Choropedia
Donga: compositor e violonista do samba e choro
Donga foi compositor e violonista decisivo para o samba urbano e o choro, autor de 'Pelo Telefone' e integrante dos Oito Batutas.

Introdução
Ernesto Joaquim Maria dos Santos (Rio de Janeiro, 5 de abril de 1890 – Rio de Janeiro, 25 de agosto de 1974), conhecido como Donga, foi compositor e violonista de importância decisiva para a história da música popular brasileira. Seu nome aparece de modo incontornável tanto na consolidação inicial do samba urbano quanto na formação do ambiente musical em que o choro se desenvolveu nas primeiras décadas do século XX.
Formação e ambiente musical
Donga nasceu no Rio de Janeiro, filho de Pedro Joaquim Maria e Amélia Silvana de Araújo. Seu pai tocava bombardino nas horas vagas, e sua mãe, conhecida como Tia Amélia, promovia festas de samba e reuniões musicais ligadas ao universo das baianas da Cidade Nova. Esse ambiente doméstico foi decisivo para sua formação, situando-o desde cedo no cruzamento entre sociabilidade popular, festa, dança e prática musical.
Seu primeiro instrumento foi o cavaquinho, aprendido ainda na adolescência, ouvindo músicos como Mário Álvares. Em 1907, iniciou os estudos de violão com Quincas Laranjeiras, um dos nomes centrais da história do instrumento no Rio de Janeiro. Essa base ajuda a entender por que Donga não deve ser lembrado apenas como "o autor de Pelo Telefone", mas também como instrumentista profundamente inserido nas redes de circulação do choro.
A bibliografia ligada ao universo do choro também situa Donga entre os músicos que conviviam na região da Rua do Riachuelo, em ambiente de pensões e repúblicas frequentadas por nomes como Pixinguinha e João Pernambuco. Esse dado ajuda a compreender o caráter coletivo, urbano e cotidiano da formação desses músicos, muito distante da ideia de trajetórias isoladas.
Donga entre o samba e o choro
O episódio mais célebre de sua trajetória é a composição de "Pelo Telefone", em parceria com Mauro de Almeida, registrada na Biblioteca Nacional em 27 de novembro de 1916. A obra ficou consagrada como o primeiro samba gravado e tornou-se um marco simbólico da história do gênero. Ao mesmo tempo, sua origem permanece cercada por debate historiográfico, já que a peça nasceu no circuito das reuniões musicais da casa de Tia Ciata, ambiente de criação coletiva frequentado por músicos como João da Baiana, Pixinguinha, Caninha e outros.
Esse ponto merece nuance. Parte da bibliografia mostra que Pelo Telefone foi fixado por Donga como obra autoral, mas preserva marcas de elaboração coletiva e de uma prática musical anterior à separação rígida entre compositor, intérprete e roda. Além disso, estudos históricos observam que a peça foi executada em ritmo amaxixado e que sua grande contribuição foi difundir o termo samba entre o público urbano e carnavalesco da época. Em outras palavras, sua importância é menos a de inaugurar sozinho um gênero pronto do que a de cristalizar, em forma circulável e comercial, materiais que vinham de práticas coletivas afro-cariocas e populares.
Atuação instrumental e conjuntos
Por volta de 1914, Donga passou a integrar o Grupo de Caxangá, conjunto organizado por João Pernambuco, de inspiração nordestina, no qual adotou o codinome Zé Vicente. O grupo é importante não apenas por seu repertório e performance pública, mas também por ter reunido músicos que viriam a desempenhar papel central na música popular brasileira das décadas seguintes.
Em 1919, Donga participou da criação dos Oito Batutas, conjunto formado por ele e Pixinguinha para atuar inicialmente na sala de espera do Cinema Palais, a convite de Isaac Frankel. Como violonista, integrou a histórica viagem do grupo a Paris, em 1922. No final do mesmo ano, o conjunto seguiu para a Argentina, onde gravou vinte faixas pela Victor de Buenos Aires em 1923. Já em 1926, viajou novamente à Europa com o Carlito Jazz, acompanhando a companhia Bataclan.
Essas passagens mostram que Donga participou diretamente da profissionalização e internacionalização inicial da música popular urbana brasileira.
Pouco depois, ao lado de Pixinguinha, organizou a Orquestra Típica Pixinguinha-Donga, responsável por gravações de choros, sambas e maxixes para a Parlophon em 1928. Entre essas gravações está o disco que reuniu Lamentos, de Pixinguinha, e Amigo do povo, de Donga. A recepção da época não foi unânime: parte da crítica percebeu nessas gravações uma influência excessiva de melodias e ritmos norte-americanos. Ainda assim, esse repertório documenta uma etapa crucial de experimentação na música urbana brasileira.
Donga no campo do choro
Embora sua fama pública esteja frequentemente concentrada no samba, o acervo da Casa do Choro confirma Donga como autor efetivo também no universo do choro. Amigo do povo aparece catalogado explicitamente como choro em 2/4, e a própria trajetória do músico o coloca ao lado de figuras essenciais da tradição chorística, como Pixinguinha, João da Baiana, João Pernambuco e os integrantes dos Batutas.
A partir desse conjunto de evidências, é mais adequado entender sua presença no choro não como periférica, mas como parte constitutiva do mesmo ambiente musical em que samba, maxixe, tango brasileiro e choro ainda mantinham fronteiras porosas.
Também por isso sua obra ajuda a lembrar que, nas primeiras décadas do século XX, os gêneros não estavam plenamente estabilizados segundo categorias posteriores. Donga circulou entre sambas, choros, marchas, batucadas, emboladas e canções, e essa mobilidade é menos sinal de indefinição do que marca histórica de um período em que os músicos populares atuavam com grande fluidez entre repertórios, funções instrumentais e espaços de performance.
Obras em destaque
Entre as obras mais conhecidas de Donga, podem ser lembradas "Pelo Telefone" (com Mauro de Almeida), "Amigo do povo", "Dona Clara (Não te quero mais)", "Canção dos infelizes" e "Patrão, prenda seu gado". O conjunto de sua produção confirma um compositor de ampla circulação entre gêneros e profundamente enraizado na formação da música popular urbana brasileira.
Legado
O legado de Donga pode ser lido em duas frentes complementares. A primeira é estética e histórica: ele esteve no centro de redes de sociabilidade musical que ajudaram a moldar a linguagem urbana carioca do início do século XX. A segunda é institucional: ao registrar Pelo Telefone, imprimir partitura e inserir a obra nos circuitos de difusão comercial, Donga participou de uma passagem decisiva entre prática coletiva tradicional e circulação moderna da canção como mercadoria cultural. Essa leitura não elimina o caráter coletivo das origens do samba, mas mostra como certos músicos foram decisivos para transformar prática social em repertório fixado, gravado e comercializado.
Nas décadas seguintes, Donga continuou ativo em gravações e conjuntos ligados à chamada velha guarda. A Casa do Choro destaca ainda que grande parte de sua produção foi gravada por intérpretes como Carmen Miranda, Francisco Alves, Mário Reis, Sílvio Caldas, Augusto Calheiros, Aurora Miranda e Almirante. Pouco antes de sua morte, em 1974, foi lançado um LP dedicado apenas a composições suas, gesto tardio mas eloquente de reconhecimento a uma figura fundamental da música brasileira.
Fontes
- Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — Verbete sobre Donga, com cronologia detalhada, discografia, conjuntos e obras. Disponível em: dicionariompb.com.br
- Instituto Casa do Choro — Verbete biográfico e catálogo de obras, incluindo Pelo Telefone e Amigo do povo. Disponível em: casadochoro.com.br
- BITTAR, Iuri Lana. Dissertação de mestrado (UFRJ). — Fonte para o contexto do Grupo de Caxangá, a formação dos Oito Batutas e o papel de Donga na profissionalização da música popular.
- SILVA, Flávio. "Pelo Telefone e a história do samba." Música Brasilis. — Fonte para o debate historiográfico sobre a autoria e o significado da obra.
- Portal Pixinguinha — Cronologia de 1928, com informações sobre a Orquestra Típica Pixinguinha-Donga e a recepção crítica de Amigo do povo. Disponível em: pixinguinha.com.br
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