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Altamiro Carrilho: biografia e legado no choro

Conheça Altamiro Carrilho, um dos maiores flautistas do choro: virtuose, compositor e arranjador que levou a flauta brasileira ao rádio, TV e palcos internacionais.

Altamiro CarrilhoflautachoroBandinha de Altamiro CarrilhoRegional do Canhotomúsica brasileira

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Introdução

Altamiro Aquino Carrilho foi um dos nomes centrais da flauta brasileira no século XX. Flautista, compositor, arranjador e um dos grandes divulgadores do choro no Brasil e no exterior, tornou-se referência não apenas pela extensão de sua discografia, mas pela maneira como transformou a flauta em instrumento de virtuosismo popular, improvisação, lirismo e comunicação direta com o público.


Infância e Formação

Nascido em Santo Antônio de Pádua, no interior do Rio de Janeiro, em 21 de dezembro de 1924, Altamiro cresceu em um ambiente familiar profundamente ligado à música. Ainda criança, teve contato com bandas, coretos e instrumentos de sopro. A imagem do menino tocando uma pequena flauta de lata é quase simbólica: antes de se tornar um dos grandes solistas da música brasileira, Altamiro já revelava uma relação espontânea com o instrumento, como se a flauta fosse uma extensão natural da fala.

Aos 15 anos, mudou-se com a família para a região metropolitana do Rio de Janeiro, passando por São Gonçalo e depois por Bonsucesso. Trabalhou como farmacêutico e estudou música à noite, até conseguir comprar uma flauta de segunda mão. Essa combinação entre trabalho comum, estudo persistente e prática musical cotidiana é importante para entender sua trajetória: Altamiro não surge apenas como prodígio, mas como músico formado no encontro entre tradição popular, rádio, repertório de dança, choro e disciplina instrumental.


O Início Profissional

Altamiro apareceu muito jovem em programas de calouros, chegando a vencer o programa de Ary Barroso. Em 1943, participou de sua primeira gravação, em disco de Moreira da Silva. Poucos anos depois, passou a atuar em orquestras de rádio, ambiente decisivo para a formação de muitos músicos brasileiros da primeira metade do século XX.

A rádio exigia leitura, ouvido, rapidez de adaptação, domínio de repertório e capacidade de tocar em diferentes contextos. Esse laboratório ajudou a formar um músico versátil, capaz de circular entre choro, samba, maxixe, baião, música de dança, repertório de concerto adaptado e música instrumental popular.

Em 1951, Altamiro passou a integrar o Regional do Canhoto, substituindo Benedito Lacerda. Essa passagem é fundamental. O regional era uma das formações mais importantes da música brasileira: cavaquinho, violões, pandeiro e solista, com linguagem baseada no acompanhamento maleável, nos baixos contrapontísticos e no diálogo permanente entre melodia e ritmo. Ao entrar nesse universo, Altamiro se insere diretamente na linhagem dos grandes flautistas do choro, depois de nomes como Joaquim Callado, Patápio Silva, Pixinguinha, Benedito Lacerda e Dante Santoro.


A Bandinha de Altamiro Carrilho

Em 1955, Altamiro formou a Bandinha de Altamiro Carrilho, grupo que se tornaria uma das marcas de sua carreira. A Bandinha dialogava com o imaginário das bandas de música, dos coretos, dos dobrados, dos maxixes e das festas populares brasileiras. Era uma formação de apelo popular, mas não simplória. Por trás do caráter comunicativo havia arranjos bem construídos, repertório variado e uma flauta capaz de soar brilhante, virtuosística e dançante.

O grande marco comercial desse período foi "Rio Antigo", maxixe de sua autoria. A gravação alcançou enorme sucesso e consolidou Altamiro como figura nacional. Seu programa "Em tempo de música", na TV Tupi, também teve grande audiência, ampliando ainda mais a circulação de sua imagem e de sua sonoridade.

A Bandinha é um ponto importante para entender Altamiro sem reduzi-lo apenas à figura do "chorão virtuose". Ele foi também um artista de comunicação de massa, alguém que compreendeu o rádio, a televisão, o disco e a memória afetiva do público. Sua música passeava entre a roda de choro, o salão, o coreto e o palco.


Virtuosismo, Improvisação e Linguagem

Altamiro tinha domínio técnico extraordinário da flauta transversal. Mas seu virtuosismo não era apenas velocidade ou brilho. O que o torna tão importante para o choro é a maneira como articulava técnica, improvisação, ornamentação e fraseado popular.

Em suas interpretações, é comum encontrar variações melódicas, mordentes, apojaturas, pequenas antecipações rítmicas, deslocamentos de acento, passagens cromáticas e respostas improvisadas que renovam a melodia sem apagá-la. Ele respeitava o tema, mas não o deixava imóvel. A melodia, em Altamiro, respira, ornamenta, brinca, corre, suspende e volta ao chão.

Essa é uma das razões pelas quais suas gravações se tornaram material de estudo para flautistas interessados no choro. Mais do que tocar as notas certas, Altamiro ensina uma forma de dizer a frase. Sua interpretação mostra que, no choro, a partitura é ponto de partida, mas a linguagem vive nos detalhes: no ataque, no balanço, na inflexão, na variação e no diálogo com o acompanhamento.


Compositor de Muitos Brasis

Altamiro compôs cerca de duas centenas de músicas, em gêneros variados. Embora seja lembrado principalmente pelo choro, seu catálogo inclui maxixes, sambas, baiões, valsas, polcas, frevos e outras formas ligadas à música popular brasileira.

Entre suas composições mais lembradas estão "Rio Antigo", "Aeroporto do Galeão", "Deixa o Breque pra Mim", "Oriental", "Bem Brasil", "Canarinho Teimoso", "Enigmático", "Flauteando na Chacrinha", "Samba de Morro" e "Vivaldino".

A diversidade de gêneros revela um compositor profundamente ligado ao Brasil musical do século XX. Altamiro não tratava o choro como uma ilha isolada. Sua obra mostra o choro em contato com o maxixe, a valsa, o samba, o baião, a música de banda e o repertório instrumental de salão.


A Relação com a Tradição da Flauta

Altamiro se via como discípulo de Patápio Silva, uma das grandes referências da flauta brasileira. Também tinha em Benedito Lacerda e Dante Santoro nomes importantes de sua formação estética. Essa genealogia ajuda a situar sua importância: ele não inventa a flauta brasileira do nada, mas leva adiante uma tradição já consolidada desde o século XIX e início do século XX.

Ao mesmo tempo, Altamiro moderniza essa tradição por meio do disco, da rádio, da televisão e das turnês internacionais. Sua flauta preserva traços do choro antigo, mas ganha projeção pública em escala muito maior. Ele é, nesse sentido, uma ponte entre a tradição dos coretos, regionais e rodas de choro e a indústria fonográfica moderna.


Discografia e Presença Internacional

Altamiro gravou dezenas de discos ao longo da carreira e participou de centenas de registros fonográficos. Sua discografia atravessa diferentes fases da música brasileira: os discos de 78 rotações, os LPs de choro e música de dança, as antologias, os encontros com outros instrumentistas e os relançamentos em CD.

Entre discos importantes de sua trajetória estão Rio Antigo, Choros Imortais, Antologia do Chorinho, Pixinguinha de Novo (ao lado de Carlos Poyares), Clássicos em Choro, Altamiro Revive Patápio e Interpreta Clássicos, Bem Brasil e Flauta Maravilhosa.

Sua atuação internacional também foi expressiva. Apresentou-se em diversos países da Europa, da América do Sul, nos Estados Unidos, no Japão e em outros circuitos, levando o choro e a flauta brasileira para fora do Brasil. Em 1958, recebeu o Microfone de Ouro como melhor instrumentista do rádio. Em 1997, ganhou o Prêmio Sharp na categoria de melhor disco instrumental com Flauta Maravilhosa.


Por Que Altamiro Carrilho Importa para o Choro?

Altamiro importa porque sintetiza várias dimensões do choro em uma só figura.

Ele foi virtuose, mas não acadêmico no sentido estreito. Foi popular, mas não superficial. Foi compositor, intérprete, improvisador, arranjador e comunicador. Tocou em regionais, bandas, rádios, programas de televisão, discos comerciais, projetos históricos e palcos internacionais.

Sua importância está em mostrar que o choro é, ao mesmo tempo, linguagem sofisticada e música de circulação popular. Em Altamiro, a flauta canta com malícia rítmica, elegância melódica e uma clareza quase narrativa. Cada frase parece contar uma pequena história: às vezes risonha, às vezes nostálgica, às vezes exibida, mas sempre musicalmente consciente.

Para quem estuda choro, Altamiro é uma escola. Não apenas uma escola de flauta, mas uma escola de fraseado, balanço, articulação e imaginação melódica.


Morte e Legado

Altamiro Carrilho faleceu no Rio de Janeiro, em 15 de agosto de 2012, aos 87 anos. Deixou uma obra extensa, uma discografia fundamental e um modelo interpretativo que continua influenciando flautistas e chorões.

Seu legado não está apenas nas composições ou nos discos, mas na forma como consolidou uma ideia de flauta brasileira: ágil, expressiva, popular, tecnicamente refinada e profundamente ligada à tradição do choro.

Altamiro Carrilho é um daqueles músicos que não cabem apenas na biografia. Ele permanece como som, sotaque e caminho. Para entender a flauta no choro, é preciso passar por ele.


Fontes

  • Casa do Choro — Acervo de autores e catálogo de partituras de Altamiro Carrilho. Disponível em: casadochoro.com.br
  • Instituto Moreira Salles (IMS) — Acervo iconográfico de Altamiro Carrilho.
  • Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — Verbete "Altamiro Carrilho". Disponível em: dicionariompb.com.br
  • Discografia Brasileira / Discos do Brasil — Registros fonográficos com Altamiro Carrilho.
  • Musica Brasilis — Verbete "Altamiro Carrilho".
  • Pereira, Marcelo das Dôres. Procedimentos rítmico-melódicos na performance de Altamiro Carrilho: um estudo de caso aplicado ao ensino do choro. Dissertação de mestrado, UFMG, 2016.
  • Modesto, Marcio; Berg, Silvia Maria Pires Cabrera. "A múltipla produção artística do flautista Altamiro Carrilho entre 1948 e 1960". Anais da ANPPOM, 2020.

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