamente por choros.
Para Hermeto, porém, o choro nunca precisou permanecer isolado.
Ele poderia encontrar o baião, a música modal, o jazz, o frevo ou qualquer outra sonoridade.
Dentro da Música Universal, tradição e invenção não eram forças opostas.
Compositor antes de tudo
A facilidade com que Hermeto tocava instrumentos e produzia sons incomuns fez com que sua imagem de multi-instrumentista muitas vezes ocupasse o primeiro plano.
Mas sua obra é também a de um compositor extraordinariamente prolífico.
Escreveu peças para pequenos grupos, piano solo, big bands, conjuntos de sopros e formações orquestrais. Trabalhou com melodias populares e estruturas sofisticadas, harmonias tonais e não funcionais, música modal, métricas irregulares e diferentes formas de improvisação.
O instrumento podia mudar.
A formação podia mudar.
O princípio permanecia semelhante: criar música a partir de tudo aquilo que seu ouvido encontrasse.
Reconhecimento internacional
A música de Hermeto circulou por festivais, salas de concerto e instituições em diversos países.
Em 1979, apresentou-se no Festival de Jazz de Montreux, concerto registrado no álbum Hermeto Pascoal ao Vivo.
Ao longo das décadas seguintes realizou numerosas turnês internacionais e sua obra passou a ser estudada por músicos e pesquisadores fora do Brasil.
Em 2023, recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Juilliard School, em Nova York. Na cerimônia, foi homenageado pelo trompetista Wynton Marsalis.
Era um reconhecimento institucional tardio para um músico essencialmente autodidata cuja formação havia começado entre sanfonas, pássaros, pedaços de ferro e sons encontrados no interior de Alagoas.
Pra Você, Ilza
Em 2024, Hermeto lançou Pra Você, Ilza, dedicado à memória de Ilza da Silva, sua companheira por 46 anos de casamento e mãe de seus seis filhos.
As músicas foram retiradas de um conjunto de 198 composições que Hermeto havia escrito para ela entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000.
No estúdio, aos 87 anos, voltou a criar e modificar os arranjos para seu grupo.
O álbum recebeu o Grammy Latino de Melhor Álbum de Jazz Latino/Jazz em 2024.
Quase sete décadas depois das primeiras apresentações profissionais no Nordeste, Hermeto continuava compondo, arranjando e experimentando.
Música sem fim
Hermeto Pascoal morreu no Rio de Janeiro em 13 de setembro de 2025, aos 89 anos.
Sua trajetória deixou milhares de páginas de música, dezenas de gravações e uma linhagem de instrumentistas e compositores diretamente influenciados pelo convívio, pelos ensaios, pelas partituras ou simplesmente pela escuta de sua obra.
Mas talvez sua contribuição mais profunda esteja em algo anterior às partituras.
Hermeto ampliou a própria pergunta sobre o que pode ser música.
Uma chaleira.
Um pássaro.
Uma voz falando.
Um pedaço de ferro.
Uma lagoa.
Um acorde extremamente complexo.
Um baião.
Um choro.
O silêncio antes da próxima nota.
Para Hermeto, tudo podia entrar.
Era preciso saber ouvir.
Ele chamou essa possibilidade de Música Universal.
Obras importantes
Entre suas centenas de composições e experiências musicais estão:
- O Ovo
- Bebê
- Igrejinha
- Nem um Talvez
- Chorinho Pra Ele
- Missa dos Escravos
- Cannon
- São Jorge
- Susto
- Mestre Mará
- Ferragens
- Pixitotinha
- Salve, Copinha!
- Música da Lagoa
- Som da Aura
- Poré Poré
- Alicante
- Choro Árabe
- Calendário do Som, conjunto de 366 composições
Discografia selecionada
- Quarteto Novo — Quarteto Novo — 1967
- Hermeto — 1970
- A Música Livre de Hermeto Pascoal — 1973
- Slaves Mass / Missa dos Escravos — 1977
- Zabumbê-bum-á — 1979
- Hermeto Pascoal ao Vivo – Montreux Jazz Festival — 1979
- Cérebro Magnético — 1980
- Hermeto Pascoal & Grupo — 1982
- Lagoa da Canoa, Município de Arapiraca — 1984
- Brasil Universo — 1986
- Só Não Toca Quem Não Quer — 1987
- Por Diferentes Caminhos — 1988
- Festa dos Deuses — 1992
- Eu e Eles — 1999
- Mundo Verde Esperança — 2003
- No Mundo dos Sons — 2017
- Natureza Universal — 2017
- Pra Você, Ilza — 2024
Fontes
- Instituto Casa do Choro. Acervo e verbete “Hermeto Pascoal”.
- Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Verbete “Hermeto Pascoal”.
- Discografia Brasileira. Registros fonográficos de Hermeto Pascoal.
- Instituto Memória Musical Brasileira – IMMuB. Discografia de Hermeto Pascoal e Quarteto Novo.
- COSTA-LIMA NETO, Luiz. Estudos sobre Hermeto Pascoal, Música Universal e Som da Aura.
- ARAÚJO, Fabiano; BORÉM, Fausto. Estudos sobre a linguagem musical e o Calendário do Som.
- Estudos sobre Hermeto Pascoal e Grupo e a chamada Escola Jabour.
- Miles Davis Official Site. Registros de Live-Evil e participação de Hermeto Pascoal.
- The Juilliard School. Homenagem e doutorado honorário concedido a Hermeto Pascoal.
- Rocinante. Discografia e documentação de Pra Você, Ilza.
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