Choropedia
Cristovão Bastos: pianista e compositor brasileiro
Conheça a trajetória de Cristovão Bastos, pianista, compositor e arranjador, com carreira marcada pelo choro e parcerias com grandes nomes da MPB.
Foto: Marcos Trojan
Introdução
Cristovão da Silva Bastos Filho (Rio de Janeiro, 3 de dezembro de 1946) é pianista, compositor e arranjador brasileiro. Nascido no bairro de Marechal Hermes, construiu uma extensa trajetória na música popular e instrumental brasileira, atuando no choro, no samba, em discos, shows e trilhas sonoras.
É parceiro de compositores como Chico Buarque, Aldir Blanc, Paulinho da Viola, Paulo César Pinheiro, Elton Medeiros, Luciana Rabello e Abel Silva. Como arranjador, trabalhou com artistas como Nana Caymmi, Edu Lobo e Gal Costa, além de vários de seus parceiros.
Formação e primeiros anos
Cristovão começou a estudar teoria musical e acordeom ainda criança. Aos 13 anos já tocava em bailes e, aos 17, passou ao piano profissionalmente em uma boate de Cascadura, no subúrbio do Rio de Janeiro.
A mudança de instrumento aconteceu de maneira circunstancial. O pianista da casa deixou o trabalho e o proprietário perguntou a Cristovão se ele sabia tocar piano. Embora tivesse pouca experiência no instrumento, aceitou o posto e passou a desenvolver sua técnica na prática, ao mesmo tempo em que aprofundava os estudos.
Também começou cedo a escrever arranjos. Quando tocava em uma banda de baile, fez um arranjo que chamou a atenção do saxofonista e arranjador Aristides Santos, responsável pelo conjunto. A partir dali, passou a assumir essa função com frequência.
Paulinho da Viola e o choro
A relação com Paulinho da Viola ocupa um lugar importante na trajetória de Cristovão. Em 1976, participou ao piano de Memórias Chorando, disco de Paulinho inteiramente dedicado ao choro. Na faixa Choro de Memórias, por exemplo, aparece ao lado de Paulinho no cavaquinho, César Faria no violão, Dininho no baixo e outros músicos.
Os dois também se tornaram parceiros de composição. Entre as obras que escreveram juntos estão Acreditei nos Beijos Dela, Meu Tempo de Garoto, Não Me Digas Não e Um Choro pro Waldir.
Cristovão manteve ao longo da carreira uma produção instrumental diretamente ligada ao gênero. O catálogo da Casa do Choro registra, entre suas obras, choros, valsas, maxixes, schottisches e choros-canção, incluindo títulos como Choro Saudoso, Choro dos Mestres, Chupando Manga, Flor de Jacarandá e Acreditei nos Beijos Dela.
Banda Black Rio
Na década de 1970, Cristovão integrou a primeira formação da Banda Black Rio, ao lado de Oberdan Magalhães, Barrosinho, Lúcio Trombone, Cláudio Stevenson, Jamil Joanes e Luiz Carlos Batera.
Participou do primeiro álbum do grupo, Maria Fumaça, lançado em 1977. Com Cláudio Stevenson, compôs Metalúrgica, uma das faixas do disco.
Cristovão contou posteriormente que o repertório daquele período era desenvolvido coletivamente durante longos ensaios e que o primeiro disco foi preparado sem que os músicos utilizassem partituras. Segundo ele, todos opinavam sobre os diferentes instrumentos e participavam da construção dos arranjos.
Compositor e parceiro
A obra de Cristovão inclui tanto música instrumental quanto canções escritas com alguns dos principais letristas e compositores brasileiros.
Com Chico Buarque, compôs Todo o Sentimento e Tua Cantiga. A primeira parceria surgiu depois que Cristovão mostrou a melodia a Miúcha, que a encaminhou ao irmão. Anos depois, também foi por intermédio dela que Tua Cantiga chegou a Chico.
Com Aldir Blanc manteve uma parceria extensa, da qual nasceram canções como Resposta ao Tempo, Suave Veneno, Cinquenta Anos e Dasdô e o Gato. Resposta ao Tempo e Suave Veneno ganharam gravações de Nana Caymmi e foram utilizadas em produções da televisão brasileira.
Entre outros parceiros aparecem Paulo César Pinheiro, Abel Silva, Hermínio Bello de Carvalho, Jorginho do Pandeiro, Maurício Carrilho, João Lyra e Luciana Rabello.
O arranjador
Cristovão desenvolveu paralelamente uma extensa carreira como arranjador de discos e espetáculos. Assinou trabalhos para artistas como Paulinho da Viola, Chico Buarque, Nana Caymmi, Edu Lobo, Gal Costa, Elza Soares, Emílio Santiago, Fafá de Belém e Ângela Maria.
Ao explicar seu processo de trabalho, Cristovão afirma que o arranjo costuma partir de uma conversa com o artista e o produtor, na qual se define o caminho da música. O trabalho pode envolver alterações de harmonia, melodia, ritmo e instrumentação.
Cristovão também estudou violão por conta própria e teve contato com flauta e trompete, embora tenha se dedicado profissionalmente ao piano. Ao falar especificamente sobre arranjos de samba, afirma que muitas vezes prefere partir do violão por causa da cadência, utilizando o piano como complemento.
O piano no choro
A presença do piano em grupos de choro foi um dos aspectos da atuação de Cristovão estudados academicamente a partir de suas próprias gravações e depoimentos.
Ao falar sobre a entrada do piano em um regional que já possui melodia, cavaquinho, violões e percussão, Cristovão recorreu à imagem de uma pintura: “Você não pode entrar num quadro e sujar a cor do pintor”. Para ele, o instrumento deve entrar para contribuir com o conjunto, e não encobrir o que os demais músicos estão fazendo.
A observação coincide com outra afirmação do pianista sobre seus arranjos de samba: “gosto de usar o piano como complemento”.
Avenida Brasil
Em 1996, Cristovão lançou Avenida Brasil, seu primeiro disco solo. Produzido por Almir Chediak, o álbum reúne composições próprias e obras de autores ligados à sua trajetória.
Entre as faixas estão Os Três Chorões, Avenida Brasil, Mandacaru – Sertão de Caicó, Rumo Zona Oeste e Um Choro pro Waldir, além de Tudo se Transformou, de Paulinho da Viola, Pianinho, de Edu Lobo e Aldir Blanc, Mistura e Manda, de Nelson Alves, e Todo o Sentimento, parceria de Cristovão com Chico Buarque.
O disco contou com músicos como Luciana Rabello, Maurício Carrilho, João Lyra, Marco Pereira, Jorginho do Pandeiro, Mauro Senise e Zé Nogueira. Os arranjos foram assinados por Cristovão.
Encontros instrumentais
Antes mesmo de seu primeiro disco solo, Cristovão gravou com o violonista Marco Pereira o álbum Bons Encontros, lançado em 1992 e dedicado a composições de Ary Barroso e Noel Rosa. O trabalho recebeu o Prêmio Sharp de melhor disco instrumental.
Em 2002, gravou Domingo na Geral com o grupo Nó em Pingo d'Água. Em 2008 lançou Curtindo a Gafieira.
Em 2020, uniu-se ao violonista de sete cordas Rogério Caetano em um álbum em duo. O repertório inclui Acreditei nos Beijos Dela, Polca do Jequitibá, Choro Saudoso e Choro pro Waldir, além de composições de Rogério Caetano e Eduardo Neves. O disco foi indicado ao Grammy Latino de Melhor Álbum Instrumental em 2021.
Cristovão voltou ao formato de duo com o violonista João Lyra em Varandão, trabalho formado por choros autorais dos dois músicos.
Com Mauro Senise, gravou Choro Negro, dedicado à obra de Paulinho da Viola. O álbum recebeu indicação ao Grammy Latino de Melhor Álbum Instrumental em 2023.
Obras importantes
- Acreditei nos Beijos Dela, com Paulinho da Viola
- Choro Saudoso
- Choro dos Mestres
- Um Choro pro Waldir, com Paulinho da Viola
- Os Três Chorões
- Avenida Brasil
- Pitangueira, com Luciana Rabello
- Polca do Jequitibá, com Maurício Carrilho
- Todo o Sentimento, com Chico Buarque
- Tua Cantiga, com Chico Buarque
- Resposta ao Tempo, com Aldir Blanc
- Suave Veneno, com Aldir Blanc
Discografia selecionada
- Bons Encontros, com Marco Pereira — 1992
- Antônio Carlos Jobim – Letra & Música, com Leny Andrade — 1995
- Avenida Brasil — 1996
- Domingo na Geral, com Nó em Pingo d'Água — 2002
- Curtindo a Gafieira — 2008
- Cristovão Bastos e Rogério Caetano, com Rogério Caetano — 2020
- Varandão, com João Lyra — 2022
- Choro Negro, com Mauro Senise — 2022
- Amizade, com Áurea Martins — 2025
Fontes
- Instituto Casa do Choro. Acervo de autores e catálogo de partituras de Cristovão Bastos.
- Instituto Moreira Salles / Rádio Batuta. Cristovão Bastos e Rogério Caetano; Paulinho da Viola no choro.
- OLIVEIRA, Luísa Camargo Mitre de. Uma Roda de Choro no piano: práticas idiomáticas de performance a partir de gravações dos pianistas Cristóvão Bastos e Laércio de Freitas. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Minas Gerais, 2017.
- OLIVEIRA, Luísa Camargo Mitre de. “O piano no grupo de choro: outras possibilidades”. Música Popular em Revista, Unicamp.
- Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Verbete “Cristovão Bastos”.
- Discografia Brasileira. Registros fonográficos e fichas técnicas de Cristovão Bastos.
- Sesc São Paulo. “Sons em harmonia”. Entrevista com Cristovão Bastos, 2017.
- Jornal do Brasil. “Glorioso Cristovão”, 2018.
- Latin Recording Academy. Indicações de Melhor Álbum Instrumental, 2021 e 2023.
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