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Acari Records: primeira gravadora brasileira de choro

Conheça a Acari Records, primeira gravadora brasileira especializada em choro, fundada por Luciana Rabello e Maurício Carrilho, e seu papel na pesquisa e registro do gênero.

Acari RecordschorogravadoraLuciana RabelloMaurício CarrilhoCasa do Choro

Introdução

A Acari Records foi a primeira gravadora brasileira dedicada exclusivamente ao choro. Criada no fim dos anos 1990 por Luciana Rabello e Maurício Carrilho, nasceu ligada ao mesmo grupo de músicos e pesquisadores que viria a criar a Escola Portátil de Música e a Casa do Choro.

Mais do que um selo de mercado, a Acari sempre funcionou como parte de um projeto maior de pesquisa, ensino e preservação do choro. Seu trabalho une o registro de grandes mestres, o resgate de compositores históricos, a revelação de novas gerações e a produção de partituras e material de pesquisa — o que a tornou referência para músicos, estudantes e pesquisadores do gênero.


História e Fundação

A Acari foi concebida entre 1998 e 1999 e começou a operar comercialmente em 2000, quando lançou seus primeiros discos. O objetivo era claro: preencher uma lacuna do mercado fonográfico brasileiro, que oferecia pouquíssimo espaço para gravações dedicadas ao choro.

Desde o início, o selo usou a internet como vitrine e ponto de venda. Em 2000, os três primeiros CDs já eram vendidos pelo site acari.com.br e em lojas das capitais; segundo Luciana Rabello, a página recebeu 48 mil acessos em dois meses e viabilizou vendas para o Japão, a Noruega e o Canadá.

Esse vínculo com instituições é parte essencial da sua história. A Acari cresceu junto com a Casa do Choro e a Escola Portátil de Música e, mais tarde, passou a abrigar a Rádio Acari Records, além de documentários e acervo de pesquisa. Não era, portanto, apenas uma gravadora, mas uma peça de um sistema maior de memória, ensino e performance.


Proposta Editorial

A proposta da Acari combina, de forma articulada, quatro frentes: registrar mestres da velha guarda (a geração mais antiga do choro) interpretando a própria obra, resgatar compositores históricos, gravar novos chorões e produzir documentação musical.

Essa mistura entre memória, repertório antigo e criação contemporânea é a marca mais constante do selo. Em vez de apenas reeditar clássicos, a gravadora investiu em compositoras pouco gravadas, em autores do século XIX e início do XX e em caixas inteiras nascidas de pesquisa de repertório.


Principais Projetos

Mulheres do Choro (2001): antologia dedicada a compositoras do gênero, com encarte biográfico detalhado, que ajudou a ampliar a visibilidade feminina na história do choro.

Princípios do Choro: uma das iniciativas mais ambiciosas do selo, com 15 CDs e 5 cadernos de partituras produzidos em parceria com a Biscoito Fino e a EdUERJ. A série ganhou reedição digital em 2020.

Joaquim Callado – O Pai dos Chorões (2004): caixa com 5 CDs e livro dedicada à obra remanescente de Joaquim Callado, uma das figuras fundadoras do choro.

Choro Carioca: Música do Brasil (2006–2007): caixa de 9 CDs com obras de 74 chorões de várias regiões do país, nascida do Inventário do Repertório do Choro e reveladora da dimensão nacional do gênero.

8 Com (2013–2014): série em que Maurício Carrilho dialoga musicalmente com diferentes convidados da música brasileira.


Discografia Selecionada

O catálogo completo reúne mais de 80 títulos, segundo levantamentos ligados à Casa do Choro. A seleção abaixo destaca marcos entre 1999 e 2026.

Ano Título Artista(s) Formato
1999 Álvaro Carrilho Álvaro Carrilho CD
1999 Leonardo Miranda Toca Joaquim Callado Leonardo Miranda CD
1999 Luciana Rabello Luciana Rabello CD
2000 Arranca Toco Jorginho do Pandeiro, Maurício Carrilho, Nailor Proveta e Pedro Amorim CD
2000 Índio do Cavaquinho Índio do Cavaquinho CD
2000 Maurício Carrilho Maurício Carrilho CD
2001 Mulheres do Choro Diversos instrumentistas, Luciana Rabello e Maurício Carrilho CD
2001 Todas as Canções Raphael Rabello e Amélia Rabello CD
2001 Violão Tenor Pedro Amorim CD
2002 Mestre Capiba por Raphael Rabello e Convidados Raphael Rabello CD
2004 Maurício Carrilho – Sexteto + 2 Maurício Carrilho CD
2005 Choros de Paulinho da Viola Márcia Taborda CD
2006 Choro Carioca: Música do Brasil (caixa de 9 CDs por regiões) Diversos instrumentistas, Luciana Rabello e Maurício Carrilho CD
2006 Regional Carioca Grupo Regional Carioca CD
2007 Choro Ímpar Maurício Carrilho CD
2007 Jacarandá: Doug de Vries Meets Maurício Carrilho Maurício Carrilho e Doug de Vries CD
2009 Brasileiro Saxofone Nailor Proveta CD
2011 A Delicadeza Que Vem Desses Sons Amélia Rabello CD
2011 Poesia Musicada Dori Caymmi CD
2012 Camerata Brasilis Camerata Brasilis CD
2012 Um Abraço no Raphael Rabello – 50 Anos Diversos instrumentistas e solistas CD
2013 Candeia Branca Luciana Rabello CD
2013–2014 8 Com (Vols. 2 a 8) Maurício Carrilho e convidados CD
2014 Brasileiro Saxofone – Vol. 2 Nailor Proveta CD
2014 Furiosa Portátil – Compositores Brasileiros Contemporâneos Furiosa Portátil CD
2015 Pulsação Julião Pinheiro CD
2016 João Camarero João Camarero CD
2017 Meia Volta Luísa Lacerda e Miguel Rabello CD
2019 De Volta Pra Casa Grupo Os Matutos CD
2020 Princípios do Choro (Vols. 3, 4 e 5) Luciana Rabello e Maurício Carrilho digital
2024 Simples Renato Martins CD/digital
2026 Choro Sentimental Paulo Aragão single digital
2026 Choros Líricos e Sentimentais Paulo Aragão CD/digital

Artistas do Catálogo

No centro da gravadora estão seus fundadores: Luciana Rabello, também intérprete e produtora, e Maurício Carrilho, compositor, arranjador e curador de boa parte das séries do selo. Em torno deles passaram mestres e intérpretes como Álvaro Carrilho, Leonardo Miranda, Índio do Cavaquinho, Pedro Amorim e Nailor Proveta.

Uma figura de referência do catálogo é Raphael Rabello, presente em discos como Mestre Capiba e Todas as Canções e homenageado no tributo Um Abraço no Raphael Rabello – 50 Anos. O selo também abriga grupos como Camerata Brasilis, Regional Carioca e Furiosa Portátil, além de artistas recentes como Paulo Aragão e Renato Martins.


Presença Digital

Hoje o catálogo da Acari está nas principais plataformas — Spotify, Deezer, Apple Music e Tidal —, parte dele distribuído pela Nikita e indexado em bases como o MusicBrainz. A partir de 2020, a Casa do Choro passou a oferecer também a Rádio Acari Records.

O antigo site próprio, porém, deixou de funcionar como portal ativo. A presença atual do selo se concentra nas plataformas de streaming e no ecossistema institucional da Casa do Choro.


Recepção e Parcerias

Boa parte do reconhecimento da Acari vem diretamente de seus discos. Choro Ímpar, de Maurício Carrilho, foi elogiado pela ideia de compor choros em compassos ímpares sem soar excessivamente cerebral; Candeia Branca, de Luciana Rabello, foi recebido como um belo trabalho de samba de regional (o conjunto típico do choro), pela voz e pelo diálogo natural com a linguagem do choro e do samba. O disco O Lamento do Samba, lançado por Acari / Quelé / Biscoito Fino, está ligado ao reconhecimento de Paulo César Pinheiro com o Prêmio Shell de 2003.

As parcerias ajudam a explicar o alcance do selo. A série Princípios do Choro saiu com a Biscoito Fino e a EdUERJ; a caixa Choro Carioca: Música do Brasil teve patrocínio da Petrobras; e o selo Quelé nasceu da união entre Acari e Biscoito Fino, em projetos como O Lamento do Samba.


Importância para o Choro

A Acari surgiu para preencher um vazio — faltavam gravadoras dedicadas ao choro —, mas foi muito além disso. Ajudou a transformar o choro de repertório lembrado em repertório pesquisado, gravado, editado e ensinado. Coleções como Princípios do Choro e Choro Carioca: Música do Brasil são hoje parte importante do inventário do gênero.

Seu maior legado não é apenas a quantidade de discos, mas a ponte que criou entre memória, pesquisa, partitura, ensino e gravação. Mais do que um selo, a Acari Records é uma das engrenagens que mantêm o choro vivo no século XXI.


Fontes

  • Instituto Casa do Choro — Acervo e verbetes de Luciana Rabello e Maurício Carrilho, com registro da fundação, da direção artística e das coleções do selo (Princípios do Choro, Choro Carioca: Música do Brasil, Inventário do Repertório do Choro). Disponível em: casadochoro.com.br
  • Itaú Cultural — Verbete sobre a Acari Records, com a definição institucional do selo.
  • Discografia Brasileira (Instituto Moreira Salles) — Página da gravadora; base da discografia indexada entre 1999 e 2019.
  • MusicBrainz — Indexação de lançamentos e reedições digitais, incluindo títulos de 2026 e ligações para as plataformas de streaming.
  • Cliquemusic — Matéria de 2000 sobre os primeiros lançamentos, a proposta editorial e a venda pela internet.

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