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Henrique Cazes: cavaquinista, compositor e autor

Verbete sobre Henrique Cazes, cavaquinista, compositor, arranjador e pesquisador do choro. Trajetória, discografia, método e obras sobre o cavaquinho.

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Foto: Marília de Figueirêdo

Introdução

Henrique Leal Cazes (Rio de Janeiro, 2 de fevereiro de 1959) é cavaquinista, compositor, arranjador, produtor musical, pesquisador, escritor e professor. Ao longo de cinco décadas de atividade profissional, tornou-se uma das principais referências do cavaquinho brasileiro, tanto como intérprete quanto no desenvolvimento de repertório, métodos de ensino e pesquisas dedicadas ao instrumento e ao choro.

Sua trajetória reúne diferentes frentes: participou da Camerata Carioca, trabalhou diretamente com Radamés Gnattali, desenvolveu projetos dedicados às obras de Pixinguinha e Waldir Azevedo, construiu extensa carreira como solista e publicou trabalhos fundamentais para o estudo do cavaquinho e da história do choro.


Formação e primeiros anos

Filho do violonista e compositor Marcel Cazes e irmão do percussionista Beto Cazes, Henrique cresceu em um ambiente ligado à música. Começou a tocar violão ainda criança e, por volta dos 13 anos, passou a se interessar também pelo cavaquinho e por outros instrumentos de cordas, entre eles banjo, bandolim, viola caipira e violão tenor.

Autodidata em grande parte de sua formação instrumental, desenvolveu paralelamente uma trajetória acadêmica pouco comum entre músicos profissionais de sua geração: formou-se inicialmente em Química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Décadas depois retornaria à universidade pelo caminho da música, concluindo mestrado e doutorado na Escola de Música da UFRJ.

Sua atividade profissional começou em 1976, como integrante do grupo Coisas Nossas, ao lado de músicos como Beto Cazes, Oscar Bolão e os irmãos Aloísio e Carlos Didier. O conjunto se dedicava especialmente ao repertório de Noel Rosa e participou de programas de televisão e espetáculos ligados ao samba e à música popular carioca.


Camerata Carioca e Radamés Gnattali

Um momento decisivo ocorreu em 1980, quando Henrique Cazes passou a integrar a Camerata Carioca, grupo formado em torno do bandolinista Joel Nascimento e estreitamente associado ao compositor e arranjador Radamés Gnattali.

A formação reuniu Joel Nascimento no bandolim, Henrique Cazes no cavaquinho, Maurício Carrilho e João Pedro Borges nos violões, Luís Otávio Braga no violão de sete cordas e Beto Cazes na percussão.

A Camerata participou de uma fase importante da renovação do choro no início dos anos 1980. O grupo aproximava a formação tradicional dos regionais de uma escrita elaborada, especialmente através dos arranjos de Radamés Gnattali.

Entre seus registros estão Vivaldi e Pixinguinha, lançado pela Funarte em 1982, e Tocar, de 1983. Em apresentações e gravações daquele período, Cazes também conviveu com artistas como Elizeth Cardoso, ampliando sua experiência como instrumentista dentro e fora do universo estritamente instrumental.

O contato com Joel Nascimento e Radamés Gnattali teria importância particular no caminho que Henrique seguiria posteriormente como cavaquinista solista, arranjador e pesquisador.


O cavaquinho como instrumento solista

Durante grande parte de sua história na música popular brasileira, o cavaquinho esteve fortemente ligado à função de acompanhamento. Músicos como Garoto e, principalmente, Waldir Azevedo já haviam demonstrado as possibilidades do instrumento como solista. A partir dos anos 1980, Henrique Cazes passou a desenvolver sistematicamente esse caminho.

Em 1988, lançou seu primeiro álbum solo, Henrique Cazes, iniciando uma discografia voltada à ampliação do repertório e das possibilidades técnicas do cavaquinho.

Nos anos seguintes vieram trabalhos como Tocando Waldir Azevedo (1990), Waldir Azevedo, Pixinguinha, Hermeto & Cia. (1992), Desde que o Choro é Choro (1995) e Relendo Waldir Azevedo (1997).

Waldir Azevedo ocupa um lugar especialmente importante nessa trajetória. Henrique dedicou discos, concertos e pesquisas ao compositor de Brasileirinho, Delicado e Pedacinhos do Céu, tratando sua obra como uma etapa fundamental no desenvolvimento da linguagem solista do cavaquinho brasileiro.

Em 2012, lançou Uma História do Cavaquinho Brasileiro, projeto construído como um percurso histórico pelo instrumento, passando por compositores de diferentes épocas, de Joaquim Callado e Ernesto Nazareth a Canhoto, Radamés Gnattali, Paulinho da Viola e Waldir Azevedo.


Novos repertórios para o cavaquinho

Parte importante do trabalho de Henrique Cazes consiste em levar o cavaquinho a repertórios e formações pouco associados tradicionalmente ao instrumento.

Essa pesquisa aparece em projetos como Bach in Brazil, produzido no final dos anos 1990, no qual obras de Johann Sebastian Bach foram trabalhadas com instrumentos brasileiros, e na série Beatles'n'Choro, que transformou composições dos Beatles em arranjos ligados a formas como choro, maxixe e valsa.

Em Eletro Pixinguinha XXI, lançado em 2002, Cazes voltou-se para Pixinguinha utilizando também recursos eletrônicos e novas possibilidades de arranjo.

Essas experiências convivem com sua produção diretamente ligada ao repertório tradicional. Em vez de abandonar as referências históricas do cavaquinho, seus projetos passaram a colocar o instrumento em contato com diferentes linguagens, formações e repertórios.


Pixinguinha

A obra de Pixinguinha constitui uma das linhas mais persistentes da carreira de Henrique Cazes.

Em 1988, ele criou e dirigiu a Orquestra Pixinguinha, dedicada à recriação de arranjos originais do compositor. O trabalho permitiu recuperar uma dimensão menos conhecida de Pixinguinha: a do orquestrador e arranjador responsável por uma vasta produção para conjuntos, orquestras e gravações populares.

Décadas depois, Cazes participou de outro projeto de grande dimensão documental. A partir de cerca de 50 melodias inéditas de Pixinguinha, certificadas após trabalho de pesquisa, foi desenvolvido o projeto Pixinguinha como Nunca.

Com direção musical e arranjos de Henrique Cazes, as melodias receberam harmonizações e instrumentações para novas gravações. O projeto reuniu músicos como Carlos Malta, Silvério Pontes, Marcelo Caldi, Marcos Suzano e João Camarero, além do próprio Cazes, e resultou em espetáculos e quatro álbuns lançados em 2023.


Escola Moderna do Cavaquinho

A atividade de professor levou Henrique Cazes a uma das contribuições mais duradouras de sua carreira.

Ao começar a dar aulas regularmente no início dos anos 1980, percebeu a necessidade de organizar um método específico para o cavaquinho. Com orientação de Joel Nascimento, passou a adaptar exercícios provenientes de métodos de violino, bandolim, violão e guitarra às características do instrumento.

O resultado foi Escola Moderna do Cavaquinho, lançado em 1988.

O método aborda aspectos técnicos, acompanhamento, formação de acordes, escalas, repertório e prática solista. Ao longo das décadas seguintes passou por numerosas edições e tornou-se uma das principais referências didáticas para estudantes do instrumento, recebendo inclusive uma edição japonesa.

Esse trabalho continuou com a criação dos 12 Estudos para Cavaquinho Solo, escritos ao longo de vários anos para desenvolver diferentes problemas técnicos e musicais do instrumento.

Os estudos foram reunidos, ao lado de outras peças, em Música Nova para Cavaquinho, publicado em 2019 e acompanhado por um projeto fonográfico dedicado às composições.


O cavaquinho na universidade

A atuação pedagógica de Henrique Cazes também alcançou o ensino superior.

Professor da Escola de Música da UFRJ, participou da implantação do pioneiro bacharelado em cavaquinho da instituição, levando para o ambiente universitário um instrumento historicamente transmitido sobretudo através das rodas, das famílias de músicos, das gravações e do aprendizado direto entre instrumentistas.

Na própria UFRJ, Cazes concluiu o mestrado em Música em 2011, com pesquisa relacionada às rodas de choro, e o doutorado em Música em 2019.

Sua atividade acadêmica passou, assim, a caminhar junto à experiência acumulada como instrumentista, professor e pesquisador da música popular.


Pesquisador e escritor

Henrique Cazes também se tornou uma referência bibliográfica para o estudo do choro.

Seu livro Choro: do Quintal ao Municipal, publicado em 1998, apresenta um panorama histórico do gênero, abordando músicos, conjuntos, transformações estilísticas e mudanças ocorridas nas formas de produção e circulação do choro. A obra chegou à quinta edição em 2021.

Publicou ainda trabalhos dedicados a personagens da música brasileira, entre eles Monarco, Chiquinha Gonzaga, Waldir Azevedo e Jacob do Bandolim.

Em 2023 lançou O Choro Reinventa a Roda: 150 anos de uma utopia musical, retomando a história do gênero a partir de sua prática coletiva e das transformações ocorridas ao longo de aproximadamente um século e meio.

Cazes também exerceu atividade como radialista, produzindo e apresentando programas sobre choro em emissoras como Rádio MEC, Rádio Nacional, Rádio Roquette Pinto e Rádio MPB FM.


Compositor

Paralelamente ao trabalho como intérprete e pesquisador, Henrique Cazes desenvolveu repertório próprio para o cavaquinho.

Entre suas peças estão os 12 Estudos para Cavaquinho Solo, além de choros, valsas e obras concebidas para diferentes formações. Algumas dessas composições procuram explorar possibilidades técnicas pouco usuais no repertório tradicional do instrumento, incluindo escrita polifônica, independência de vozes e novas combinações de articulação.

O compositor Ernani Aguiar também lhe dedicou o Concertino para cavaquinho e cordas, ampliando a presença do instrumento no repertório camerístico.


50 anos de carreira

Em 2026, Henrique Cazes completou 50 anos de atividade profissional, contados desde sua entrada no conjunto Coisas Nossas em 1976.

A data foi marcada por concertos dedicados à sua trajetória, reunindo repertório de diferentes fases de sua carreira e compositores que acompanharam seu percurso musical, entre eles Pixinguinha, Waldir Azevedo, Radamés Gnattali, Garoto, Noel Rosa e Hermeto Pascoal, além de suas próprias composições.

Cinco décadas depois do início profissional, sua atividade continua ligada às mesmas frentes que se cruzaram ao longo de sua carreira: performance, composição, ensino, pesquisa histórica e desenvolvimento do cavaquinho.


Discografia selecionada

  • Henrique Cazes — 1988
  • Tocando Waldir Azevedo — 1990
  • Waldir Azevedo, Pixinguinha, Hermeto & Cia. — 1992
  • Desde que o Choro é Choro — 1995
  • Relendo Waldir Azevedo — 1997
  • Bach in Brazil — 1999
  • Pixinguinha de Bolso — 2000
  • Beatles'n'Choro — série iniciada em 2002
  • EletroPixinguinha XXI — 2003
  • Uma História do Cavaquinho Brasileiro — 2012
  • Música Nova para Cavaquinho — 2019
  • Pixinguinha como Nunca — série de álbuns, 2023

Livros e publicações selecionadas

  • Escola Moderna do Cavaquinho — 1988
  • Choro: do Quintal ao Municipal — 1998
  • Monarco — 2003
  • Perfis biográficos de Chiquinha Gonzaga, Waldir Azevedo e Jacob do Bandolim — 2010
  • Música Nova para Cavaquinho — 2019
  • O Choro Reinventa a Roda: 150 anos de uma utopia musical — 2023

Fontes

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