Choropedia
Déo Rian - Bandolinista e Compositor de Choro
Conheça a trajetória de Déo Rian, bandolinista e compositor de choro, sucessor de Jacob do Bandolim no Época de Ouro, com discografia e legado.

Introdução
Déo Rian (Déo Cesário Botelho, Rio de Janeiro, 26 de fevereiro de 1944) é bandolinista e compositor brasileiro, um dos principais nomes do bandolim ligado à tradição do choro nas décadas posteriores a Jacob do Bandolim e Luperce Miranda.
Criado em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, cresceu cercado por músicos e rodas familiares. Ainda jovem conheceu Jacob do Bandolim, de quem se tornou próximo, e mais tarde assumiu o posto de solista do conjunto Época de Ouro. Ao longo da carreira, dedicou parte importante de seu trabalho à interpretação e preservação do repertório de Jacob, sem deixar de construir uma discografia própria como intérprete e compositor.
Infância em Jacarepaguá
A música fazia parte da família de Déo Rian antes mesmo de seu nascimento. Bisavós e avós eram ligados ao choro e promoviam saraus em Jacarepaguá. Seu pai, Inácio, trabalhava na Central do Brasil e, nas horas livres, cantava e tocava pandeiro. Tios e outros parentes tocavam violão, cavaquinho e instrumentos de sopro.
Déo começou pelo cavaquinho, orientado por um tio. Ainda adolescente passou a frequentar rodas de choro da região, convivendo com músicos que mantinham viva uma tradição musical anterior à profissionalização do gênero nos grandes palcos.
Aos 15 anos passou para o bandolim. Teve orientação de Moacir Arouca e posteriormente estudou com Luperce Miranda, um dos grandes nomes do instrumento na primeira metade do século XX.
O encontro com Jacob do Bandolim
Em 26 de fevereiro de 1961, justamente no dia em que completava 17 anos, Déo Rian conheceu Jacob do Bandolim. Os dois moravam em Jacarepaguá e, nos anos seguintes, Déo passou a frequentar regularmente a casa do músico.
A relação não se estabeleceu como um curso formal. Jacob dava conselhos sobre técnica, repertório e detalhes do instrumento, e Déo acompanhava de perto os encontros e saraus promovidos em sua residência.
Ali teve contato com personagens como Dorival Caymmi, Radamés Gnattali, Almirante, Tia Amélia e Paulo Tapajós. O convívio também o aproximou ainda mais da obra de Pixinguinha, compositor especialmente admirado por Jacob.
Jacob aconselhava o jovem músico a não depender financeiramente do bandolim. Déo seguiu a recomendação: estudou Economia e exerceu a profissão paralelamente à carreira musical.
O início profissional e o primeiro disco
Déo Rian iniciou a carreira profissional em 1962, na Rádio Mauá, como integrante do Regional de Darly do Pandeiro. O grupo acompanhava cantores no programa Sambas e Outras Coisas.
No fim da década, foi ouvido em uma roda pelo compositor e contrabaixista Dalton Vogeler. O encontro abriu caminho para sua entrada na RCA Victor e para a adoção do nome artístico Déo Rian, sugerido por Vogeler.
Em 1970 lançou seu primeiro LP, Ernesto Nazareth, dedicado inteiramente à obra do compositor carioca. O disco apresentou Déo como solista e reuniu formações instrumentais diferentes em torno do repertório de Nazareth.
Nos anos seguintes participou de projetos ligados à retomada do choro no Rio de Janeiro. Em 1973 esteve no espetáculo Sarau, ao lado de Paulinho da Viola, Elton Medeiros e outros músicos.
O Época de Ouro
Depois da morte de Jacob do Bandolim, em agosto de 1969, o Época de Ouro interrompeu suas atividades. Quando o conjunto voltou a atuar, Déo Rian assumiu o bandolim solista.
Em 1974, o grupo lançou um novo álbum com Déo à frente, acompanhado por César Faria e Damásio nos violões, Dino Sete Cordas, Jonas Silva no cavaquinho e Jorginho do Pandeiro. O repertório incluía obras de Jacob, Villa-Lobos, Henrique Alves de Mesquita, Paulinho da Viola, Chico Buarque e outros compositores.
Em 1976 participou do LP Clube do Choro. No ano seguinte, o conjunto lançou Época de Ouro interpreta Pixinguinha e Benedito Lacerda, no qual Déo dividiu os solos com instrumentistas como Abel Ferreira, Carlos Poyares, Zé Bodega e Orlando Silveira.
Déo permaneceu no grupo até 1977.
Noites Cariocas e os inéditos de Jacob
Ao deixar o Época de Ouro, Déo Rian formou seu próprio regional, o Noites Cariocas.
Com o conjunto realizou um dos trabalhos mais diretamente ligados à preservação da obra de Jacob do Bandolim. Em 1980 lançou Inéditos de Jacob do Bandolim, reunindo composições que ainda não haviam recebido registros fonográficos comerciais.
Décadas depois, o projeto teve continuidade. Em 2007 saiu Inéditos de Jacob do Bandolim – Volume II, com novas peças encontradas em partituras manuscritas e registros preservados do compositor. O disco contou com arranjos e participações de músicos como Cristóvão Bastos, Maurício Carrilho, Luciana Rabello, Pedro Amorim, Marcelo Bernardes e Dirceu Leite.
A relação de Déo com a memória de Jacob também se estendeu ao trabalho institucional. Em 2011 foi eleito presidente do Instituto Jacob do Bandolim, entidade dedicada à preservação, organização e divulgação da obra e do acervo do músico.
Gravações e apresentações internacionais
A carreira de Déo Rian ultrapassou o circuito brasileiro do choro. Seu primeiro LP dedicado a Ernesto Nazareth foi lançado no Japão e, na década de 1990, o bandolinista realizou diferentes temporadas naquele país.
Em 1991 apresentou-se em cidades como Tóquio, Osaka, Kobe, Kyoto e Nagoya. Voltou ao Japão em 1992 e novamente em 1995, além de realizar apresentações em Santiago, no Chile, em 1994.
Em 1993 gravou com Raphael Rabello o álbum Delicatesse, encontro do bandolim com o violão de sete cordas em um repertório voltado à música de concerto.
Três anos depois, dividiu com o filho Bruno Rian o CD Choro em Família. Pai e filho também participaram da criação do Grupo Sarau, que durante anos manteve apresentações regulares no Rio de Janeiro com a participação de diferentes músicos ligados ao choro.
Compositor
Embora grande parte da trajetória de Déo Rian esteja ligada à interpretação de compositores históricos do choro, ele também desenvolveu obra própria.
Entre suas composições estão:
- Branquinha
- Bruno no Choro
- Choro Simples
- Chorões do Bandolim de Ouro
- Com Dor e Tudo
- Lembranças de um Violão
- O Pandeiro do Darly
- Pensando na Vida
- Querendo Bem
- Quando Me Lembro
- Memórias de um Bandolim
Em 2015, o álbum Déo Rian – 70 Anos, gravado com o Regional Imperial, deu especial espaço a esse lado de sua produção. O repertório reuniu diversas composições próprias e parcerias, ao lado de uma homenagem escrita para ele por Maurício Carrilho.
Os discos das últimas décadas
Em 2012, Déo lançou Alma Brasileira, dedicado principalmente à valsa brasileira e a compositores como Ernesto Nazareth, Jacob do Bandolim, Radamés Gnattali e Amador Pinho. Para parte das gravações utilizou um bandolim que havia pertencido a Jacob.
Em 2015 veio Déo Rian – 70 Anos, gravado com o Regional Imperial, formado por João Camarero, Júnior Pita, Lucas Arantes, Rafael Toledo, Marcus Thadeu e Edu Guimarães, e com participação do violonista Rafael Mallmith. O encontro colocou Déo ao lado de músicos de uma geração posterior do choro, com direção musical de Camarero.
Três anos depois lançou Memórias de um Bandolim, reunindo novamente composições próprias e peças de Jacob do Bandolim, Pixinguinha e Ernesto Nazareth.
Esses trabalhos prolongam uma trajetória iniciada nas rodas de Jacarepaguá nos anos 1950 e que atravessou o rádio, o Época de Ouro, os projetos de revitalização do choro nos anos 1970, as temporadas internacionais e diferentes gerações de instrumentistas.
Discografia selecionada
- Ernesto Nazareth — 1970
- Choros de Sempre — 1974
- Déo Rian Toca Roberto Carlos — 1975
- Saudades de um Bandolim — 1976
- Inéditos de Jacob do Bandolim — 1980
- Déo Rian — 1992
- Delicatesse, com Raphael Rabello — 1993
- Choro em Família, com Bruno Rian — 1996
- Inéditos de Jacob do Bandolim – Volume II — 2007
- Alma Brasileira — 2012
- Déo Rian – 70 Anos, com Regional Imperial — 2015
- Memórias de um Bandolim — 2018
Fontes
- Instituto Casa do Choro. Acervo de autores e catálogo de obras de Déo Rian.
- Instituto Moreira Salles. Rádio Batuta: Conjunto Época de Ouro; Conjunto Época de Ouro interpreta Pixinguinha e Benedito Lacerda; Vibrações – O som de Jacob do Bandolim.
- Instituto Moreira Salles. Acervo José Ramos Tinhorão, registros relacionados a Déo Rian e ao Época de Ouro.
- Discografia Brasileira. Um bandolim e boas histórias: memórias do choro nos 80 anos de Déo Rian.
- Discografia Brasileira. Registros fonográficos de Déo Rian.
- Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Verbete “Déo Rian”.
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