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Bonfiglio de Oliveira: trompete e choro

Trompetista e compositor, Bonfiglio de Oliveira foi figura central no choro carioca, com obras como "Flamengo" e parcerias com Pixinguinha.

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Introdução

Bonfiglio de Oliveira (Guaratinguetá-SP, 27 de setembro de 1894 — Rio de Janeiro, 16 de maio de 1940) foi trompetista, contrabaixista e compositor, figura importante da música popular brasileira nas primeiras décadas do século XX. Natural de Guaratinguetá, em São Paulo, construiu uma trajetória ligada às bandas de música, aos cinemas, aos teatros, ao rádio, às gravações em 78 rpm e aos grupos que ajudaram a formar a sonoridade do choro urbano no Rio de Janeiro.

Também aparece nas fontes com grafias variadas, como Bonfíglio de Oliveira e Bomfiglio de Oliveira.


Formação Musical

Bonfiglio iniciou seus estudos musicais em Guaratinguetá. Seu pai era contrabaixista da Banda Mafra e lhe transmitiu os primeiros conhecimentos. Antes de se firmar no trompete, Bonfiglio também tocou bumbo e atuou em bandas locais. Mais tarde, estudou trompete com o maestro Acosta e passou a integrar a Banda Mafra como trompetista.

A formação em bandas é um dado importante para compreender sua trajetória. No início do século XX, muitos músicos ligados ao choro passaram por bandas civis, escolares, militares ou religiosas. Esses espaços ofereciam leitura musical, prática de conjunto, domínio técnico do instrumento e contato com repertórios de dança, dobrados, valsas, polcas, maxixes e outros gêneros que circulavam entre o ambiente popular e o repertório escrito.

Ainda jovem, Bonfiglio também integrou a Banda do Colégio São José, onde recebeu noções de regência e composição. Sua primeira composição teria sido o dobrado "Pe. Frederico Gióia", homenagem ao sacerdote salesiano que lhe ensinou elementos de regência e composição. Depois, passou por Lorena e Piquete, onde organizou uma banda que se apresentava em cidades do Vale do Paraíba.


Chegada ao Rio de Janeiro

Por volta de 1912, Bonfiglio foi convidado pelo maestro e violinista Lafaiete Silva, irmão do flautista Patápio Silva, a transferir-se para o Rio de Janeiro. Na capital federal, passou a integrar a orquestra do Cinema Ouvidor, dirigida pelo próprio Lafaiete, espaço onde também atuava Pixinguinha.

Ao chegar ao Rio, Bonfiglio foi morar na Pensão Viana, casa da família de Pixinguinha, conhecida por acolher músicos e funcionar como ponto de encontro de instrumentistas. Essa convivência o colocou em contato direto com um dos núcleos mais importantes da música popular carioca do período.

No Rio de Janeiro, Bonfiglio atuou intensamente como trompetista e contrabaixista em orquestras de cinemas e teatros. Há registro também de sua passagem pelo Conservatório Musical do Rio de Janeiro e pela Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro, então dirigida por Francisco Braga.


O Choro Carioca e as Primeiras Gravações

Bonfiglio integrou o Choro Carioca, conjunto associado às primeiras gravações de Pixinguinha. A formação reunia Pixinguinha no flautim, Irineu de Almeida no oficleide e bombardino, Bonfiglio de Oliveira no trompete, Léo e Otávio Viana nos violões e Henrique Viana no cavaquinho.

Essa participação é fundamental para entender seu lugar na história do choro. Bonfiglio não foi apenas um músico próximo a Pixinguinha; ele esteve dentro de formações que ajudaram a registrar em disco uma linguagem ainda em consolidação. No Choro Carioca, o trompete de Bonfiglio dialogava com flautim, oficleide, bombardino, violões e cavaquinho, em uma sonoridade que ainda guardava forte relação com as bandas, mas já apontava para o choro como prática urbana, instrumental e fonográfica.

Convém tratar com cuidado expressões como "improviso" nesse contexto. Nas gravações antigas de choro, a variação aparece muitas vezes como ornamentação, alteração rítmica, contracanto, inflexão ou pequena modificação melódica, e não necessariamente como improvisação livre no sentido jazzístico posterior. A gravação de "Flamengo" por Bonfiglio apresenta improvisações de caráter sobretudo ornamental, com uso de mordentes e apojaturas sem alterar profundamente o desenho melódico.


O Trompete no Choro

Bonfiglio ocupa posição especial na história do choro por ter sido uma das principais referências do trompete, ou pistom, dentro da música popular brasileira. Foi um dos maiores instrumentistas de seu tempo, ao lado de Pixinguinha e Luís Americano.

Sua importância não está apenas na técnica instrumental. Bonfiglio representa uma geração de músicos que transitava entre a banda, o teatro, o cinema, o rádio, o disco e o carnaval. Seu trompete aparece em um momento em que os instrumentos de sopro tinham forte presença na música popular urbana, antes de a imagem do choro se fixar de modo mais estreito em torno de flauta, bandolim, cavaquinho e violões.

Em 1930, Bonfiglio recebeu do presidente Washington Luís um pistom de prata com inscrição que o chamava de "maior pistonista do Brasil". O episódio reflete o reconhecimento público de sua atuação instrumental.


Os Batutas, Jazz Bands e Modernização Sonora

A trajetória de Bonfiglio também passa pelas transformações instrumentais dos Batutas. Após a viagem dos Oito Batutas a Paris, em 1922, algumas formações ligadas ao grupo incorporaram instrumentos associados ao modelo das jazz bands, como saxofone, trompete, trombone e bateria. Uma configuração da Jazz Band Os Batutas reunia Pixinguinha e Paraíso nos saxofones, Esmerino Cardoso no trombone, Euclides Virgulino na bateria e Sebastião Cirino e Bonfiglio de Oliveira nos trompetes.

Esse dado deve ser lido com atenção histórica. A presença do termo "jazz band" no Brasil dos anos 1920 não significava, necessariamente, prática jazzística nos moldes norte-americanos. Muitas vezes indicava uma instrumentação moderna, associada a saxofones, metais, bateria e repertórios urbanos de dança. Naquele contexto, a influência jazzística se restringia em grande parte à instrumentação e ao formato dos conjuntos.

Bonfiglio, portanto, está situado em uma zona de transição: vinha da formação em bandas, atuava no choro e nas orquestras de teatro, mas também participou de formações que buscavam uma sonoridade moderna para a música popular brasileira. Seu trompete atravessou esse corredor histórico com naturalidade.


Atuação no Carnaval, no Rádio e nos Teatros

Bonfiglio teve participação ativa nos carnavais cariocas. Esteve presente no Grupo do Caxangá, em 1917, e atuou como diretor de harmonia do rancho Ameno Resedá, em 1919. Na década de 1930, integrou o Grupo da Guarda Velha e a orquestra Diabos do Céu.

Essas informações mostram que sua carreira não pertence apenas à história do choro instrumental. Bonfiglio atuou em um ambiente onde choro, samba, marcha, maxixe, valsa, rancho carnavalesco, teatro de revista, rádio e disco se cruzavam constantemente. Essa circulação era típica dos músicos profissionais do período: o mesmo instrumentista podia tocar em cinema mudo, acompanhar cantores, integrar orquestras, gravar choros, escrever marchas carnavalescas e participar de grupos regionais.

Durante a década de 1930, Bonfiglio atuou no Programa Casé, da Rádio Philips, como solista e integrante de orquestra. Também passou por companhias teatrais, como a Companhia Arruda e a Companhia Jardel Jércolis, com a qual se apresentou em Portugal, Espanha e França.


Bonfiglio Compositor

Embora seja lembrado sobretudo como trompetista, Bonfiglio deixou um catálogo expressivo como compositor. São 33 obras atribuídas a ele, incluindo choros, valsas, tangos, marchas, sambas, polcas e maxixes. Entre os títulos estão "Flamengo", "Amor não se compra", "Isto é nosso", "Gargalhada", "Glória", "Terezinha", "Alzira", "Carolina" e "Não posso comer sem molho".

Manteve parcerias com compositores e letristas como Lamartine Babo, Orestes Barbosa, Hervé Cordovil, Herivelto Martins, André Filho e Valfrido Silva. Essa rede de parcerias confirma sua inserção ampla na música popular brasileira da época, tanto no repertório instrumental quanto na canção e no carnaval.

Entre suas obras mais conhecidas está o choro "Flamengo", gravado pelo próprio Bonfiglio em 1931 pela Victor. A gravação foi feita em 17 de outubro de 1931, no disco Victor 33494, tendo "Terezinha" no outro lado do disco.


"Flamengo" e a Linguagem do Choro

"Flamengo" é uma das obras mais representativas de Bonfiglio. O choro combina clareza melódica, escrita idiomática para o trompete e estrutura próxima ao modelo tradicional do choro. A peça é exemplo histórico da presença do trompete no gênero. A obra se aproxima da forma rondó, com seções contrastantes e modulações características do choro clássico.

A gravação de Bonfiglio apresenta uma formação próxima à tradição dos conjuntos de pau e corda: trompete como instrumento melódico, acompanhado por violão e cavaquinho. Essa combinação mostra como o trompete pôde ocupar, no choro, uma função semelhante à da flauta ou de outros instrumentos solistas, sem perder sua identidade própria de sopro metálico.

Há diferentes interpretações sobre a origem do título "Flamengo". Algumas fontes sugerem homenagem ao clube de futebol; outras, ao bairro carioca onde Bonfiglio teria vivido. Nenhuma dessas hipóteses aparece seguramente legitimada. Assim, o mais prudente é apresentar o título como associado ao universo carioca de Bonfiglio, sem afirmar categoricamente uma motivação única.


Obras em Destaque

Flamengo: choro mais conhecido de Bonfiglio de Oliveira. Gravado pelo próprio compositor em 1931, tornou-se peça recorrente no repertório de instrumentistas de choro e recebeu regravações posteriores. O fonograma é uma gravação Victor de 1931, com acompanhamento de violões, cavaquinho e bateria.

Terezinha: valsa gravada por Bonfiglio no mesmo disco Victor 33494, tendo "Flamengo" no outro lado. A gravação data de 17 de outubro de 1931, com lançamento em dezembro do mesmo ano.

Glória: valsa que figura entre suas grandes obras. Foi composta em 1918, em Guaratinguetá, e posteriormente recebeu versos de Branca M. Coelho, sendo gravada por Gastão Formenti em 1931.

Isto é nosso: choro presente em seu catálogo, gravado pela Orquestra Típica Victor, dirigida por Radamés Gnattali, em 1936.

Amor não se compra: choro que representa a faceta instrumental de Bonfiglio dentro do repertório chorístico.

Não posso comer sem molho: maxixe de Bonfiglio, gravado por Francisco Alves e Gastão Formenti em 1928. A obra mostra sua circulação para além do choro estritamente instrumental, alcançando o repertório cantado e dançante da época.


Legado

O legado de Bonfiglio de Oliveira pode ser compreendido em três dimensões principais. A primeira é instrumental: ele foi uma das grandes referências do trompete na música popular brasileira, em uma época em que os sopros tinham papel decisivo na formação da sonoridade urbana. A segunda é composicional: deixou choros, valsas, marchas, maxixes, sambas e canções que circularam em discos, rádios, teatros e rodas. A terceira é histórica: sua convivência com Pixinguinha e sua participação em grupos como Choro Carioca, Grupo do Caxangá, Guarda Velha, Diabos do Céu e formações ligadas aos Batutas o colocam no centro de um momento decisivo da música brasileira.

Bonfiglio pertenceu a uma geração em que as fronteiras entre gêneros ainda estavam em movimento. O mesmo músico podia tocar em banda, cinema, teatro, rancho, rádio e gravação; podia compor choro, valsa, maxixe, marcha e samba; podia ler partitura, acompanhar cantores, solar, reger e participar de formações modernas. Essa versatilidade não é um detalhe biográfico, mas uma chave para entender como o choro se formou em plena circulação urbana.

Em sua lápide consta a inscrição: "Com a sua arte atingiu a imortalidade". A frase soa solene, mas no caso de Bonfiglio parece justa. Sua obra permanece não apenas nos registros históricos, mas no som do trompete que ainda encontra espaço nas rodas de choro, abrindo caminho entre cordas, sopros e memórias.


Fontes

  • Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — Verbete "Bonfíglio de Oliveira", com dados biográficos, registro de obras, parcerias e gravações. Disponível em: dicionariompb.com.br
  • Instituto Casa do Choro — Acervo de autores e catálogo de partituras de Bonfiglio de Oliveira, incluindo registros de grupos, datas e relação de 33 obras atribuídas ao compositor. Disponível em: casadochoro.com.br
  • Instituto Moreira Salles / Discografia Brasileira — Fonogramas "Flamengo" e "Terezinha", referentes ao disco Victor 33494, gravado em 17 de outubro de 1931. Disponível em: ims.com.br
  • MOTA, Pedro. Dois estudos de caso do trompete no choro: Flamengo, de Bonfiglio de Oliveira, e Peguei a Reta, de Porfírio Costa. Dissertação de mestrado, UFMG. — Análise musicológica de "Flamengo", da formação instrumental da gravação de 1931 e do papel do trompete no choro.

Para consulta complementar sobre o ambiente musical carioca em que Bonfiglio atuou, recomenda-se o cruzamento das fontes acima com os verbetes da Choropédia dedicados a Pixinguinha, aos Oito Batutas e à formação do choro urbano nas primeiras décadas do século XX.

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