Choropedia
Bola Sete: vida e obra do violonista brasileiro
Conheça a trajetória de Bola Sete, violonista brasileiro que uniu choro, samba e jazz, com carreira no Brasil e nos EUA.

Introdução
Djalma de Andrade, conhecido artisticamente como Bola Sete (Rio de Janeiro, 16 de julho de 1923 – Greenbrae, Califórnia, 14 de fevereiro de 1987), foi violonista, guitarrista e compositor brasileiro.
Formado no ambiente do choro, do samba, dos regionais de rádio e das casas noturnas cariocas, construiu posteriormente uma importante carreira internacional, levando elementos do violão brasileiro para o jazz norte-americano e para diferentes contextos da música instrumental.
Formação e primeiros anos
Bola Sete nasceu no Rio de Janeiro e cresceu em uma família de poucos recursos, mas cercada por músicos e instrumentos de cordas. Ainda criança começou a tocar cavaquinho e, posteriormente, violão.
Entre seus parentes estava o violonista Jorge Santos, que mais tarde integraria o regional de Waldir Azevedo. O contato doméstico com o samba, o choro e os instrumentos de cordas teve papel importante em sua formação. Mais tarde, Bola Sete ampliou seus estudos, aproximando-se também do repertório de concerto e de técnicas formais do violão.
O nome artístico Bola Sete surgiu ainda no início de sua carreira e é geralmente associado à bola preta de número sete do jogo de bilhar.
Na juventude frequentou a região da Praça Tiradentes, importante centro da vida cultural carioca, onde se concentravam teatros, dancings, cabarés e casas de espetáculo. Foi nesse ambiente que começou a se inserir profissionalmente na música.
Rádio Nacional
Durante a década de 1940, Bola Sete integrou o conjunto ligado ao programa Trem da Alegria, comandado por Lamartine Babo, Yara Salles e Heber de Bôscoli.
A experiência contribuiu para sua entrada na Rádio Nacional, onde trabalhou em alguns dos principais programas musicais da emissora.
Em Um Milhão de Melodias, integrou o grupo de instrumentos de cordas dedilhadas da Orquestra Brasileira de Radamés Gnattali, convivendo com músicos como Garoto e Zé Menezes.
Participou também de Música em Surdina, sob direção de Paulo Tapajós, ao lado de Zé Menezes e Chiquinho do Acordeon, e de Chorando as Mágoas, acompanhando o clarinetista e saxofonista Luiz Americano junto ao violonista Norival Guimarães.
Essa passagem pela Rádio Nacional colocou Bola Sete em contato direto com alguns dos principais instrumentistas, compositores e arranjadores da música brasileira daquele período.
Das noites cariocas à carreira internacional
Paralelamente ao rádio, Bola Sete trabalhou intensamente nas casas noturnas do Rio de Janeiro, especialmente em Copacabana e no centro da cidade.
Apresentou-se em locais como Casablanca, Beguin, Cangaceiro, Ma Griffe, Plaza e Little Club. Em algumas dessas temporadas acompanhou Dolores Duran, ainda no início da carreira.
A atividade noturna exigia domínio de repertórios muito diversos, capacidade de improvisação e rapidez para adaptar acompanhamentos e arranjos. Essa experiência contribuiu para formar a versatilidade que se tornaria uma das principais características de Bola Sete.
Depois de realizar temporadas na América do Sul e na Europa, passou a atuar nos Estados Unidos, onde acabaria se estabelecendo.
Em 1962 participou do concerto de música brasileira realizado no Carnegie Hall, em Nova York, em meio à crescente projeção internacional da bossa nova. No mesmo período, apresentou-se no Festival de Jazz de Monterey, evento ao qual retornaria posteriormente.
Bola Sete e o jazz
Nos Estados Unidos, Bola Sete encontrou no jazz um ambiente particularmente fértil para sua maneira de tocar.
Em 1962 gravou com o trompetista Dizzy Gillespie o álbum New Wave!, combinando elementos do jazz, do samba e da bossa nova.
Pouco depois iniciou uma importante parceria com o pianista Vince Guaraldi. Entre 1963 e 1966, os dois se apresentaram regularmente em clubes da Califórnia e gravaram trabalhos como Vince Guaraldi, Bola Sete and Friends, From All Sides e Live at El Matador.
Bola Sete não abandonou a linguagem do violão brasileiro ao entrar no universo jazzístico. Seu fraseado continuava marcado pelo choro e pelo samba, enquanto a improvisação e a liberdade harmônica do jazz ampliavam as possibilidades de sua música.
A independência entre baixos, acordes e melodias permitia que o violão funcionasse quase como um pequeno conjunto. O instrumento podia assumir simultaneamente funções rítmicas, harmônicas e melódicas, característica que se tornou uma das marcas de sua execução.
Ao choro e ao samba, Bola Sete acrescentou ainda elementos do baião, do flamenco e do repertório de concerto, criando uma linguagem instrumental difícil de enquadrar em um único gênero.
O choro
Antes da carreira internacional, Bola Sete já possuía uma relação direta com o universo do choro.
Em 1948 gravou Bola Sete no Choro, acompanhado por Arlindo nos violões, Pinguim no cavaquinho e Pernambuco do Pandeiro, em uma formação característica dos regionais.
Em 1952 registrou os choros autorais Sem Compromisso e Tô de Sinuca com o Conjunto Todamérica.
Também gravou obras de outros compositores ligados ao violão brasileiro, entre elas Meditando, de Garoto.
O fraseado ágil, os ornamentos, a independência entre melodia e acompanhamento e a importância dada ao ritmo permaneceriam presentes mesmo quando Bola Sete passou a atuar predominantemente no circuito internacional de jazz.
Seu trabalho mostra uma continuidade entre o violão desenvolvido nos regionais brasileiros e a linguagem que posteriormente apresentaria nos Estados Unidos.
O trio e o Festival de Monterey
Na década de 1960, Bola Sete formou um trio brasileiro com Tião Neto, no contrabaixo, e Paulinho da Costa, na bateria e percussão.
A formação reuniu samba, choro, baião, improvisação jazzística e diferentes recursos do violão brasileiro.
O grupo está registrado no álbum Autêntico!, de 1966, e em Bola Sete at the Monterey Jazz Festival, lançado em 1967.
Nessas gravações, Bola Sete explora tanto o papel de solista quanto o de acompanhador, utilizando baixos, acordes, linhas melódicas e recursos percussivos para construir uma textura instrumental especialmente ampla.
Últimos trabalhos
A partir da década de 1970, Bola Sete passou a desenvolver trabalhos cada vez mais voltados ao violão solo e a composições de maior liberdade formal.
Em 1973 lançou Goin' to Rio, dedicado ao Brasil e a Baden Powell.
Dois anos depois gravou Ocean, um de seus trabalhos mais particulares. O álbum apresenta peças extensas, improvisação, harmonias abertas e uma abordagem mais contemplativa do instrumento, mantendo elementos da música brasileira dentro de uma linguagem bastante pessoal.
Na fase final da carreira lançou ainda Jungle Suite, em 1982.
Bola Sete morreu em 14 de fevereiro de 1987, na Califórnia, onde havia construído grande parte de sua trajetória internacional.
Obras importantes
Entre suas composições e gravações de destaque estão:
- Bola Sete no Choro
- Sem Compromisso
- Tô de Sinuca
- Baião da Bahia
- Meditando, de Garoto
- Choro nº 1
- Ocean
- Goin' to Rio
- Jungle Suite
Discografia selecionada
- Bola Sete no Choro – 1948
- Sem Compromisso / Tô de Sinuca – 1952
- Meditando / Baião da Bahia – 1953
- Aqui Está o Bola Sete – 1957
- Bola Sete em Hi-Fi – 1958
- Bossa Nova – 1962
- New Wave!, com Dizzy Gillespie – 1962
- Vince Guaraldi, Bola Sete and Friends – 1963
- Tour de Force – 1964
- The Solo Guitar of Bola Sete – 1965
- The Incomparable Bola Sete – 1965
- Autêntico! – 1966
- Bola Sete at the Monterey Jazz Festival – 1967
- Goin' to Rio – 1973
- Ocean – 1975
- Jungle Suite – 1982
Fontes
- Instituto Casa do Choro. Acervo Memória do Choro e documentação sobre Bola Sete.
- Instituto Moreira Salles. Discografia Brasileira e registros fonográficos de Bola Sete.
- MELLO, Jorge Carvalho de. “Djalma de Andrade (Bola Sete)”. Dicionário do Acervo do Violão Brasileiro.
- RAYS, Luís Gustavo Carvalho Alonso. A trajetória musical do compositor brasileiro Djalma de Andrade, Bola Sete. Dissertação de mestrado, Universidade Estadual de Campinas, 2006.
- FEATHER, Leonard. The Encyclopedia of Jazz in the Sixties. New York: Horizon Press, 1966.
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