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Gastão Bueno Lobo: pioneiro da guitarra havaiana no Brasil
Conheça Gastão Bueno Lobo, violonista e guitarrista havaiano que marcou o choro e a Era do Rádio no Brasil. Saiba sobre sua vida, obras e parcerias.

Introdução
Gastão Bueno Lobo foi violonista, guitarrista havaiano, compositor e músico de rádio, com atuação marcante nas primeiras décadas do século XX. Sua trajetória atravessou o choro, o tango, a música de variedades, as primeiras grandes emissoras brasileiras e uma longa experiência internacional.
No Brasil, tornou-se especialmente conhecido pelo uso da guitarra havaiana, instrumento ainda incomum no país. Pixinguinha também atribuiu a Gastão a introdução do banjo no meio musical brasileiro, lembrando que já o conhecia como violonista antes de sua atuação na Rádio Mayrink Veiga.
Uma biografia ainda em reconstrução
A própria data de nascimento de Gastão Bueno Lobo permaneceu durante décadas cercada de informações contraditórias.
Publicações posteriores chegaram a situar seu nascimento por volta de 1910. Notícias publicadas após sua morte, em 1939, diziam que tinha 48 anos, o que apontaria para 1891. Uma pesquisa posterior na imprensa, porém, localizou uma homenagem publicada em 10 de setembro de 1904 pelo seu 19º aniversário. O documento indica que Gastão teria nascido em 10 de setembro de 1885.
Outros registros encontrados na imprensa do final do século XIX identificam sua mãe como Maria Isabel do Carmo e seu pai como Antônio José Leite Lobo, oficial da Marinha. Em 1896, Gastão e seu irmão Antônio já apareciam em documentos relacionados à tutela dos filhos do casal.
Diante da documentação disponível, 1885 é hoje a data mais bem sustentada, embora ainda existam divergências nas fontes biográficas.
O violão e as viagens
Gastão já estava ativo como violonista muito antes do início de sua discografia.
Em fevereiro de 1909, a imprensa carioca registrou sua participação nos festejos de Carnaval acompanhando ao violão o cantor Nhozinho, ao lado do flautista Fontenelle. Anos depois, Orestes Barbosa o incluiria entre os violonistas de destaque da vida musical carioca, ao lado de nomes como João Pernambuco, Tute, Jacy Pereira, Donga e Rogério Guimarães.
Em 1911, Gastão deixou o Brasil. Registros de passageiros mostram sua passagem por Belém e o embarque para Lisboa. Há testemunhos posteriores de que teria se apresentado também nos Estados Unidos, Japão e outros países, mas o itinerário completo dessas viagens ainda não foi documentado.
Em 1915, seu nome aparece novamente numa relação de passageiros desembarcados no porto de Santos. É nesse período de viagens que teria entrado em contato com a guitarra havaiana, instrumento que se tornaria sua principal marca artística.
A passagem pelo Havaí é mencionada por diferentes fontes, mas os detalhes da viagem ainda não foram localizados em documentação contemporânea suficiente para estabelecer uma cronologia precisa.
A guitarra havaiana
A guitarra havaiana era tocada horizontalmente, com as cordas pressionadas por uma barra de metal, produzindo glissandos e uma sonoridade muito diferente daquela do violão tradicional.
Gastão tornou-se um dos primeiros músicos brasileiros a explorar profissionalmente o instrumento. Em 1935, a revista O Malho chegou a destacar sua especialização, observando que era, naquele momento, um dos raros músicos do país associados à guitarra havaiana.
Décadas depois, o pesquisador Ary Vasconcelos apontaria Gastão como responsável por introduzir a guitarra havaiana na música brasileira e particularmente no universo do choro.
Entre os músicos que posteriormente se destacaram no instrumento estavam Garoto (Aníbal Augusto Sardinha) e Poli (Ângelo Apolônio). Garoto chegaria a trabalhar diretamente com Gastão na Rádio Mayrink Veiga.
Les Loups e Oscar Alemán
Um dos capítulos mais singulares de sua carreira começou com o encontro com o jovem guitarrista argentino Oscar Alemán, então frequentemente anunciado como Oscar Moreira.
Juntos formaram o duo Les Loups, combinando guitarra havaiana e violão. Em 1926, a dupla já se apresentava em São Paulo, Santos e Rio de Janeiro. Os anúncios da época os promoviam como especialistas em violão e guitarra havaiana, e suas apresentações apareciam entre filmes, companhias teatrais, cantores, bailarinos e números de variedades.
Ainda em 1926 seguiram para Salvador e Recife. No ano seguinte continuaram se apresentando no Rio e participaram de espetáculos ao lado de artistas como João Pernambuco, Luperce Miranda e os Oito Batutas.
No final de 1927, Les Loups chegaram a Buenos Aires. A dupla apresentou-se em importantes casas da cidade e gravou para a Victor argentina, deixando registros de tangos, valsas e fox-trots. Gastão também compôs obras para o repertório do duo, algumas em parceria com Oscar Alemán.
Em 1929, os dois integraram a companhia do artista norte-americano Harry Fleming numa excursão internacional. A tournée passou por países como Espanha, Portugal, Bélgica, Suíça, Holanda, Alemanha e Itália. A parceria terminou por volta de 1931, e Oscar Alemán permaneceria na Europa, onde desenvolveria uma importante carreira ligada ao jazz. Gastão voltou ao Brasil.
O retorno ao Brasil e as gravações de 1932
De volta ao Rio de Janeiro, Gastão ingressou rapidamente no rádio e na indústria fonográfica.
Em 1932 gravou pela Columbia os tangos Confesión e La cumparsita, tendo a guitarra havaiana como instrumento solista.
No mesmo ano apareceram alguns de seus registros brasileiros mais importantes. Gravou o choro Macio, de sua autoria, e a valsa Noite azul, parceria com Valdo Abreu. Vieram ainda Olhos passionais, composta com De Chocolat, e Sonho que passou, parceria com Jacy Pereira.
Também participou de gravações relacionadas a outros compositores e intérpretes, usando a guitarra havaiana como uma nova voz dentro das pequenas formações de cordas que circulavam pelo rádio e pelos discos de 78 rotações.
Rádio Mayrink Veiga
A partir dos anos 1930, Gastão tornou-se presença constante na Rádio Mayrink Veiga, uma das emissoras mais importantes do período.
Em 1933, sua programação o colocava ao lado de músicos e cantores como Pixinguinha, Luperce Miranda, Tute, Silvio Caldas, Castro Barbosa, Custódio Mesquita e Patrício Teixeira.
No ano seguinte passou a dirigir sua própria Orquestra Original, presente regularmente nos programas da emissora. Em 1935 organizou também um Conjunto Havaiano, inicialmente com músicos como Nelson Alves, Henrique Brito e Zezinho (José do Patrocínio Oliveira).
Em 1936, uma nova formação do conjunto reuniu Gastão Bueno Lobo, Laurindo Almeida, Garoto e Aimoré. A combinação aproximava alguns dos principais violonistas e instrumentistas de cordas daquela geração em torno da sonoridade havaiana.
Gastão também integrou o regional da Mayrink Veiga ao lado de Pixinguinha, Luperce Miranda, Tute e Laurindo Almeida, formação que reuniu alguns dos músicos centrais do choro e do rádio brasileiro da década de 1930.
A parceria com Laurindo Almeida
Nos últimos anos de sua carreira, Gastão trabalhou frequentemente com Laurindo Almeida, então um jovem violonista que mais tarde construiria extensa carreira internacional.
Os dois tocaram juntos em programas da Mayrink Veiga, em apresentações públicas e no Conjunto Havaiano. Em 1937 chegaram a atuar regularmente em duo, combinando guitarra havaiana e violão.
Em 20 de maio de 1938, Gastão realizou aquela que seria sua última sessão de gravação como solista. No choro Inspiração, composição de Laurindo Almeida, Gastão tocou guitarra havaiana acompanhado por Laurindo e Tute nos violões.
No outro lado do disco estava Saudade que passa, com Laurindo como solista e Gastão e Tute no acompanhamento. O disco foi lançado pela Odeon.
Gastão e Laurindo também assinaram juntos Se recordar é viver, posteriormente gravada por Roberto Paiva.
Os últimos anos
Durante 1938 e 1939, a presença de Gastão nos programas de rádio tornou-se menos frequente, embora ele continuasse ligado à Mayrink Veiga e participando de apresentações.
Em junho de 1939, Gastão Bueno Lobo morreu por suicídio. A notícia teve grande repercussão no meio radiofônico, e textos publicados na época destacaram seu prestígio entre os músicos e seu domínio da guitarra havaiana.
Sua morte encerrou uma trajetória que havia começado no violão carioca do início do século, atravessado teatros e companhias de variedades, percorrido diferentes países e chegado ao centro da Era do Rádio brasileira.
Obras importantes
Entre as composições identificadas de Gastão Bueno Lobo estão:
| Título | Parceria | Observações |
|---|---|---|
| Macio | — | choro |
| Noite azul | Valdo Abreu | valsa |
| Olhos passionais | De Chocolat | |
| Sonho que passou | Jacy Pereira | |
| Pampeira | Rogério Guimarães | |
| Se recordar é viver | Laurindo Almeida | gravada posteriormente por Roberto Paiva |
| Guarda na boca esse beijo | César Ladeira | |
| És a areia, sou o mar | Jacy Pereira | letra de Alberto Ribeiro |
| Hawayanita | — | repertório de Les Loups |
| Criollita | — | repertório de Les Loups |
| Guitarra que llora | — | repertório de Les Loups |
| Nadando em mar de rosas | Oscar Alemán | |
| La porteña es una papa | Oscar Alemán | |
| Vividor | Oscar Alemán |
Discografia selecionada
Com Les Loups
| Disco | Selo | Ano |
|---|---|---|
| Hawayanita / Criollita | Victor | — |
| Guitarra que llora | Victor | — |
| tangos, valsas e fox-trots gravados na Argentina | Victor | 1927–1929 |
No Brasil
| Disco | Selo | Ano |
|---|---|---|
| Confesión / La cumparsita | Columbia | 1932 |
| Noite azul / Macio | Columbia | 1932 |
| Olhos passionais / A abelha e a flor | Columbia | 1932 |
| Sonho que passou / Luizinha | Columbia | 1932 |
| Inspiração / Saudade que passa | Odeon | 1938 |
Fontes
- Instituto Casa do Choro — acervo de obras, autores e documentação histórica do choro. Disponível em: casadochoro.com.br
- Instituto Moreira Salles — Discografia Brasileira; documentação fonográfica e acervos relacionados à música popular brasileira. Disponível em: ims.com.br
- Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — verbetes biográficos e discográficos. Disponível em: dicionariompb.com.br
- Biblioteca Nacional — Hemeroteca Digital Brasileira.
- Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro — depoimentos e documentação relacionada a Pixinguinha e Gastão Bueno Lobo.
- VASCONCELOS, Ary. Carinhoso, etc.: história e inventário do choro. Rio de Janeiro: Gráfica Editora do Livro, 1984, v. 1, p. 30.
- MELLO, Jorge Carvalho de. Pesquisa hemerográfica sobre Gastão Bueno Lobo.
- Pesquisa publicada na revista Opus sobre o violão brasileiro, com documentação das apresentações de Les Loups.
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