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Abel Ferreira: biografia, obras e legado no choro

Abel Ferreira foi um dos maiores clarinetistas e compositores do choro, criador de uma escola brasileira de sopro. Conheça sua trajetória, obras como Chorando Baixinho e influência no gênero.

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Introdução

Abel Ferreira (Coromandel, 15 de fevereiro de 1915 – Rio de Janeiro, abril de 1980) foi um dos nomes centrais do choro no século XX. Clarinetista, saxofonista e compositor, sua atuação ajudou a consolidar uma verdadeira escola brasileira de sopro, a ponto de ser frequentemente colocado, ao lado de Pixinguinha e Luiz Americano, entre as grandes referências da linguagem instrumental do gênero. Sua obra reúne lirismo, virtuosismo, refinamento de fraseado e uma dicção profundamente ligada ao vocabulário do choro.

Em Abel, tradição e invenção não se opõem: respiram pelo mesmo tubo.


Formação e Contexto Musical

Sua formação musical começou cedo, em ambiente interiorano e fortemente ligado à escuta. Teve aprendizagem em grande parte autodidata, com orientação inicial de músicos de sua cidade — especialmente Hipácio Gomes e José Ferreira de Resende. Ainda menino, passou por instrumentos como gaita e flauta de bambu, chegando à clarineta por volta dos doze anos; aos quinze, já tocava saxofone. Aos dezessete, mudou-se para Belo Horizonte, onde trabalhou na Rádio Guarani e começou a consolidar sua vida profissional como instrumentista.

Na década de 1930, passou por São Paulo e Uberaba, integrou a orquestra de Maurício Cascapera, atuou em rádio e acompanhou Carmen e Aurora Miranda em apresentação em Poços de Caldas. De volta a Belo Horizonte, tocou com J. França e sua Banda e com Pinheirinho e seu Regional, entrando no circuito profissional que articulava rádio, bailes e música popular urbana. Em 1942, gravou seu primeiro disco na Columbia, registrando o choro Chorando Baixinho e a valsa Vânia, ambas de sua autoria.

A mudança para o Rio de Janeiro, em 1943, foi decisiva. Na então capital federal, passou pelo Cassino da Urca com a orquestra de Ferreira Filho, tocou nas orquestras de Vicente Paiva e Bené Nunes e acompanhou grandes cantores da era do rádio, como Francisco Alves, Orlando Silva, Sílvio Caldas, Marlene e Emilinha Borba. Em 1949, ingressou na Rádio Nacional, onde ganhou ampla projeção como líder da Turma do Sereno. Em 1952, formou com Paulo Tapajós a Escola de Ritmos, com a qual viajou por diversas cidades brasileiras.

Entre o fim dos anos 1950 e meados dos anos 1960, sua carreira adquiriu dimensão internacional. Abel apresentou-se em Portugal, integrou o grupo Os Brasileiros em excursões pela Europa, viajou aos Estados Unidos e ao Havaí com Bené Nunes, esteve na Argentina com Waldir Azevedo e voltou à Europa antes de visitar também a União Soviética. Esse percurso mostra que sua importância não se limitou ao circuito do choro carioca: ele foi também um embaixador da música instrumental brasileira em palcos estrangeiros.


Estilo Musical

A importância de Abel Ferreira não reside apenas na biografia profissional, mas na qualidade singular de sua linguagem. Definido como criador de uma escola brasileira de sopro, seu fraseado, sua articulação e seu uso expressivo da clarineta ajudaram a fixar modelos de interpretação que se tornaram referenciais para gerações posteriores. Dono de ouvido absoluto, conhecedor de teoria musical, arranjador e pianista, Abel combinava domínio técnico com uma sonoridade calorosa, elegante e imediatamente identificável.

Linguagem instrumental: estudos analíticos de suas gravações identificam procedimentos recorrentes como ornamentação, cromatismos, glissandi, portamentos, quiálteras, deslocamentos rítmico-melódicos e ênfase em saltos melódicos de sexta. Esses recursos estão integrados ao fraseado do choro, não como exibicionismo técnico — Abel não tocava "sobre" o gênero: ele tocava de dentro da linguagem.


Obras Importantes

Título Observações
Chorando Baixinho Sua composição mais conhecida e assinatura artística de suas apresentações. Gravada pela primeira vez em 1942 com acompanhamento de Pinheirinho e seu Regional.
Acariciando Uma das peças mais associadas ao seu nome no repertório do choro.
Luar de Coromandel Homenagem à sua cidade natal; peça de forte apelo melódico.
Doce Melodia Exemplo do lado mais lírico de sua escrita como compositor.
Haroldo no Choro Obra recorrente em gravações dedicadas ao compositor.
Chorinho do Sovaco de Cobra Composta em homenagem à roda da Penha, da qual era frequentador assíduo. Testemunho de sua relação orgânica com a tradição informal do gênero.

Seu catálogo reúne mais de cinquenta obras entre choros, valsas, maxixes, baiões e outras formas da música popular brasileira — uma escrita melódica forte, profundamente cantável, capaz de unir sofisticação e clareza comunicativa.


Chorando Baixinho

Entre todas as suas composições, Chorando Baixinho ocupa lugar especial. Segundo relato do próprio Abel, a peça nasceu entre o fim dos anos 1930 e o início dos anos 1940, num período em que ele tentou se afastar da música e viveu uma fase de forte tensão pessoal e econômica. Ao chegar em casa e encontrar a esposa "chorando baixinho", teria composto sua primeira música, que depois se tornaria espécie de assinatura artística de suas apresentações.

Do ponto de vista formal, a peça estrutura-se em três seções: parte A em ré menor, parte B em lá menor e parte C em ré maior — um percurso de tônica menor, região do dominante menor e homônimo maior. Predominam tríades com sétimas ocasionais, poucas extensões e um desenho melódico cheio de cromatismos, arpejos e inflexões expressivas. Ao mesmo tempo acessível e sofisticada, íntima e altamente elaborada, é uma obra que explica por si mesma sua permanência no repertório.


Exemplo Musical

Chorando Baixinho é a porta de entrada mais natural para o universo de Abel Ferreira — e também a mais reveladora de seu lugar no choro. Ao ouvi-la, o que chama atenção não é apenas a melodia, mas o modo como a clarineta a conduz: com calor, elegância e uma expressividade que parece nascer de dentro do instrumento, não de sobre ele. O lirismo da peça não encobre sua sofisticação: está tecido nela.

Para ouvir o Abel mais virtuosístico, Acariciando oferece o contraste necessário. Ali a técnica aparece com mais evidência, sem que a peça perca o vínculo com a cantabilidade e o fraseado do choro. Os dois títulos juntos mostram a amplitude de um músico que soube ser ao mesmo tempo popular e refinado.


Influências e Relações

Influências sobre Abel:

  • Hipácio Gomes e José Ferreira de Resende — Orientadores iniciais em Coromandel; base da formação musical em ambiente interiorano.
  • Rádio paulista e mineira — A experiência em emissoras como Rádio Guarani consolidou sua profissionalização antes da chegada ao Rio.
  • Orquestra de Maurício Cascapera e conjuntos regionais — Ambientes de prática intensa que moldaram sua fluência entre diferentes repertórios e formações.

Músicos e relações de destaque:

  • Pixinguinha — Ao lado de quem aparece no LP Cinco Companheiros (1958), com Pedro Vieira, Silva Leite e Irani Pinto — registro importante para a discografia do choro e testemunho de seu lugar no núcleo histórico do gênero.
  • Waldir Azevedo — Com quem excursionou pela Argentina, reforçando o vínculo entre os grandes instrumentistas de sua geração.
  • Júlio Medaglia — Regente sob cuja batuta Abel gravou, em 1977, o Concertino para Clarinete e Orquestra, de Weber, com a Orquestra Sinfônica Brasileira.
  • Sovaco de Cobra — A roda da Penha, da qual era frequentador assíduo, e que ele homenageou em composição própria.

Legado

O legado de Abel Ferreira é amplo porque atua em várias frentes ao mesmo tempo.

Como instrumentista, fixou um modo brasileiro de tocar clarineta e saxofone no choro — um fraseado, uma articulação e uma sonoridade que se tornaram referenciais. Aposentado do rádio em 1971, seguiu gravando e participando de projetos importantes. Na década de 1970, quando o gênero voltou a ser valorizado, surgiu plenamente preparado: gravou o LP Brasil, Sax e Clarineta em 1976 e reapareceu em shows, gravações e projetos ligados à redescoberta do choro.

Como compositor, deixou mais de cinquenta obras que continuam entre as mais tocadas do repertório. Chorando Baixinho é sua peça mais conhecida, mas o catálogo é amplo e consistente.

Como músico de roda, seu nome está ligado ao universo da transmissão oral e da convivência entre chorões. A frequência ao Sovaco de Cobra e a composição que lhe dedicou mostram que seu legado não se resume à discografia nem ao virtuosismo solista: ele pertence igualmente à tradição informal do gênero.


Fontes

  • Casa do Choro — Fonte principal para a definição de Abel como criador de uma escola brasileira de sopro, dados de trajetória e catálogo de obras.
  • Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — Verbete "Abel Ferreira". Fonte para dados biográficos, discografia e trajetória profissional.
  • GOMES, Wagno Macedo. Dissertação sobre Chorando Baixinho. — Análise formal, harmônica e interpretativa da peça; identificação dos procedimentos técnicos recorrentes nas gravações de Abel.
  • Revista do Choro — Referência para dados biográficos e data de falecimento.
  • Discografia Brasileira / Instituto Moreira Salles — Registros fonográficos citados, incluindo a gravação de 1942 pela Columbia e o LP Cinco Companheiros (1958).

Nota editorial: há divergência entre as fontes consultadas quanto ao dia exato de falecimento de Abel Ferreira. O Dicionário Cravo Albin registra 13 de abril de 1980; a Revista do Choro e a dissertação de Wagno Gomes apontam 12 de abril; a Casa do Choro registra 2 de abril. Este verbete adota apenas abril de 1980, dado comum e seguro às fontes consultadas.

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