Choropedia
Gaó: pianista, maestro e compositor do choro paulista
Conheça a trajetória de Gaó, pianista e maestro que gravou a primeira versão de Tico-tico no fubá e atuou no rádio, cassinos e na Turma da Mônica.

Introdução
Odmar Amaral Gurgel, conhecido como Gaó (Salto, São Paulo, 12 de fevereiro de 1909 – Mogi das Cruzes, setembro de 1992), foi pianista, maestro, arranjador e compositor. Sua trajetória atravessou diferentes ambientes profissionais da música brasileira do século XX: o cinema mudo, o rádio, a indústria fonográfica, os cassinos, as grandes orquestras e, mais tarde, os discos de longa duração.
Atuando inicialmente em São Paulo e depois também no Rio de Janeiro e nos Estados Unidos, Gaó esteve ligado à formação das primeiras grandes orquestras de música popular paulistas e a uma extensa produção de arranjos e gravações. Como pianista, deixou registros solo de suas próprias composições e de outros autores; como maestro, acompanhou cantores, dirigiu conjuntos e trabalhou durante décadas no rádio e em gravadoras.
Formação e primeiros anos
Gaó nasceu em uma família de professores e músicos. Ainda menino participou da atividade musical de Salto e, aos onze anos, já substituía o pai na condução da pequena orquestra que acompanhava filmes no cinema da cidade. Nessa época também surgiram suas primeiras composições.
Na primeira metade da década de 1920 transferiu-se para São Paulo para aprofundar os estudos. Frequentou o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e trabalhou como demonstrador de partituras na Casa Di Franco, estabelecimento da Rua São Bento que funcionava também como ponto de encontro de músicos da cidade. Ali conviveu com um ambiente em que partituras, instrumentos, compositores e intérpretes circulavam diariamente.
O nome artístico surgiu da inversão de suas iniciais. Odmar Amaral Gurgel assinava O.A.G.; colocadas na ordem inversa, as letras formaram G.A.O., que se transformou em Gaó.
O rádio e a indústria do disco
Em 1926, Gaó ingressou na Rádio Educadora Paulista, iniciando uma carreira diretamente ligada à expansão do rádio no Brasil. Nos anos seguintes trabalhou em emissoras como Cruzeiro do Sul e Cosmos, em São Paulo, e posteriormente nas rádios Ipanema e Nacional, no Rio de Janeiro.
O período coincidiu com a consolidação da gravação elétrica e com o crescimento das gravadoras no país. Gaó tornou-se um dos músicos ligados à Columbia em São Paulo, trabalhando não apenas como pianista, mas também como arranjador, regente e diretor artístico. Sua atividade abrangia desde pequenos conjuntos até formações orquestrais empregadas em gravações e programas radiofônicos.
Em 1931 aparecem alguns de seus primeiros registros como pianista solo. Gravou para a Columbia as peças Jaci, Saudades e Ilusão que se vai, de Jaime Redondo, além do fox-trot Nola, de Felix Arndt. No mesmo período registrou composições próprias como os choros Quando o banjo toca e Teimoso.
A Orquestra Colbaz
Um dos capítulos centrais de sua trajetória foi a criação e direção da Orquestra Colbaz, formação surgida no início da década de 1930 e ligada às gravações da Columbia.
O conjunto reunia instrumentos característicos do choro e das orquestras de salão. No registro histórico de Tico-tico no fubá, aparecem Gaó ao piano, Atílio Grany na flauta, Zezinho no bandolim, Petit no violão, Jonas Aragão no sax alto, José Rielli no acordeom e Ernesto Trepiccione no violino.
Em 1931, a Colbaz realizou a primeira gravação de Tico-tico no fubá, de Zequinha de Abreu, lançada pela Columbia no disco 22029-B, tendo no outro lado a valsa Branca. O registro antecedeu em anos a circulação internacional que transformaria a composição de Zequinha em uma das peças brasileiras mais conhecidas fora do país.
A Casa do Choro documenta também a presença do acordeonista José Rielli na Colbaz, assim como a participação posterior de músicos como Copinha na Orquestra Columbia dirigida por Gaó. Essas formações colocaram o maestro em contato com diferentes gerações de instrumentistas paulistas.
Pianista, compositor e arranjador
Paralelamente à atividade de maestro, Gaó manteve uma produção própria para piano e outros conjuntos. Entre suas composições estão Arreliento, Cabeludo, Caboclo feliz, em parceria com Luiz Peixoto, Diamante azul, Mimoso, Minha garota sincopada, Paisagem tropical, Suspirando e Teimoso.
Seu trabalho como arranjador alcançava também o repertório de outros compositores. O acervo da Casa do Choro preserva, por exemplo, partituras de obras de Ernesto Nazareth com arranjos de Gaó, entre elas o tango brasileiro Tenebroso e a valsa Genial.
Em Teimoso, gravado pelo próprio compositor ao piano, encontra-se um dos exemplos hoje recuperados do repertório pianístico ligado ao choro paulista daquele período. A peça continua circulando em estudos contemporâneos dedicados ao piano brasileiro.
Do Rio de Janeiro ao Cassino da Urca
Na segunda metade da década de 1930, Gaó ampliou sua atuação no Rio de Janeiro. Em 1937 criou uma nova orquestra e coro, acompanhando gravações de intérpretes como Lamartine Babo, Silvino Neto e Cândido Botelho. No ano seguinte continuou realizando arranjos e acompanhamentos para diferentes artistas e gêneros.
Durante a década de 1940 trabalhou também para a Odeon e dirigiu a orquestra do Cassino da Urca, um dos principais espaços de espetáculo do Rio naquele período. Em gravações da época sua orquestra aparece acompanhando nomes como Trio de Ouro, Odete Amaral, Léo Albano e Heleninha Costa.
Sua atividade não se limitava ao acompanhamento de cantores. Gaó escrevia arranjos, ensaiava conjuntos, regia e tocava piano, reunindo funções que eram recorrentes entre os maestros empregados pelas rádios, cassinos e gravadoras da época.
Estados Unidos e retorno ao Brasil
Em 1945, Gaó viajou para os Estados Unidos. Documentos de época registram sua presença no país, e o acervo do Instituto Moreira Salles conserva uma fotografia do maestro ao piano em Nova Iorque. Após uma breve volta ao Brasil em 1946, permaneceu no exterior durante parte dos anos seguintes.
Na década de 1950 estava novamente integrado ao circuito brasileiro. Trabalhou para as Organizações Victor Costa e atuou na Rádio Record. Em 1954 participou do programa Quando os maestros se encontram, da Rádio Nacional, e continuou realizando gravações com sua orquestra, acompanhando artistas como Hebe Camargo e Norma Ardanuy.
Os LPs
Com a consolidação do LP, Gaó voltou a registrar seu trabalho em discos dedicados ao piano e à orquestra.
Em 1960 lançou Gaó viaja pelo mundo, pela Odeon, reunindo repertório brasileiro e internacional. Quatro anos depois veio Gaó, seu piano e orquestra, no qual aparecem composições próprias como Diamante azul, Mimoso e Minha garota sincopada, ao lado de peças como Odeon, de Ernesto Nazareth, e Samba em prelúdio, de Baden Powell e Vinicius de Moraes.
Em 1966 lançou The Melodic Sound of Gaó's Piano and The Ipanema Strings, com repertório de autores como Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Bororó, André Victor Corrêa e Álvaro Sandim. No ano seguinte gravou Valsas brasileiras, dedicado a compositores como Nazareth, Zequinha de Abreu, Custódio Mesquita e Antenógenes Silva. Em 1969 chegou Bem brasileiro, reunindo choros, sambas e peças instrumentais de diferentes períodos.
A Bandinha da Turma da Mônica
No início da década de 1970, a produção de Gaó ganhou uma vertente bastante diferente. Ele participou, ao lado de Mauricio de Sousa e Wilma Camargo, da criação das músicas dedicadas aos personagens da Turma da Mônica.
O LP A Bandinha da Turma da Mônica, lançado em 1971 pela Fermata, traz doze faixas, cada uma dedicada a um personagem: Mônica, Bidu, Magali, Horácio, Cascão, Tina, Chico Bento, Cebolinha, Astronauta, Jotalhão, Piteco e Anjinho. Gaó, Mauricio de Sousa e Wilma Camargo aparecem nos créditos das composições, com arranjos e regência de Hector Lagna Fietta.
Parte dessas músicas continuaria vinculada ao universo audiovisual dos personagens nos anos seguintes, fazendo com que um maestro formado no ambiente musical das décadas de 1920 e 1930 passasse também a integrar a história musical de uma das principais criações dos quadrinhos brasileiros.
Últimos anos
Gaó estabeleceu-se posteriormente em Mogi das Cruzes, onde continuou ligado à música e ao ensino. Em 1974 recebeu de sua cidade natal o título de Cidadão Honorário de Salto. Anos depois, seu nome foi dado ao Auditório Gaó, ligado ao conservatório municipal da cidade.
Faleceu em Mogi das Cruzes em setembro de 1992. O acervo preservado em instituições brasileiras reúne fotografias, registros fonográficos, partituras e documentos relacionados a uma carreira que acompanhou boa parte das transformações dos meios profissionais da música brasileira ao longo do século XX.
Obras selecionadas
- Arreliento
- Cabeludo
- Caboclo feliz, com Luiz Peixoto
- Diamante azul
- Marcha Caloric
- Mimoso
- Minha garota sincopada
- Paisagem tropical
- Quando o banjo toca
- Suspirando
- Teimoso
- Você é minha felicidade
Discografia selecionada
- Gaó viaja pelo mundo — 1960
- Gaó, seu piano e orquestra — 1964
- The Melodic Sound of Gaó's Piano and The Ipanema Strings — 1966
- Valsas brasileiras — 1967
- Bem brasileiro — 1969
Fontes
- Instituto Casa do Choro. Acervo e catálogo de partituras, especialmente os registros relacionados à Orquestra Colbaz, José Rielli, Copinha e aos arranjos de Gaó para obras de Ernesto Nazareth.
- Instituto Moreira Salles. Acervo José Ramos Tinhorão, documentação fotográfica de Gaó e Discografia Brasileira.
- Instituto Moreira Salles. Rádio Batuta, documentação sobre Tico-tico no fubá.
- Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Verbete “Gaó”.
- BESSA, Virgínia de Almeida. A escuta singular de Pixinguinha: história e música popular no Brasil dos anos 1920 e 1930. Pesquisa sobre o ambiente profissional da música em São Paulo e a formação de Gaó.
- Instituto Piano Brasileiro. Discografia e documentação sobre o repertório pianístico de Gaó.
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