Choropedia
Canhoto da Paraíba: violonista e compositor do choro
Conheça a vida e obra de Canhoto da Paraíba, violonista que tocava o violão pelo avesso, figura singular do choro e da música nordestina.

Introdução
Francisco Soares de Araújo, conhecido artisticamente como Canhoto da Paraíba ou Chico Soares, foi um violonista e compositor brasileiro ligado principalmente ao choro e à música instrumental nordestina. Nascido em Princesa Isabel, no sertão da Paraíba, e radicado por grande parte da vida em Pernambuco, tornou-se uma das figuras mais singulares do violão brasileiro, tanto por sua técnica incomum quanto pela força melódica de suas composições.
Formação e Primeiros Contatos com a Música
Canhoto nasceu em uma família musical. Seu avô, Joaquim Soares, era clarinetista, e seu pai, Antônio Soares, tocava violão. A casa familiar era frequentada por músicos e marcada por saraus, serestas e repertórios instrumentais que fizeram parte de sua formação auditiva desde a infância. Entre as referências de seu ambiente musical aparecem nomes locais como o acordeonista Zé Costa, o saxofonista Manuel Marrocos (ou Manoel Marra), os violonistas Zé Micas e Luís Dantas, além do maestro Joaquim Leandro, regente da banda de Princesa Isabel.
Antes de se firmar no violão, Canhoto teve contato com a música também por meio da igreja. Como sacristão, era responsável por tocar os sinos, e conta-se que teria executado o frevo "Vassourinhas" nos sinos da igreja. Esse detalhe não deve ser lido apenas como curiosidade biográfica: ele aponta para uma musicalidade construída fora do ensino formal, a partir da escuta, da memória, da prática comunitária e da invenção corporal.
A Técnica "Pelo Avesso"
A característica mais célebre de Canhoto da Paraíba foi sua maneira de tocar o violão. Por ser canhoto e precisar compartilhar o instrumento com familiares destros, ele passou a tocar o violão invertido, mas sem inverter a ordem das cordas. Assim, desenvolveu uma técnica própria, em que a disposição tradicional do instrumento era mantida, mas o corpo, as mãos e a lógica dos movimentos eram reorganizados. Aos 16 anos, quando ganhou seu próprio violão, já havia consolidado essa forma de tocar "ao contrário", permanecendo autodidata nessa técnica.
Esse modo de tocar não foi apenas uma excentricidade visual. Ele interferiu diretamente na sonoridade, na digitação dos acordes, nos caminhos melódicos e na maneira como Canhoto organizava frases, baixos e acompanhamentos. A expressão "violão tocado pelo avesso" também aparece associada a um de seus discos mais importantes.
Rádio, Regionais e Vida Profissional
A carreira artística de Canhoto ganhou maior circulação a partir de sua relação com o rádio. Ainda jovem, esteve no Recife para tentar espaço na Rádio Clube. Mais tarde, em 1953, mudou-se para João Pessoa, onde assinou contrato com a Rádio Tabajara, atuou por cerca de cinco anos, formou seu primeiro regional e acompanhou músicos locais e artistas em excursão pelo Nordeste.
Em 1958, mudou-se para Recife, onde passou a trabalhar na Rádio Jornal do Comércio e se tornou presença frequente no programa "Quando os violões se encontram". Como muitos músicos de choro de sua geração, não viveu exclusivamente da música: trabalhou também como assistente social no Sesi de Pernambuco, conciliando emprego formal, rádio, rodas, gravações e apresentações.
Encontro com o Choro Carioca
Em 1959, incentivado por admiradores como o bandolinista Rossini Ferreira, Canhoto viajou ao Rio de Janeiro. Lá, hospedou-se por cerca de duas semanas na casa de Jacob do Bandolim e conviveu com nomes centrais da música brasileira, como Pixinguinha, Radamés Gnattali, Dilermando Reis, Tia Amélia e o jovem Paulinho da Viola. Esse encontro ajudou a projetar seu nome para além do Nordeste e consolidou sua reputação entre músicos de alto prestígio.
Uma das histórias mais repetidas sobre esse período envolve Radamés Gnattali, que teria reagido com entusiasmo à execução de Canhoto, atirando um copo para cima e deixando uma marca no teto da casa de Jacob. Como muitas narrativas da tradição oral do choro, o episódio circula entre a memória afetiva e a anedota lendária; ainda assim, sua permanência revela a impressão que a maneira de tocar de Canhoto produziu entre seus pares.
Obra e Linguagem Musical
A obra de Canhoto da Paraíba é formada principalmente por choros, valsas e peças instrumentais de forte caráter melódico. Sua escrita combina procedimentos do choro com inflexões rítmicas e temáticas ligadas ao Nordeste, incluindo referências a baião, xote, xaxado, frevo e outros ritmos regionais. O resultado é uma linguagem em que o violão chorão se abre para uma geografia mais ampla da música brasileira, sem abandonar a sofisticação harmônica e contrapontística do gênero.
Entre suas composições mais conhecidas estão "Com Mais de Mil", "Tua Imagem", "Visitando o Recife", "Lembrança que Ficou", "Pisando em Brasa", "Tá Quentinho", "Reencontro com Paulinho", "Valsa a Tozinho", "19 de Março" e "Choro na Madrugada".
Discografia Selecionada
| Título | Ano | Observações |
|---|---|---|
| Único Amor | 1968 | Gravadora Rozenblit (Pernambuco). Primeiro disco. Com Henrique Annes. |
| Um Violão Direito nas Mãos do Canhoto | 1974 | Gravadora Rozenblit. |
| O Violão Brasileiro Tocado pelo Avesso | 1977 | Selo Marcus Pereira. Também conhecido como Com Mais de Mil. Disco de consagração nacional. |
| Fantasia Nordestina: Violão Brasileiro Tocado pelo Avesso | 1990 | |
| Pisando em Brasa | 1993 | Com participações de Paulinho da Viola e Raphael Rabello. |
| Instrumental no CCBB: Canhoto da Paraíba e Zimbo Trio | 1993 |
Paulinho da Viola e a Redescoberta do Choro
A relação com Paulinho da Viola é central para compreender a recepção de Canhoto. Em 1971, Paulinho dedicou a ele o choro "Abraçando Chico Soares". Mais tarde, teve papel importante na circulação de sua obra, inclusive no contexto do disco lançado pelo selo Marcus Pereira em 1977 e em excursões pelo Projeto Pixinguinha.
Apesar de respeitado por músicos como Pixinguinha e Jacob do Bandolim, Canhoto permaneceu relativamente isolado em Recife e só conseguiu gravar um LP de maior projeção em 1977, por insistência de Paulinho da Viola junto a Marcus Pereira. Esse percurso situa Canhoto no contexto mais amplo da chamada retomada do choro nos anos 1970.
Obras Selecionadas
| Título | Gênero |
|---|---|
| Com Mais de Mil | Choro |
| Tua Imagem | Choro |
| Visitando o Recife | Choro |
| Lembrança que Ficou | Choro |
| Pisando em Brasa | Choro |
| Tá Quentinho | Choro |
| Reencontro com Paulinho | Choro |
| Valsa a Tozinho | Valsa |
| 19 de Março | Choro |
| Choro na Madrugada | Choro |
| Lourdinha | Choro |
| Glória do Relâmpago | Choro |
| Ilha de Santo Aleixo | Choro |
| Memórias de Sebastião Malta | Choro |
Legado
Em 1998, Canhoto sofreu uma isquemia cerebral que paralisou parte do corpo e o impediu de continuar tocando. Nos anos finais, recebeu homenagens e reconhecimentos institucionais. Em 2005, foi reconhecido como Patrimônio Vivo de Pernambuco. Na Paraíba, seu nome passou a designar a Lei Canhoto da Paraíba – REMA, instituída pela Lei nº 7.694 de dezembro de 2004, voltada ao reconhecimento, proteção e valorização de mestres e mestras das culturas tradicionais do estado, por meio do Registro no Livro de Mestre das Artes. Assim, o nome de Canhoto ultrapassou a biografia individual e tornou-se também símbolo de política pública para a memória cultural paraibana.
Canhoto da Paraíba faleceu em 24 de abril de 2008, na região metropolitana do Recife. Seu legado permanece nas gravações, nas releituras de violonistas e grupos de choro, nas homenagens institucionais e no lugar singular que ocupa na história do violão brasileiro.
Importância Histórica
Canhoto da Paraíba ocupa um ponto raro na história do choro: é ao mesmo tempo um compositor de grande refinamento melódico, um violonista de técnica absolutamente própria e um elo entre a tradição chorística carioca e a experiência musical nordestina. Sua obra mostra que o choro brasileiro não se desenvolveu apenas nos grandes centros do Sudeste, mas também em redes de rádio, saraus, regionais, clubes, cidades interioranas e circuitos musicais menos documentados.
Seu violão "pelo avesso" não deve ser entendido apenas como curiosidade biográfica. Ele representa uma pedagogia da invenção: diante de um instrumento pensado para outro corpo, Canhoto criou uma técnica própria e, com ela, uma assinatura sonora. Poucos artistas transformaram uma limitação material em linguagem com tanta consequência musical.
Fontes
- Instituto Casa do Choro — Verbete biográfico, trajetória musical, técnica instrumental, passagem pela Rádio Tabajara, encontro com Jacob do Bandolim e lista de obras centrais. Disponível em: casadochoro.com.br
- Instituto Moreira Salles / Artepensamento — Contextualização de Canhoto na retomada do choro nos anos 1970 e sua relação com Paulinho da Viola e Marcus Pereira. Disponível em: ims.com.br
- Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — Dados biográficos, carreira artística, discografia e obras. Disponível em: dicionariompb.com.br
- Fundação Joaquim Nabuco — Dados biográficos, reconhecimento institucional, discografia e últimos anos.
- A União — Matéria "Avesso do avesso" (19 de março de 2026), sobre a discussão recente acerca da data de nascimento e o centenário.
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