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Dilermando Reis: vida, obra e legado no violão brasileiro

Conheça a trajetória de Dilermando Reis, violonista e compositor que marcou o choro, a valsa e a seresta. Saiba mais sobre suas obras, estilo e influências.

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Dilermando Reis

Introdução

Dilermando dos Santos Reis (Guaratinguetá, São Paulo, 22 de setembro de 1916 — Rio de Janeiro, 2 de janeiro de 1977), conhecido como Dilermando Reis, foi violonista, compositor, arranjador e professor, reconhecido como uma das figuras mais importantes da história do violão brasileiro. Sua trajetória esteve profundamente ligada ao rádio, à expansão da indústria fonográfica e à consolidação do violão como instrumento solista no Brasil.

Sua importância para o choro está ligada a três dimensões complementares. A primeira é a composição: choros e valsas como Magoado, Noite de Lua, Se Ela Perguntar, Dois Destinos, Tempo de Criança e Xodó da Baiana permanecem no repertório de estudantes e concertistas, atravessando gerações. A segunda é a interpretação: suas gravações de Sons de Carrilhões, de João Pernambuco, e Abismo de Rosas, de Canhoto, tornaram-se versões de referência do violão brasileiro. A terceira é pedagógica e institucional: por meio do programa Sua Majestade, o Violão, na Rádio Nacional (1956–1969), e de uma atividade docente contínua, Dilermando ajudou a transformar o violão em protagonista da cultura musical brasileira e formou intérpretes como Bola Sete e Darci Vilaverde.


Formação e Contexto Musical

Dilermando começou a aprender violão ainda na infância com o pai, Francisco Reis, violonista amador e seresteiro. O ambiente familiar colocou o menino em contato com modinhas, valsas, canções e serenatas, e o aprendizado inicial ocorreu principalmente pela observação, pela memória e pela prática direta com o instrumento — como era comum entre muitos músicos populares da época.

Aos 15 anos, assistiu a uma apresentação do violonista Levino da Conceição, que passava por Guaratinguetá. Dilermando tornou-se seu aluno e passou a acompanhá-lo em apresentações e excursões, ganhando uma formação mais sistemática e ampliando seu conhecimento do repertório violonístico. Em 1933, chegou ao Rio de Janeiro na companhia do professor. Na capital, aproximou-se de João Pernambuco, nome fundamental da história do violão e do choro, e estudou teoria musical com Bonfiglio de Oliveira, trompetista e compositor que transitava entre a música popular, as bandas e o ambiente sinfônico. Essa formação reuniu elementos de diferentes tradições — de um lado a seresta, a oralidade e o aprendizado direto com violonistas populares; de outro, a leitura musical, o estudo técnico e o contato com obras do repertório europeu.

Nos primeiros anos no Rio de Janeiro, Dilermando trabalhou como professor em lojas de instrumentos musicais — estabelecimentos que funcionavam também como espaços de encontro entre músicos, compositores, professores e estudantes. Em meados da década de 1930, passou a participar de programas de rádio, inicialmente acompanhando cantores em apresentações de calouros. Durante um intervalo, foi ouvido tocando sozinho pelo radialista Renato Murce, que percebeu o potencial de um programa dedicado ao violão solo. O sucesso dessas apresentações abriu caminho para sua atuação regular no rádio, e Dilermando passou por algumas das principais emissoras cariocas, entre elas a Rádio Transmissora, a Rádio Clube do Brasil e, posteriormente, a Rádio Nacional.

Embora tenha se tornado conhecido principalmente como solista, continuou trabalhando como acompanhador — dupla atividade característica do mercado musical do período. Também se apresentou no Cassino da Urca, um dos principais espaços de entretenimento do Rio de Janeiro antes da proibição dos jogos de azar, em 1946. Nesse ambiente, conviveu com cantores, instrumentistas, maestros e artistas ligados à música popular urbana, ampliando a rede de contatos que sustentaria sua trajetória posterior.


Estilo Musical

O estilo de Dilermando Reis se define pelo cruzamento entre a tradição da seresta, o vocabulário do choro instrumental, a herança do violão de concerto europeu e uma escrita composicional própria, marcada pela clareza melódica e pelo controle técnico. Alguns de seus traços mais característicos são:

O tratamento flexível do tempo: É a marca central da linguagem de Dilermando. Nas gravações, o violonista utilizava pequenas alterações de andamento, antecipações e retardamentos para destacar o contorno das frases, aproximando sua interpretação da voz cantada e da prática dos antigos seresteiros. Esse rubato controlado, característico da tradição romântica brasileira, tornou-se uma assinatura imediatamente reconhecível.

Linguagem melódica: As melodias são claramente definidas, com desenho cantável, articulação expressiva e um forte senso de canto. Há gosto pela linha longa, pelas passagens idiomáticas do violão, pelos deslocamentos entre registros e pelo contraste entre seções. Mesmo quando trabalha com formas exigentes tecnicamente, a fluidez do discurso melódico permanece como prioridade.

Linguagem harmônica: A harmonia é tonal e clara, ligada ao vocabulário do choro, da valsa brasileira, da modinha e da seresta. Ao contrário de compositores que buscaram ampliar radicalmente a harmonia do violão brasileiro, Dilermando manteve-se ligado às formas populares já estabelecidas, com uma escrita cuidadosa das cadências, das modulações e das preparações harmônicas.

Ritmo e síncopa: Nos choros, a pulsação característica do gênero aparece com precisão e nuance, com síncopes, acentuações deslocadas e diálogo entre tensão e resolução. Nas valsas, o balanço se desloca para a articulação do compasso ternário, com o mesmo cuidado no tratamento das inflexões e das respirações.

A independência entre melodia, baixos e acompanhamento interno: Uma das características mais notáveis de suas gravações. Mesmo com os recursos técnicos disponíveis nas décadas de 1940 e 1950, é possível perceber a articulação clara entre as diferentes vozes — a melodia se destaca sem obscurecer os baixos, e o acompanhamento interno preenche o espaço com discrição e precisão.

Técnica a serviço da expressão: Seu toque evitava a exibição técnica desligada do conteúdo musical. Arpejos, escalas, ligados e mudanças de posição eram utilizados como recursos expressivos, integrados à construção da frase. A virtuosidade, quando aparece, sempre está subordinada ao canto da obra.

Instrumentação e textura: A escrita é para violão solo e explora o instrumento como pequena orquestra popular: melodia na voz superior, baixos ativos, vozes intermediárias e movimentos harmônicos que fazem o violão sugerir diferentes planos sonoros. Muitas peças funcionam bem em duo de violões — configuração explorada por Dilermando em suas gravações históricas com Meira.

Formas típicas: O catálogo composicional articula choros, valsas, guarânias, boleros, toadas, maxixes, sambas-canções e peças de caráter descritivo. Essa diversidade formal atesta uma compreensão ampla do violão brasileiro, aberta a diferentes gêneros da música popular urbana.

Inovações e aspectos distintivos: A contribuição mais singular de Dilermando está no modo como consolidou uma imagem duradoura do violão brasileiro: solista, acompanhador, popular, refinado e profundamente ligado à melodia. Sua obra mostra que a modernização do instrumento não passava necessariamente pela ruptura harmônica ou pela ampliação do vocabulário, mas pela qualidade do acabamento, pela adaptação do repertório e pela maneira particular de interpretar cada melodia.


Obras Importantes

A seguir, uma seleção de composições representativas do catálogo de Dilermando Reis, entre choros, valsas e obras em parceria:

Título Gênero Observações
Magoado Choro Gravado no primeiro disco de Dilermando, em 1941; uma de suas composições mais conhecidas.
Noite de Lua Valsa Registrada em 1941, no mesmo disco de Magoado.
Vê se te Agrada Choro Gravada em 1948, com acompanhamento de Meira.
Dois Destinos Valsa Uma das valsas mais difundidas do compositor.
Tempo de Criança Choro Obra presente no repertório de diferentes gerações de violonistas.
Doutor Sabe Tudo Choro Gravado em 1949, com acompanhamento de Meira.
Flor de Aguapé Valsa Lançada em disco ao lado de Doutor Sabe Tudo.
Xodó da Baiana Choro Gravado por Dilermando em 1950 e lançado em 1951.
Promessa Valsa Lançada no mesmo disco de Xodó da Baiana.
Se Ela Perguntar Valsa Parceria com Jair Amorim; uma de suas obras mais conhecidas.
Uma Valsa e Dois Amores Valsa Peça frequentemente retomada por violonistas brasileiros.
Ausência Valsa Gravada por Dilermando em 1960.

Exemplo Musical

Magoado é a peça mais útil para introduzir o ouvinte à obra de Dilermando Reis como compositor. Choro em estrutura tradicional, gravado no primeiro disco do violonista em 1941 (ao lado da valsa Noite de Lua), sintetiza traços centrais de sua linguagem: melodia claramente definida, com forte senso de canto; passagens idiomáticas para o violão, com arpejos e deslocamentos entre registros; harmonia clara e cadências bem construídas; e o tratamento flexível do tempo que se tornaria a assinatura interpretativa de Dilermando. A obra permanece no repertório de estudantes, concertistas e intérpretes do choro contemporâneo.

Para escutar Dilermando em sua vertente de intérprete do repertório brasileiro, o caminho é buscar suas gravações de Sons de Carrilhões, de João Pernambuco, e Abismo de Rosas, de Canhoto — versões que se tornaram referência do violão brasileiro. Os álbuns temáticos Dilermando Reis Interpreta Pixinguinha (1972) e Homenagem a Ernesto Nazareth (1973, com Dino 7 Cordas) oferecem também uma entrada rica em sua concepção do repertório instrumental brasileiro.


Influências e Relações

Influências sobre Dilermando Reis:

  • Francisco Reis — Pai, violonista amador e seresteiro, primeira referência musical e responsável pelo contato inicial com modinhas, valsas, canções e serenatas.
  • Levino da Conceição — Violonista com quem Dilermando estudou a partir dos 15 anos, e com quem viajou para o Rio de Janeiro em 1933. Formação sistemática e ampliação do repertório violonístico.
  • João Pernambuco — Referência maior do violão brasileiro e do choro, cuja aproximação nos primeiros anos no Rio foi decisiva. Dilermando gravaria posteriormente versões consagradas de sua obra, entre elas Sons de Carrilhões.
  • Bonfiglio de Oliveira — Trompetista e compositor, professor de teoria musical, responsável pelo lado formal da formação de Dilermando.
  • Tradição da seresta e da modinha — Ambiente doméstico e prático em que se formou seu senso de canto, sua concepção de fraseado e o tratamento flexível do tempo característico de sua interpretação.
  • Repertório violonístico europeu — Obras de Chopin, Tárrega, Beethoven, Debussy e outros compositores que Dilermando transcreveu, arranjou e incorporou ao seu repertório.

Diálogos e parcerias:

  • Meira (Jayme Florence) — Um dos maiores violonistas de acompanhamento da música brasileira e parceiro histórico de Dilermando em gravações e apresentações. Na dupla, Dilermando geralmente assumia a melodia e as passagens solistas, enquanto Meira construía a base harmônica e rítmica — uma divisão de funções que se tornou modelo para o duo de violões no choro.
  • Dino 7 Cordas — Acompanhou Dilermando em trabalhos dedicados ao repertório tradicional brasileiro, entre eles o álbum Homenagem a Ernesto Nazareth (1973).
  • Renato Murce — Radialista que percebeu o potencial do violão solo de Dilermando e abriu caminho para sua atuação regular no rádio.
  • Jair Amorim — Parceiro compositional na valsa Se Ela Perguntar, uma de suas obras mais conhecidas.
  • Radamés Gnattali — Compositor que dedicou a Dilermando o Concerto nº 1 para Violão e Orquestra, gesto que confirma o reconhecimento entre pares.

Alunos e sucessores:

  • Bola Sete — Um dos alunos mais notáveis, cuja carreira internacional posterior levaria a matriz do violão brasileiro ao jazz e à música instrumental contemporânea.
  • Darci Vilaverde — Violonista formado sob orientação de Dilermando.
  • Maristela Kubitschek — Aluna filha do presidente Juscelino Kubitschek.
  • Raphael Rabello, Marco Pereira, Paulo Bellinati, Turíbio Santos — Violonistas de gerações posteriores que retomaram suas composições em discos e apresentações, mantendo viva sua obra no repertório contemporâneo do violão brasileiro.

Contexto de circulação:

  • Atuou nos ambientes fundamentais da música brasileira do meio do século XX: lojas de instrumentos musicais, Cassino da Urca, Rádio Transmissora, Rádio Clube do Brasil e Rádio Nacional, além de estúdios de gravação, teatros e salas de concerto.
  • Foi responsável pelo programa Sua Majestade, o Violão, na Rádio Nacional, entre 1956 e 1969 — um dos programas dedicados ao violão mais duradouros da história do rádio brasileiro.
  • Organizou também uma orquestra formada por dez violões, experiência importante para a valorização do instrumento em formações coletivas.

Legado

Dilermando Reis ocupa um lugar de referência na história do violão brasileiro. Sua atuação como solista, compositor, acompanhador, arranjador, transcritor e professor cobre praticamente todas as dimensões possíveis do ofício, e sua obra atravessa a fronteira que separaria o popular e o de concerto, o rádio e a sala de recital, a seresta e a partitura editada.

Como compositor, criou um repertório que continua sendo estudado, gravado e apresentado em concertos. Magoado, Noite de Lua, Se Ela Perguntar, Dois Destinos, Tempo de Criança e Xodó da Baiana fazem parte do vocabulário de qualquer violonista brasileiro. Como intérprete, estabeleceu versões de referência para obras de João Pernambuco, Canhoto, Ernesto Nazareth e Pixinguinha — versões que se tornaram, para muitos ouvintes, o próprio som dessas peças.

Como artista de rádio e disco, apresentou o violão solo a um público amplo em uma era anterior à televisão, ajudando a transformar o instrumento em protagonista da cultura musical brasileira. O programa Sua Majestade, o Violão sintetiza a posição conquistada: durante muito tempo associado às serenatas, às rodas populares e aos acompanhamentos informais, o violão aparecia agora como protagonista de um programa nacional. Como professor e editor, ampliou as possibilidades de formação e circulação do repertório, e sua atividade docente formou intérpretes que se tornariam nomes centrais do violão brasileiro nas décadas seguintes.

O reconhecimento por pares foi explícito. Radamés Gnattali dedicou-lhe o Concerto nº 1 para Violão e Orquestra, e violonistas de gerações posteriores — Raphael Rabello, Marco Pereira, Paulo Bellinati, Turíbio Santos — retomaram suas composições em discos e apresentações, mantendo viva sua obra no repertório contemporâneo.

Dilermando pertence a uma linhagem formada por instrumentistas que não separavam rigidamente o choro, a seresta, o acompanhamento e a música de concerto. Sua história mostra como o violão conquistou espaço no rádio, no disco, no ensino e nos palcos sem abandonar sua ligação com as práticas populares. Mais do que um virtuose, foi um construtor de repertório: suas gravações preservaram obras de diferentes épocas, suas composições ampliaram a literatura do instrumento, e sua atuação ajudou a definir uma imagem duradoura do violão brasileiro — solista, acompanhador, popular, refinado e profundamente ligado à melodia.


Discografia Selecionada

  • Magoado / Noite de Lua, 1941. — Primeiro disco de Dilermando pela Columbia, com choro e valsa autorais.
  • Vê se te Agrada / Doutor Sabe Tudo, 1948–1949. — Gravações com acompanhamento de Meira.
  • Xodó da Baiana / Promessa, 1950–1951. — Disco com choro autoral e valsa.
  • Ausência, 1960. — Gravação da valsa homônima.
  • Dilermando Reis Interpreta Pixinguinha, 1972. — Álbum temático com obras como Carinhoso, Lamentos, Segura Ele, Chorei e Proezas de Solon.
  • Homenagem a Ernesto Nazareth, 1973. — Com Dino 7 Cordas, reúne Odeon, Brejeiro, Apanhei-te, Cavaquinho, Escorregando e outras obras do compositor.

Ao longo de sua carreira, Dilermando gravou dezenas de discos em 78 rotações e numerosos LPs, principalmente pela Continental, com repertório que combinava composições próprias, peças de outros violonistas brasileiros, canções populares e transcrições do repertório europeu.


Fontes

As seguintes fontes são relevantes para o estudo de Dilermando Reis e do contexto musical em que atuou:

  • Instituto Casa do Choro. Verbete biográfico, catálogo de obras e acervo de partituras de Dilermando Reis. — Documentação central sobre vida, obra e trajetória.
  • Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Verbete “Dilermando Reis”. — Verbete biográfico e discográfico de referência, com trajetória artística e discografia detalhada.
  • Instituto Moreira Salles. Discografia Brasileira, acervo iconográfico e Rádio Batuta. — Referência para os registros fonográficos e para o contexto do rádio e do disco no Brasil.

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