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Alexandre Gonçalves Pinto (Animal): choro e memória

Conheça Alexandre Gonçalves Pinto, o Animal, carteiro e músico que escreveu 'O Choro', obra essencial sobre os chorões do Rio de Janeiro (1870–1950).

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alexandre g pinto

Introdução

Alexandre Gonçalves Pinto, conhecido como Animal (Rio de Janeiro, 1870–1950), foi cantor, cavaquinista, violonista e carteiro. Frequentou intensamente a vida musical carioca entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, participando de bailes, festas familiares e rodas de choro.

Sua principal contribuição para a história da música brasileira foi o livro O Choro: reminiscências dos chorões antigos, publicado em 1936. Escrito a partir das experiências e lembranças do autor, o volume tornou-se uma das fontes fundamentais para o conhecimento das primeiras gerações de chorões e das práticas musicais do Rio de Janeiro daquele período.

O ambiente dos chorões

Como muitos músicos de sua época, Gonçalves Pinto conciliava a atividade artística com outro ofício. Trabalhou como carteiro em um contexto no qual funcionários públicos, operários e artesãos participavam regularmente de conjuntos musicais, muitas vezes sem depender profissionalmente da música.

O choro desenvolvia-se sobretudo em espaços de convivência: residências, festas de bairro, sociedades recreativas, bailes e encontros comunitários. Antes da popularização do rádio e da expansão da indústria fonográfica, a reputação de um instrumentista era construída pela presença constante nesses ambientes e pelo reconhecimento direto de músicos, anfitriões e público.

As rodas reuniam pessoas de diferentes profissões e condições sociais. Alguns participantes alcançaram projeção nacional, enquanto outros permaneceram conhecidos apenas nos bairros e grupos que frequentavam. Muitos eram identificados por apelidos, como Benigno Lustrador, Leopoldo Pé de Mesa e Josino Facão.

Esses encontros envolviam mais do que a execução musical. Comida, bebida e conversa faziam parte da experiência, e os músicos frequentemente tocavam em troca da hospitalidade oferecida pelos donos da casa. Nas memórias do Animal, a música aparece integrada à vida social, aos vínculos de amizade e às celebrações cotidianas.

"O Choro: reminiscências dos chorões antigos"

O livro reúne aproximadamente 400 perfis de personagens ligados ao universo do choro entre 1870 e 1936. Gonçalves Pinto combina informações biográficas, recordações pessoais, comentários sobre habilidades musicais e episódios que revelam a personalidade e a reputação dos retratados.

Ao lado de nomes como Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga e Anacleto de Medeiros, aparecem instrumentistas amadores, acompanhadores, organizadores de festas, anfitriões e frequentadores das rodas. O autor também inclui músicos considerados pouco habilidosos, chamados naquele tempo de “facões”.

Essa escolha demonstra que sua intenção não era construir apenas uma galeria de grandes compositores e intérpretes. O livro preserva a memória de uma comunidade ampla, formada por todos aqueles que, de alguma maneira, mantinham os encontros, o repertório e as relações musicais em circulação.

Uma prática musical coletiva

No universo descrito por Gonçalves Pinto, a palavra “choro” não indicava somente um gênero musical. Podia designar o conjunto de músicos, a própria roda, o encontro social ou uma maneira particular de interpretar diferentes repertórios.

Polcas, valsas, quadrilhas, schottisches, maxixes e tangos brasileiros conviviam nas mesmas festas e eram transformados pelas formas de acompanhamento, ornamentação e interação desenvolvidas pelos chorões.

A continuidade dessa prática dependia tanto dos instrumentistas mais destacados quanto dos músicos amadores e das pessoas que ofereciam espaços para as reuniões. Mesmo participantes com instrumentos simples ou remendados podiam exercer funções importantes em suas comunidades.

Muitos trabalhadores sabiam ler e escrever música, copiavam composições, organizavam cadernos manuscritos e trocavam partituras. Essa circulação ajudou a preservar obras anteriores à consolidação das gravações comerciais e forneceu, posteriormente, informações importantes para a identificação de autores e repertórios do século XIX.

Desse modo, O Choro registra não apenas músicas ou biografias individuais, mas uma rede de criação, interpretação, transmissão e preservação cultural.

A cidade e suas rodas

As memórias do Animal revelam uma vida musical distribuída por diferentes regiões do Rio de Janeiro. Os chorões deslocavam-se para tocar em bairros e localidades como Jacarepaguá, Botafogo, Gávea, Zona Norte e Paquetá.

As apresentações aconteciam tanto em residências de famílias influentes quanto em casas suburbanas e festas organizadas por trabalhadores. Um mesmo repertório podia circular por ambientes sociais distintos, adaptando-se aos músicos e instrumentos disponíveis em cada ocasião.

A cidade, portanto, não funciona apenas como cenário. Seus bairros, trajetos, residências e espaços de sociabilidade participam diretamente da formação do ambiente musical narrado pelo autor.

A linguagem do Animal

A escrita de Alexandre Gonçalves Pinto é espontânea e próxima da oralidade. A edição original apresenta irregularidades gramaticais, problemas tipográficos, gírias e expressões populares do Rio de Janeiro de sua época.

Embora essas características possam causar estranhamento ao leitor atual, elas tornam a obra um documento singular sobre a linguagem, o humor e os códigos sociais daquele meio. Os perfis não seguem um modelo rigoroso: informações sobre profissões, instrumentos e locais frequentados convivem com lembranças, julgamentos e episódios pessoais.

Essa informalidade confere ao livro a proximidade de quem escreveu sobre pessoas e situações que conheceu diretamente.

Importância histórica

Quando publicou O Choro, Gonçalves Pinto era um carteiro aposentado, sem projeção nos círculos intelectuais ou jornalísticos. Ainda assim, decidiu registrar a memória dos músicos com quem havia convivido ao longo de décadas.

Sua iniciativa foi decisiva porque muitos dos personagens retratados não deixaram gravações, partituras publicadas ou registros biográficos. Sem o livro, parte considerável de seus nomes, apelidos, profissões e trajetórias teria desaparecido.

O valor de O Choro: reminiscências dos chorões antigos está tanto na quantidade de personagens documentados quanto no ponto de vista de seu autor. Gonçalves Pinto não observou aquele universo à distância: escreveu como integrante de uma comunidade musical da qual participou e cuja memória ajudou a preservar.


Fontes

As seguintes fontes foram utilizadas como referências principais para a elaboração deste artigo:

  • Instituto Casa do Choro. Verbete biográfico “Pinto, Alexandre Gonçalves”. Informações sobre nascimento, falecimento, atividades profissionais, instrumentos, convivência com os chorões e publicação de O Choro.
  • Instituto Moreira Salles. “A história do Animal: quatro perguntas para Pedro Aragão”. Informações sobre o contexto social dos músicos, a escrita de Gonçalves Pinto, os repertórios, a circulação das rodas e a importância histórica de sua obra.
  • PINTO, Alexandre Gonçalves. O Choro: reminiscências dos chorões antigos. Rio de Janeiro, 1936.
  • ARAGÃO, Pedro. O baú do Animal: Alexandre Gonçalves Pinto e O Choro. Rio de Janeiro: Folha Seca, 2013.

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