Choropedia
Dino 7 Cordas: vida, obra e legado no violão de 7 cordas
Conheça a trajetória de Horondino José da Silva (1918-2006), violonista que consolidou a linguagem moderna do violão de sete cordas no choro e no samba.

Introdução
Horondino José da Silva, conhecido como Dino 7 Cordas ou Dino Sete Cordas, nasceu em 5 de maio de 1918, no Rio de Janeiro. Tornou-se uma das figuras centrais da música popular brasileira e o principal responsável por consolidar a linguagem moderna do violão de sete cordas no choro e no samba. Se Tute foi um dos grandes pioneiros do instrumento nos regionais, Dino foi quem fixou sua função musical: transformar os baixos em contraponto, comentário, resposta e movimento interno da canção.
Infância, Ouvido e Formação Musical
Dino nasceu na Rua Orestes, no bairro carioca do Santo Cristo. Filho de Caetano José da Silva, violonista amador, cresceu em uma casa onde a música fazia parte da vida cotidiana. Ainda criança, começou a dedilhar o bandolim, mas logo trocou o instrumento pelo violão do pai. Sua formação foi marcada menos pela escola formal e mais pela escuta: rádio, discos, festas familiares, saraus e o convívio direto com músicos populares.
Essa educação pelo ouvido seria decisiva. Dino aprendeu repertórios de toadas, valsas, sambas e choros observando como os violonistas acompanhavam cantores e solistas. Mais tarde, já profissional, estudaria teoria musical, mas sua base permaneceu ligada à prática dos regionais e à inteligência intuitiva do acompanhamento.
O Regional de Benedito Lacerda
Sua entrada na vida profissional se deu ainda jovem, acompanhando o cantor Augusto Calheiros, o Patativa do Norte, em circos e teatros. Mas a grande virada aconteceu em 1937, quando passou a integrar o Regional de Benedito Lacerda, um dos conjuntos mais importantes da época. Ali, Dino conviveu com nomes fundamentais como Meira, no violão, e Canhoto, no cavaquinho.
A formação Dino, Meira e Canhoto se tornaria uma das bases de acompanhamento mais importantes da música brasileira. O trio acompanhou cantores, solistas e gravações que atravessaram décadas, criando um padrão de precisão, elegância e balanço para o choro e o samba. A Casa do Choro registra que Dino e Meira se tornaram uma espécie de "grife" no acompanhamento brasileiro, tamanha a quantidade e a importância das gravações em que atuaram.
Pixinguinha, o Sax Tenor e a Invenção de Uma Linguagem
Um dos encontros mais decisivos para a linguagem de Dino foi com Pixinguinha. A partir de 1946, Pixinguinha passou a atuar com Benedito Lacerda, tocando sax tenor e criando contracantos graves que dialogavam com a melodia principal. Dino absorveu profundamente essa maneira de construir linhas secundárias: frases que não apenas sustentavam a harmonia, mas comentavam a melodia, respondiam ao solista e criavam outra camada musical dentro do arranjo.
Esse gesto é essencial para entender Dino. O violão de sete cordas, em suas mãos, não era apenas um instrumento de baixo. Era uma voz. Sua baixaria podia caminhar, antecipar, responder, provocar tensão e resolver com naturalidade. O que em Pixinguinha aparecia no sax tenor, Dino traduziu para o violão: uma linha grave cantável, rítmica e contrapontística, perfeitamente integrada à tradição do regional.
A Chegada ao Sete Cordas
Embora o violão de sete cordas já existisse antes de Dino e tivesse em Tute uma referência pioneira, foi Dino quem consolidou sua linguagem no ambiente profissional do choro e do samba. Segundo o Dicionário Cravo Albin, ele mandou fazer seu primeiro violão de sete cordas em 1954, passando então a ser conhecido como Dino Sete Cordas.
A grande contribuição de Dino não foi apenas adotar uma corda grave a mais. Foi compreender o que essa corda poderia fazer dentro da música brasileira. A sétima corda ampliava o registro grave, mas também exigia uma nova organização do acompanhamento: mais espaço para contracantos, maior independência entre baixo e harmonia, e uma relação mais dinâmica com o cavaquinho, os violões de seis cordas, o pandeiro e o solista.
O Época de Ouro e a Resistência do Choro
Na década de 1960, em um momento em que o choro perdia espaço nos meios de comunicação para a bossa nova, o iê-iê-iê e outras linguagens urbanas, Dino participou de um dos conjuntos mais importantes da história do gênero: o Época de Ouro, criado por Jacob do Bandolim. Em sua primeira formação, o grupo reuniu Dino no sete cordas, César Faria e Carlos Leite nos violões, Jonas Silva no cavaquinho, Gilberto d'Ávila no pandeiro e Jorginho no ritmo.
Com o Época de Ouro, Dino viveu um dos pontos altos de sua carreira. O grupo representava uma visão quase camerística do choro: arranjos elaborados, escuta coletiva, precisão rítmica e respeito profundo à tradição. O disco Vibrações, de Jacob do Bandolim com o Época de Ouro, tornou-se um marco para músicos e estudiosos do gênero.
Após a morte de Jacob, em 1969, o choro atravessou um período de menor visibilidade. Mas a retomada da década de 1970, impulsionada por artistas como Paulinho da Viola, recolocou músicos de regional no centro da cena. Dino participou desse renascimento, mantendo viva uma linguagem que parecia antiga para o mercado, mas que continuava tecnicamente sofisticada e musicalmente indispensável.
Dino e Cartola
Além de sua importância no choro, Dino teve papel decisivo no samba. Um dos exemplos mais conhecidos é sua participação nos primeiros discos de Cartola, lançados na década de 1970. A Casa do Choro destaca que Dino fez os arranjos dos primeiros discos de Cartola, consolidando um segundo momento forte de sua trajetória artística. O Dicionário Cravo Albin também registra sua atuação como arranjador e violonista em discos célebres, incluindo os primeiros álbuns do compositor.
Nesses registros, seu violão não aparece como ornamento. Ele organiza o chão harmônico, desenha baixos, conduz respirações e cria uma espécie de moldura viva para a voz de Cartola. É uma aula sobre como acompanhar sem cobrir, comentar sem competir, sofisticar sem endurecer.
Estilo Musical
O estilo de Dino pode ser entendido a partir de três elementos principais:
Baixaria: A linha grave que se move entre os acordes. Em Dino, ela raramente é apenas ligação mecânica. Ela tem direção melódica, fraseado, síncope e intenção. Muitas vezes, seus baixos parecem cantar por baixo da melodia principal, criando um segundo discurso musical.
Contraponto: Vem diretamente da escuta dos sopros, especialmente de Pixinguinha. Dino não preenchia buracos: ele conversava com a música. Sua arte estava em saber quando entrar, quando calar, quando fazer uma frase curta, quando preparar a chegada de um acorde e quando deixar a melodia respirar.
Função rítmica: Aparece tanto na condução tradicional do acompanhamento quanto em técnicas como o chamado violão tamborim, associado a uma execução em pizzicato e a uma sonoridade percussiva do instrumento. Essa técnica reforça o caráter rítmico do violão, aproximando-o da batucada e ampliando sua função dentro do regional.
A Escola Dino
Dino criou uma escola sem precisar escrever um método. Sua pedagogia principal está nas gravações. Violonistas de sete cordas estudam seus discos como quem consulta um mapa: ali estão os caminhos de baixo, as respostas ao solista, os clichês melódicos, os cromatismos, os desenhos sincopados e o equilíbrio entre liberdade e função.
Seu discípulo mais conhecido foi Raphael Rabello, que reconheceu em Dino uma influência profunda. O Dicionário Cravo Albin registra a declaração de Raphael segundo a qual ele se dedicou durante muitos anos a estudar tudo o que Dino fazia, a ponto de considerar seu próprio trabalho profundamente marcado pelo "sotaque" do mestre.
Em 1991, os dois gravaram juntos o álbum Raphael Rabello & Dino 7 Cordas, encontro simbólico entre a tradição do acompanhamento e a expansão solística do instrumento. A Casa do Choro observa que esse foi o único disco de Dino como protagonista, apesar de sua presença atravessar incontáveis gravações da música brasileira.
Compositor e Músico de Bastidor
Dino também compôs, embora sua fama esteja muito mais ligada ao acompanhamento. O Dicionário Cravo Albin registra um conjunto de 35 músicas, entre peças vocais e instrumentais, com gravações por intérpretes como Almirante, Castro Barbosa, Orlando Silva, Isaura Garcia, Ciro Monteiro, Carlos Galhardo, Ângela Maria e Linda Batista. Entre suas obras mais lembradas está "Aperto de Mão", parceria com Meira e letra de Augusto Mesquita.
Mas sua grande obra talvez não esteja em uma lista de composições. Está em uma maneira de tocar. Dino elevou o músico de acompanhamento a uma categoria criativa central. Mostrou que acompanhar não é ficar atrás, mas sustentar a arquitetura invisível da música. Seu violão é discreto apenas para quem não sabe escutar os graves.
Gravações Importantes
Para compreender sua linguagem, algumas gravações são especialmente importantes:
| Título | Observações |
|---|---|
| Vibrações | Jacob do Bandolim com Época de Ouro. Marco do choro camerístico. |
| Choros Imortais | Com Altamiro Carrilho e Regional do Canhoto. |
| Primeiros discos de Cartola | Década de 1970. Dino assina os arranjos. |
| Raphael Rabello & Dino 7 Cordas | 1991. Único disco de Dino como protagonista. |
| Dino 50 Anos | Conjunto Época de Ouro, 1987. Homenagem à sua trajetória. |
Legado
Dino 7 Cordas faleceu em maio de 2006, no Rio de Janeiro, após uma trajetória que atravessou mais de seis décadas de música brasileira. Sua importância não se resume ao instrumento que tocava, mas à função que redefiniu. Antes dele, o sete cordas já existia. Depois dele, passou a ter uma gramática, uma ética e uma voz.
Seu legado permanece em cada violonista que estuda uma baixaria, em cada regional que equilibra tradição e invenção, em cada acompanhamento que entende que o grave também pode cantar. Dino ensinou que o violão de sete cordas não é apenas o chão da música. É raiz, caminho e comentário. É a memória do choro caminhando por dentro do som.
Fontes
- Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — Verbete biográfico de Horondino José da Silva, com cronologia, composições e discografia. Disponível em: dicionariompb.com.br
- Instituto Casa do Choro — Verbete de Dino Sete Cordas, com destaque para sua atuação nos regionais e os arranjos dos discos de Cartola. Disponível em: casadochoro.com.br
- Instituto Moreira Salles / Rádio Batuta — Especial "Dino 7 Cordas, o violão fundamental". Disponível em: ims.com.br
- TABORDA, Márcia Ermelindo. Dino Sete Cordas e o acompanhamento de violão na música popular brasileira. Dissertação de mestrado. — Referência acadêmica para o estudo da linguagem do violão de sete cordas e a contribuição de Dino.
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