Choropedia
Avena de Castro: citarista do choro brasileiro
Saiba quem foi Avena de Castro, citarista que levou o instrumento ao choro e ajudou a fundar o Clube do Choro de Brasília.

Introdução
Heitor Avena de Castro, conhecido como Avena de Castro (Rio de Janeiro, 7 de dezembro de 1919 – Brasília, 11 de julho de 1981), foi citarista e compositor brasileiro. Com formação ligada à música de concerto, construiu uma trajetória singular ao adaptar a cítara, instrumento de origem europeia pouco comum na música popular brasileira, ao repertório do choro, do samba e da valsa.
Além do trabalho como instrumentista e compositor, teve papel decisivo na organização da cena musical de Brasília. As rodas promovidas por Avena e seus companheiros ajudaram a estabelecer o choro na nova capital e contribuíram para a criação do Clube do Choro de Brasília, do qual foi o primeiro presidente.
Formação e trajetória musical
Avena iniciou os estudos musicais ainda na infância. Depois de uma primeira aproximação com o piano, passou a estudar cítara com o músico vienense Carlos Tyll e, posteriormente, aperfeiçoou-se com Nikolas Schaack.
Sua formação foi inicialmente voltada ao repertório clássico e romântico. A partir de 1937, começou a se apresentar como solista e em duo com o irmão, interpretando transcrições de compositores como Bach e Chopin. A disciplina da música escrita permaneceu uma característica de sua maneira de tocar, marcada pela leitura precisa e pelo cuidado com a articulação das frases.
Em 1943, mudou-se para Ubá, em Minas Gerais, onde trabalhou como contador em uma fábrica de papel. Na cidade, conheceu Lezir Ferreira, com quem se casou em 1947. Dois anos depois, retornou ao Rio de Janeiro e passou a atuar profissionalmente em emissoras como a Rádio Nacional e a Rádio Roquette-Pinto.
Nesse ambiente, conviveu com músicos como Pixinguinha, Garoto, Radamés Gnattali, Altamiro Carrilho, Waldir Azevedo e Jacob do Bandolim. Entre 1953 e 1959, lançou uma série de discos em 78 rotações pelas gravadoras Copacabana e Continental, registrando repertório popular e composições próprias.
A cítara no choro
A contribuição mais particular de Avena de Castro foi aproximar a cítara do universo do choro. Tradicionalmente associada à música europeia e a um repertório de execução mais lenta, o instrumento ganhou em suas mãos uma linguagem ligada ao balanço, à síncope e à ornamentação da música popular brasileira.
Avena realizou transcrições de obras de Ernesto Nazareth e desenvolveu composições próprias adaptadas às possibilidades técnicas da cítara. Ao incorporar a cítara ao repertório do choro, Avena explorou características próprias do instrumento, como a extensão, a sustentação das notas e a delicadeza do timbre.
Sua interpretação conservava elementos da formação clássica, como o respeito rigoroso à partitura, a clareza das vozes e o controle da dinâmica. Ao mesmo tempo, seu repertório incorporava choros, sambas, tangos brasileiros e valsas, criando uma combinação pouco comum na música instrumental brasileira.
Avena de Castro e o choro em Brasília
Com a construção de Brasília, Avena transferiu-se para a nova capital, onde sua casa e as residências de outros músicos se tornaram pontos de encontro para instrumentistas, servidores públicos e admiradores do choro.
As rodas realizadas aos sábados reuniam nomes como Raimundo de Brito, Odette Ernest Dias, Neusa França, Pernambuco do Pandeiro, Bide da Flauta, Waldir Azevedo e outros integrantes da primeira geração de chorões de Brasília. Esse movimento ficou conhecido como Sábado à tarde.
A convivência entre esses músicos consolidou um repertório, estabeleceu relações entre instrumentistas vindos de diferentes regiões do país e criou as bases para uma vida musical permanente na cidade. Em 1977, Avena tornou-se o primeiro presidente do Clube do Choro de Brasília. Também presidiu a representação regional da Ordem dos Músicos do Brasil entre 1973 e 1979.
Sua atuação ultrapassou, portanto, o trabalho individual como citarista. Avena funcionou como articulador de uma comunidade musical que ajudou a transformar Brasília em um dos centros importantes do choro brasileiro.
Obras importantes
| Título | Referência | Observações |
|---|---|---|
| Evocação de Jacob | Homenagem a Jacob do Bandolim | Sua composição mais conhecida, escrita após a morte do bandolinista. |
| Sábado à tarde | Rodas de choro de Brasília | Ligada aos encontros que marcaram a formação da cena brasiliense. |
| Quando fala o coração | Choro lírico | Gravado posteriormente por Waldir Azevedo. |
| Cordas românticas | Com Waldir Azevedo | Parceria entre dois instrumentistas centrais da música brasileira. |
| Papo de anjo | Choro | Registrado no álbum dedicado a Jacob do Bandolim. |
| No balanço da Luciana | Homenagem a Luciana Rabello | Gravado pela cavaquinista em seu álbum lançado em 2000. |
| Queixumes | Choro | Regravado por Déo Rian no álbum Choros de sempre. |
| Paquetá | Valsa | Gravada pelo próprio compositor em disco de 78 rotações. |
Seu catálogo preservado inclui ainda choros como Altamirando, Meiguice, Dialogando, Expansivo, Quarentão, Noites jacobeanas e A flauta do Plauto, além de sambas e valsas.
Exemplo musical
Evocação de Jacob é a obra mais representativa de Avena de Castro. Escrita em 1969, pouco depois da morte de Jacob do Bandolim, a peça não procura apenas produzir um retrato sentimental do amigo. Sua melodia recupera gestos associados à interpretação de Jacob, com frases longas, ornamentação expressiva e mudanças de direção que lembram a linguagem do bandolim.
O choro foi gravado por diferentes instrumentistas e conjuntos, entre eles Toquinho, Joel Nascimento, Época de Ouro, Raphael Rabello e Armandinho. Ao circular para além da cítara, tornou-se parte do repertório permanente do gênero e a principal porta de entrada para a obra de Avena.
Discografia selecionada
- Meet Mr. Callaghan / Falando-te, 1953 — Primeiro disco de 78 rotações do citarista.
- Uma cítara no samba, 1958 — Trabalho dedicado à presença da cítara na música popular brasileira.
- Naquele tempo, 1961 — Álbum com repertório instrumental interpretado pelo citarista.
- De Castro toca e você dança, década de 1960 — Disco lançado com De Castro e seu conjunto.
- Avena de Castro relembra Jacob Bittencourt, 1969 — Seu trabalho de maior repercussão, dedicado à obra de Jacob do Bandolim.
- Uma cítara com amor, 1973 — Álbum que reúne choros, sambas, valsas e composições próprias.
O álbum dedicado a Jacob possui valor histórico especial. Nele está a última participação fonográfica do bandolinista, na gravação de Três estrelinhas, de Anacleto de Medeiros.
Fontes
Instituto Casa do Choro — Verbete “Castro, Heitor Avena de”. Fonte principal para dados biográficos, formação musical, trajetória profissional, características de sua interpretação e catálogo de composições.
Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — Verbete “Avena de Castro”. Referência para informações sobre sua formação erudita, atuação como citarista, transcrições, gravações, apresentações e discografia.
Discografia Brasileira / Instituto Moreira Salles — Registros de Avena de Castro. Fonte para a consulta e conferência de discos, fonogramas, repertório, gravadoras e datas de lançamento.
Choro Patrimônio / Universidade Federal de Pelotas — “Acervo Avena de Castro”. Referência para a trajetória do músico em Brasília, sua participação na formação das primeiras rodas de choro da cidade, a criação do Clube do Choro de Brasília e a composição de seu acervo pessoal.
Clube do Choro de Belo Horizonte — “101 anos de Heitor Avena de Castro”. Fonte complementar para informações biográficas, discográficas e para a contextualização de sua importância como compositor e citarista.
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