Choropedia
Henrique Alves de Mesquita: o tango brasileiro e as origens do choro
Conheça a obra de Henrique Alves de Mesquita, compositor negro que uniu teatro, danças afro-brasileiras e a linguagem do choro. Saiba sua importância para o tango brasileiro.

Introdução
Henrique Alves de Mesquita (Rio de Janeiro, 15 de março de 1830 – Rio de Janeiro, 12 de julho de 1906) foi compositor, maestro, organista, trompetista e professor brasileiro.
Com formação no Conservatório do Rio de Janeiro e passagem por Paris, atuou no teatro, na igreja, no ensino e na música popular. Pertenceu à geração anterior à consolidação do choro e ajudou a formar parte da linguagem musical que seria desenvolvida por nomes como Joaquim Callado, Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth.
Formação e primeiros anos
Mesquita nasceu no centro do Rio de Janeiro, em uma família de poucos recursos. Começou a estudar música ainda jovem e ingressou no Conservatório, onde estudou harmonia, contraponto e órgão.
Em 1856 recebeu medalha de ouro e conquistou o primeiro prêmio de viagem da instituição. No ano seguinte partiu para Paris, onde estudou com François Bazin, professor do Conservatório de Paris.
Pouco antes da viagem, Mesquita foi professor de composição e regência de Joaquim Callado, um dos músicos fundamentais para a formação do choro.
Essa ligação coloca Mesquita diretamente na geração que preparou o terreno para os primeiros chorões cariocas.
Paris e o teatro carioca
Na França, Mesquita aprofundou seus conhecimentos de composição e orquestração e entrou em contato com a opereta, a ópera cômica e as danças de salão europeias.
De volta ao Brasil, em 1866, tornou-se trompetista do Alcázar Lírico e passou a trabalhar intensamente como compositor e regente de companhias teatrais.
O teatro carioca era um ponto de encontro entre polcas, quadrilhas, lundus, habaneras e ritmos afro-brasileiros. Foi nesse ambiente que Mesquita desenvolveu boa parte de sua música.
O tango brasileiro e as origens do choro
Mesquita é frequentemente apontado como um dos criadores do tango brasileiro.
A obra Olhos matadores, composta em 1868, foi durante muito tempo considerada a primeira a receber essa classificação. Como a partitura original não foi localizada, Ali Babá, de 1872, é hoje o exemplo documental mais antigo conhecido na obra do compositor.
O tango brasileiro daquele período era diferente do tango argentino. Reunia elementos da habanera, do lundu, da polca sincopada e de outras danças que circulavam pelo Rio de Janeiro.
Mesquita ajudou a levar essa mistura para o teatro, para as partituras e para os conjuntos profissionais. Essa linguagem seria depois desenvolvida por Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth, tornando-se uma das matrizes do maxixe e do choro.
Quando o choro ainda não existia como gênero definido, Mesquita já trabalhava com parte do vocabulário rítmico que os chorões transformariam nas décadas seguintes.
Batuque
Entre suas obras, Batuque, de 1894, tornou-se uma das mais presentes no repertório do choro.
Classificada como tango característico, a peça reúne síncopes, forte impulso rítmico e pequenas células melódicas que remetem à linguagem instrumental brasileira do final do século XIX.
Em 1911, foi gravada pela Banda do Corpo de Bombeiros e continuou circulando por diferentes gerações de músicos. Mais tarde, recebeu interpretações e arranjos ligados ao Época de Ouro, Camerata Carioca, Radamés Gnattali, Luiz Otávio Braga e Maurício Carrilho.
Uma cópia também foi preservada no arquivo de Donga, mostrando como sua música permaneceu viva entre os chorões mesmo depois de sua morte.
Chiquinha, Nazareth e os cadernos de choro
A importância de Mesquita para as gerações seguintes aparece também em homenagens de dois nomes centrais da música brasileira.
Em 1889, Chiquinha Gonzaga dedicou a ele o tango característico Só no Choro.
Em 1914, Ernesto Nazareth publicou Mesquitinha, também em sua homenagem.
Suas composições continuaram circulando em antigos cadernos manuscritos. Uma cópia de Soirée Brésilienne foi encontrada em um caderno de Theodoro Aguilar e outra em material associado a Alfredo Viana, pai de Pixinguinha.
Esses registros mostram que a música de Mesquita saiu dos teatros e do Conservatório e passou a fazer parte do repertório prático dos músicos que formariam as primeiras gerações do choro.
Obras importantes
Entre suas composições estão:
- Os beijos de frade
- Soirée Brésilienne
- L’Étoile du Brésil
- Olhos matadores
- Une Nuit au Château
- Trunfo às avessas
- Ali Babá
- A pêra de Satanás
- A coroa de Carlos Magno
- Batuque
Mesquita também escreveu óperas, operetas, música sacra, valsas, polcas, quadrilhas, lundus e outras peças instrumentais.
Últimos anos
Além de compositor e regente, Mesquita teve longa carreira como professor.
Lecionou no Conservatório de Música e, mais tarde, no Instituto Nacional de Música, onde permaneceu até sua aposentadoria, em 1904.
Morreu no Rio de Janeiro em 12 de julho de 1906, aos 76 anos.
Henrique Alves de Mesquita pertence a uma geração anterior ao choro como o conhecemos hoje, mas esteve presente em vários dos caminhos que levaram à sua formação: ensinou Joaquim Callado, desenvolveu o tango brasileiro, teve sua música tocada pelos chorões e foi reconhecido por Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth.
Sua trajetória mostra que o choro foi sendo construído aos poucos, no encontro entre danças europeias, ritmos afro-brasileiros, teatros, salões e rodas de músicos.
Fontes
- Instituto Casa do Choro – acervo e partituras de Henrique Alves de Mesquita.
- Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira – verbete Henrique Alves de Mesquita.
- Antônio José Augusto – Henrique Alves de Mesquita: da pérola mais luminosa à poeira do esquecimento.
- Fundação Biblioteca Nacional – acervo de partituras.
- Acervo Digital Chiquinha Gonzaga.
- Instituto Moreira Salles – Projeto Ernesto Nazareth 150 Anos.
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