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Canhoto do Cavaquinho: o mestre do acompanhamento no choro

Conheça a trajetória de Waldiro Frederico Tramontano, o Canhoto do Cavaquinho, e sua importância na consolidação do cavaco-centro ao lado de Dino e Meira.

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Waldiro Frederico Tramontano, conhecido como Canhoto do Cavaquinho (Rio de Janeiro, 9 de agosto de 1908 – 24 de novembro de 1987), foi um dos principais cavaquinistas de acompanhamento da música popular brasileira e uma referência decisiva para a consolidação do chamado cavaco-centro.

Sua carreira atravessou a formação dos grandes conjuntos regionais, a Era do Rádio e décadas de gravações da música brasileira. Ao lado de Dino e Meira, formou um trio de acompanhamento que se tornou modelo para gerações de músicos e ajudou a estabelecer uma maneira de organizar a base rítmica e harmônica do choro.


O Cavaquinho Desde a Infância

Canhoto perdeu o pai aos sete anos e, como o mais velho de seis irmãos, começou cedo a ajudar no sustento da família, trabalhando como apanhador de bolas em campos de golfe e fazendo entregas de pão.

O cavaquinho, porém, já fazia parte de sua vida. O instrumento havia sido dado pelo pai, e as reuniões musicais que aconteciam em sua casa despertaram seu interesse quando ainda era menino. Em depoimento dado décadas depois, Canhoto contou que tinha oito anos quando começou a aprender e que "Flor do Abacate", de Álvaro Sandim, foi o primeiro choro que se lembrava de ter acompanhado.

Como era canhoto, começou invertendo as cordas do instrumento. Depois de já conhecer as posições, recebeu um conselho de um violonista conhecido como Seu Oscar: seria melhor aprender usando a disposição normal das cordas, para que pudesse tocar em qualquer cavaquinho.

Canhoto então teve que aprender tudo novamente. Passou a segurar o instrumento como canhoto, mas mantendo a ordem de cordas usada pelos instrumentistas destros, característica que conservaria durante toda a carreira.


Do Amador ao Músico Profissional

No fim da década de 1920, Canhoto trabalhava no serviço de saúde pública do Rio de Janeiro. Foi nesse período que ampliou sua convivência com rodas e músicos da cidade.

Em uma dessas reuniões conheceu Russo do Pandeiro, que tocava com Benedito Lacerda. Segundo o próprio Canhoto, foi Russo quem o convidou para entrar no conjunto do flautista, passagem que ele considerava decisiva para sua profissionalização.

Canhoto ingressou no Gente do Morro, conjunto liderado por Benedito Lacerda, entre 1931 e 1932. Em 1934, depois de uma excursão, o grupo passou a adotar o nome de Conjunto Regional de Benedito Lacerda.

O momento coincidia com a expansão do rádio brasileiro. Os regionais tornavam-se indispensáveis nas emissoras, acompanhando cantores, solistas, programas musicais e transmissões ao vivo. Para músicos como Canhoto, essa transformação abriu a possibilidade de fazer do choro uma profissão permanente.


Dino, Meira e Canhoto

Em 1937 ocorreram duas mudanças fundamentais na formação do Regional de Benedito Lacerda: chegaram os violonistas Horondino José da Silva, Dino, posteriormente consagrado como Dino Sete Cordas, e Jayme Thomás Florence, Meira.

Nascia a parceria Dino, Meira e Canhoto.

Os três trabalhariam juntos por aproximadamente quatro décadas. Em depoimento de 1978, Canhoto lembrava que haviam começado solteiros, envelhecido juntos e, em todo aquele período, nunca haviam tido uma briga ou discussão séria.

O entrosamento tinha uma consequência musical muito concreta. Meira oferecia uma condução harmônica e rítmica firme no violão de seis cordas. Canhoto estabelecia o centro rítmico-harmônico no cavaquinho. Com essa estrutura funcionando com precisão, Dino ganhava liberdade para desenvolver seus contracantos e baixarias.

Um músico que estudou posteriormente o funcionamento dessa formação chegou a observar que Dino e Meira "pareciam uma única pessoa".


O Que É o Cavaco-Centro?

Nos primeiros conjuntos de choro, o cavaquinho ocupava uma posição intermediária entre a melodia e os baixos do violão. Sua função era fornecer acordes e, ao mesmo tempo, ajudar a manter a pulsação.

Daí a ideia de centro: o instrumento funciona como uma ligação entre ritmo e harmonia.

Nas primeiras formações essa responsabilidade rítmica podia ser bastante constante. Com a incorporação do pandeiro e de outros instrumentos de percussão aos conjuntos, especialmente durante as transformações das décadas de 1920 e 1930, o cavaquinho ganhou mais liberdade para variar seus padrões e dialogar com os demais integrantes da base.

Foi nessa função que Canhoto se tornou uma referência.

Seu cavaquinho não procurava ocupar todos os espaços. Ao contrário, trabalhava em estreita relação com os violões e com a percussão, sustentando o conjunto e escolhendo os momentos em que poderia interferir ritmicamente.


A Linguagem de Canhoto

Uma das características identificadas nas gravações de Canhoto é a chamada palhetada alternada.

No movimento da palheta, o retorno das cordas agudas para as graves poderia funcionar apenas como movimento de preparação. Canhoto frequentemente transformava esse retorno em uma articulação efetiva, incorporando-o ao desenho rítmico.

A recorrência desse gesto produzia um sotaque suficientemente característico para ajudar pesquisadores a reconhecer sua presença mesmo em gravações cuja ficha técnica não identifica os músicos. A técnica pode ser ouvida com clareza, por exemplo, em seu acompanhamento de "Doce de Coco".

Mas seu estilo não se restringia a uma levada. Canhoto adaptava a palhetada a choros, sambas, maxixes, polcas, baiões e outros gêneros, utilizando também contratempos, pequenos contrapontos e intervenções com duas notas.

Harmonicamente, sua linguagem privilegiava clareza. As análises de suas gravações identificam uma forte presença de tríades e um uso relativamente econômico de acordes mais dissonantes. Essa simplicidade não significava pobreza harmônica. Dentro do regional, ajudava a produzir uma base sólida sobre a qual os violões podiam desenvolver conduções e contrapontos com maior liberdade.


O Regional do Canhoto

Com a saída de Benedito Lacerda, no início da década de 1950, o conjunto passou para a liderança de Canhoto.

Em 16 de março de 1951, o Regional do Canhoto estreou na Rádio Mayrink Veiga. A formação que se tornaria mais conhecida reuniu Canhoto no cavaquinho, Dino e Meira nos violões, Altamiro Carrilho na flauta, Orlando Silveira no acordeom e Gilson de Freitas no pandeiro, posteriormente substituído por Jorginho do Pandeiro.

No mês seguinte, o grupo realizou sua primeira gravação própria, com "Gracioso" e "Meu Limão, Meu Limoeiro", esta última com arranjo de Canhoto.

Durante os anos seguintes, o regional tornou-se um dos grandes conjuntos de acompanhamento da música brasileira. Além de sua própria discografia, seus integrantes aparecem em centenas de gravações de cantores e instrumentistas.

Com o fechamento da Rádio Mayrink Veiga, em 1965, terminou o vínculo permanente do conjunto com a emissora, mas Canhoto continuou participando de gravações e apresentações nas décadas seguintes.


De Jacob e Pixinguinha a Cartola

A trajetória de Canhoto atravessou diferentes gerações da música popular brasileira. Seu cavaquinho pode ser ouvido ao lado de alguns dos principais cantores e instrumentistas do século XX.

O Regional do Canhoto participou de gravações com nomes como Jacob do Bandolim, Pixinguinha, Altamiro Carrilho e Luiz Gonzaga, além de acompanhar numerosos intérpretes ligados ao rádio. Sua extensa discografia documentada inclui centenas de participações.

Na década de 1970, Dino, Meira e Canhoto voltaram a formar aquela base histórica em gravações de Cartola. No primeiro álbum do sambista, lançado em 1974, os três aparecem juntos em diversas faixas, inclusive "Amor Proibido", acompanhados pelo pandeiro de Gilberto D'Ávila.

A presença do trio tantos anos depois mostra a longevidade de uma formação criada ainda na década de 1930.


Compositor

Embora tenha construído sua reputação principalmente como acompanhador, Canhoto também deixou algumas composições.

Entre elas estão "Canhotinho", "Gingando", "Visitando", "Lenço Branco" e "Teco-Teco", algumas em parceria com músicos de seu círculo, como Dino, Meira e Orlando Silveira.

O catálogo da Casa do Choro preserva partituras de "Canhotinho" e "Gingando".


Legado

Em 1977, quarenta anos depois do encontro de Dino, Meira e Canhoto, os músicos foram reunidos novamente para uma homenagem no espetáculo O Fino da Música.

Ao apresentar o trio ao público, Altamiro Carrilho lembrou a quantidade de cantores, solistas e gravações que haviam sustentado ao longo de décadas e os definiu como "sustentáculos da música popular brasileira".

A expressão resume bem a trajetória de Canhoto.

Sua importância não veio da busca pelo protagonismo do cavaquinho, mas da transformação do acompanhamento em uma especialidade. Em sua maneira de tocar, ritmo e harmonia se encontravam no centro do regional. O resultado tornou-se uma escola e ajudou a estabelecer uma linguagem de cavaquinho que continua presente no choro brasileiro.


Fontes

  • Instituto Casa do Choro — Acervo, verbete Canhoto do Cavaquinho e catálogo de obras, com partituras de "Canhotinho" e "Gingando". Disponível em: casadochoro.com.br
  • Instituto Moreira Salles — Acervo José Ramos Tinhorão e especial "O Regional do Canhoto", Rádio Batuta. Disponível em: ims.com.br
  • RIBEIRO, Jamerson Farias. O cavaco rítmico-harmônico na música de Waldiro Frederico Tramontano (Canhoto): a construção estilística de um "cavaco-centro" no choro. Dissertação de Mestrado, Escola de Música da UFRJ, 2014. — Fonte central, com depoimento do próprio Canhoto, entrevistas com músicos e documentos do acervo da família Tramontano.
  • RIBEIRO, Jamerson Farias. "A construção estilística do cavaquinho e os processos de transmissão musical no choro: a relação Álvares-Galdino-Canhoto". Música Popular em Revista, v. 6, n. 1, 2019.
  • Memória do Cavaquinho Brasileiro — Verbete Waldiro Frederico Tramontano (Canhoto).
  • Discografia Brasileira — Registros fonográficos e participações de Canhoto.

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