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Ernesto Nazareth | Choropedia — Pianista, Compositor e Pai do Tango Brasileiro
Ernesto Nazareth (1863–1934): vida, obra e legado do compositor carioca que situou a síncopa brasileira na fronteira entre o popular e o erudito. Conheça seus tangos, valsas e sua influência no choro.

Introdução
Ernesto Nazareth (Rio de Janeiro, 20 de março de 1863 – 1º de fevereiro de 1934) foi um dos mais importantes compositores e pianistas do Brasil, cuja obra ocupa lugar central na tradição da música popular urbana carioca. Atuando na virada do século XIX para o XX, Nazareth construiu um repertório de tangos, valsas e polcas que combinava com maestria as formas europeias com o ritmo e o temperamento da música afro-brasileira, criando uma linguagem própria, ao mesmo tempo refinada e popular.
Sua relevância para o choro é múltipla: embora Nazareth se identificasse principalmente com o piano solista de salão, sua música compartilha os mesmos fundamentos rítmicos e melódicos do choro instrumental — a síncopa, o diálogo entre tensão e fluidez, o virtuosismo discreto. Figura de transição entre o choro da segunda metade do século XIX e a música popular do século XX, Nazareth influenciou gerações de compositores e intérpretes, sendo até hoje presença constante nos repertórios de grupos chorões.
Formação e Contexto Musical
Nascido em uma família de classe média carioca, Ernesto Nazareth demonstrou aptidão musical precoce e formou-se em grande parte como autodidata. A base de seu aprendizado pianístico veio dos ensinamentos de sua própria mãe, que lhe transmitiu familiaridade com o repertório e a estética do piano europeu — especialmente Chopin, cuja influência é perceptível em suas valsas e na qualidade poética de suas linhas melódicas. O compositor Francisco Mignone chegou a afirmar que Nazareth "nada tinha de erudito" e era antes um "intuitivo", comparando-o nesse aspecto a Villa-Lobos — uma avaliação que destaca como sua musicalidade brotou de uma escuta apurada e de um talento natural, mais do que de uma formação acadêmica sistemática.
O Rio de Janeiro da época de sua formação era um ambiente musical efervescente, marcado pelo encontro de culturas. As polcas, mazurcas e schottisches europeias conviviam nas festas e saraus com as danças de origem africana — lundum, batuque — e com as primeiras manifestações do choro instrumental, então encabeçadas por Chiquinha Gonzaga e Joaquim Callado, entre outros. Esse caldo cultural foi o solo em que Nazareth desenvolveu seu estilo, absorvendo a sensibilidade do repertório pianístico europeu que conhecia e a ginga rítmica do popular que o cercava.
Ao longo de sua vida profissional, trabalhou como pianista em salas de espera de cinemas silenciosos — notavelmente o Cine-Odeon —, além de atuar e divulgar sua obra em casas de partituras como a Casa Carlos Gomes e a Casa Stephan (localizada na Galeria Cruzeiro). Essa inserção simultânea no cotidiano comercial e no circuito popular foi determinante para a difusão de suas composições.
Estilo Musical
O estilo de Ernesto Nazareth é definido pela fusão entre estrutura formal europeia e sensibilidade rítmica brasileira. Alguns de seus traços mais característicos são:
Linguagem melódica: As melodias de Nazareth tendem ao lirismo, com contornos cantáveis e expressivos. Apresentam frequente uso de cromatismos ornamentais, appogiaturas e inflexões que remetem tanto ao romantismo pianístico europeu quanto à melismatica da música popular brasileira.
Linguagem harmônica: Nazareth utiliza a harmonia tonal de forma bastante elaborada para o contexto da música popular de seu tempo, com modulações inesperadas, acordes de empréstimo modal e progressões que revelam intimidade com o repertório clássico-romântico. Ao mesmo tempo, suas cadências e resoluções têm um sabor idiomático brasileiro, distante do academicismo puro.
Ritmo e síncopa: O elemento mais imediatamente reconhecível em sua música é o ritmo sincopado, herdeiro direto da africanização da dança urbana brasileira. Nos seus tangos brasileiros, a mão esquerda mantém um padrão de baixos que sustenta a célula rítmica do tango-habanera, enquanto a mão direita articula síncopes e contratempos com fluidez. Esse equilíbrio entre pulsação firme e deslocamento rítmico é a marca central de seu idioma.
Instrumentação e textura: Nazareth compôs predominantemente para piano solo, e sua escrita explora com eficiência as possibilidades do instrumento: baixos em oitavas, arpejos no acompanhamento, ornamentação na linha melódica. Apesar disso, muitas de suas peças foram e continuam sendo transcritas e adaptadas para formações chorísticas (flauta, violão, cavaquinho, pandeiro), funcionando muito bem nesses arranjos.
Formas típicas: A grande maioria de suas obras está nas formas binárias ou ternárias de danças: tango brasileiro (sua denominação preferida, alternativa ao maxixe que ele rejeitava), valsa, polca e choro. As peças em forma binária com repetições e trio são as mais frequentes, seguindo a estrutura AABBACCA ou variantes próximas.
Inovações e aspectos distintivos: Nazareth recusava o rótulo de "maxixe" para sua música, preferindo denominar seus tangos como expressão da música popular brasileira em sua forma mais legítima — o que revela sua postura de elevar o popular à condição de arte séria, digna de salas de concerto. Essa atitude foi pioneira no reconhecimento do valor estético da música de raiz popular urbana.
Obras Importantes
A seguir, uma seleção de composições de Ernesto Nazareth representativas de seu estilo e frequentemente encontradas nos repertórios de choro e música popular brasileira:
| Título | Gênero | Observações |
|---|---|---|
| Odeon (1909) | Tango brasileiro | Uma de suas peças mais conhecidas internacionalmente; gravada e executada em todo o mundo. |
| Brejeiro (1893) | Tango brasileiro | Considerada uma de suas obras seminais; apresenta síncopes características com grande vivacidade. |
| Apanhei-te, Cavaquinho | Tango brasileiro | Título humorístico e ritmo irresistível; tornou-se peça obrigatória no repertório chorão. |
| Turbilhão de Beijos | Valsa | Exemplo do lirismo nazarethiano nas valsas; harmonia romântica e melodia expansiva. |
| Labirinto | Tango brasileiro | Estrutura modulatória elaborada; título sugestivo da complexidade harmônica da peça. |
| Escorregando | Tango brasileiro | Peça de caráter festivo e rítmico; muito popular em rodas de choro. |
Exemplo Musical
"Odeon" (1909) é talvez a obra mais representativa de Ernesto Nazareth para introduzir o ouvinte ao seu estilo. Ao escutá-la, vale observar como a mão esquerda ao piano estabelece um padrão rítmico estável e insistente — a célula do tango-habanera — enquanto a melodia principal desliza sobre esse suporte com síncopes e pequenos atrasos que criam uma sensação de balanço constante. Na seção central (trio), a tonalidade muda e o caráter da peça se transforma, tornando-se mais lírico e introspectivo, antes de retornar ao clima animado da seção inicial. Essa alternância entre a vivacidade rítmica e o lirismo melódico resume em poucos minutos toda a arte de Nazareth.
Influências e Relações
Influências sobre Nazareth:
- Frédéric Chopin — Referência maior para sua escrita pianística, especialmente no tratamento lírico da melodia e no uso expressivo da harmonia nas valsas.
- Música de salão europeia — Polcas, mazurcas e schottisches do século XIX moldaram as formas que ele adotou e transformou.
- Chiquinha Gonzaga e Joaquim Callado — Pioneiros do choro carioca que estabeleceram o ambiente musical em que Nazareth se formou.
- Tradição afro-brasileira urbana — O lundum, o batuque e as danças populares do Rio de Janeiro forneceram o substrato rítmico de toda sua obra.
Compositores e músicos influenciados por Nazareth:
- Darius Milhaud — O compositor francês, que viveu no Rio de Janeiro entre 1917 e 1919, era admirador fervoroso de Nazareth. Tanto assim que utilizou o tema inteiro de Brejeiro em sua peça Scaramouche, sem atribuir crédito ao compositor brasileiro.
- Heitor Villa-Lobos — Admirador declarado de Nazareth, cujas síncopes e cromatismos populares deixaram traços perceptíveis em obras para piano do compositor brasileiro. A relação entre os dois foi de mútua admiração: Villa-Lobos dedicou a Nazareth o Choros nº 1 (violão, 1920), e Nazareth retribuiu três anos depois dedicando ao amigo o estudo de concerto Improviso (1923).
- Gerações de chorões — Pianistas, flautistas e violonistas do choro brasileiro incorporaram seu repertório como base do cânone da música popular instrumental.
Contexto de circulação:
- Nazareth atuou como pianista nas salas de espera do Cine-Odeon e de outros cinemas silenciosos do Rio de Janeiro, levando sua música a um público amplo e diversificado.
- Sua presença na Casa Carlos Gomes e na Casa Stephan (Galeria Cruzeiro) foi determinante para a venda, divulgação e circulação de suas composições.
Legado
O legado de Ernesto Nazareth é de primeira grandeza na música brasileira. Sua obra ocupa uma posição singular: pertence ao mesmo tempo à tradição do piano erudito de salão e ao universo do choro e da música popular urbana, sem se reduzir inteiramente a nenhum dos dois.
No repertório do choro moderno, suas peças figuram como clássicos incontornáveis. O conjunto Época de Ouro, de Jacob do Bandolim, foi um dos responsáveis por consagrar seu repertório em gravações históricas, e qualquer músico que se dedique ao choro inevitavelmente passará por Nazareth. A riqueza rítmica e harmônica de seus tangos os torna igualmente apreciados por pianistas eruditos e por conjuntos populares.
No plano histórico, Nazareth foi um dos primeiros artistas a tratar a música popular brasileira com a seriedade de uma arte maior — tocando-a em contextos de concerto e recusando rótulos que a rebaixassem. Essa postura antecipou debates que marcariam a cultura musical brasileira ao longo do século XX.
Reconhecido por figuras como Villa-Lobos e Darius Milhaud, e estudado por musicólogos e intérpretes de gerações sucessivas, Ernesto Nazareth permanece uma referência obrigatória para quem deseja compreender a formação da identidade musical do Brasil urbano. Sua última apresentação pública deu-se em 26 de fevereiro de 1932, em Santana do Livramento — tocou debruçado ao piano, pois a surdez quase não lhe deixava mais ouvir o que executava. Uma imagem que condensa, com força singular, a entrega absoluta de uma vida dedicada à música.
Fontes
As seguintes fontes são relevantes para o estudo de Ernesto Nazareth e do contexto musical em que atuou:
- MACHADO, Cacá. O enigma do homem célebre: ambição e vocação de Ernesto Nazareth. Instituto Moreira Salles, 2007. — Estudo biográfico e analítico aprofundado, que relaciona a trajetória de Nazareth ao conto O homem célebre, de Machado de Assis. Referência fundamental para pesquisadores.
- APPLEBY, David P. The Music of Brazil. University of Texas Press, 1983. — Contextualização da música brasileira no período de Nazareth.
- BÉHAGUE, Gerard. Music in Latin America: An Introduction. Prentice-Hall, 1979. — Panorama da música latinoamericana com referências à tradição carioca.
- TINHORÃO, José Ramos. Música Popular: Um Tema em Debate. Editora 34, 1997. — Análise crítica da música popular urbana brasileira, incluindo o período do choro e do tango brasileiro.
- TINHORÃO, José Ramos. História Social da Música Popular Brasileira. Editora 34, 1998. — Referência fundamental para o contexto histórico e social da música de Nazareth.
- TABORDA, Márcia. Pesquisas sobre o choro e a música instrumental carioca do século XIX e XX. — Trabalhos acadêmicos relevantes para o estudo do período.
- Acervo da Fundação Nacional de Artes (FUNARTE) — Partituras, gravações históricas e documentação sobre Ernesto Nazareth.
- Enciclopédia da Música Brasileira (Art Editora / Publifolha) — Verbetes biográficos e discográficos sobre o compositor.
Nota: Para consulta de partituras originais, recomenda-se o acervo da Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro) e da Fundação Nacional de Artes (FUNARTE).
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