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Obras Fundamentais do Choro: Repertório Essencial por Compositor
Conheça as obras essenciais do choro, de Pixinguinha a Jacob do Bandolim, e entenda por que esse repertório é vital para tocar nas rodas.
Todo chorão sabe que existe um repertório que não tem desculpa: peças que qualquer músico do gênero precisa conhecer, carregar de memória e estar pronto para tocar quando alguém iniciar a introdução. Não porque alguma instituição determinou, mas porque essas obras sobreviveram ao tempo, voltam sempre nas rodas e carregam, cada uma à sua maneira, algo de essencial na linguagem do choro.
Este verbete reúne esse núcleo incontornável, organizado por compositor. O cânone do choro é amplo e nenhuma lista é definitiva, mas sobre essas peças há um consenso prático: quem as conhece está dentro da tradição.
Por que esse repertório importa
O choro é, antes de tudo, uma prática oral e coletiva. Ao contrário de tradições em que o músico toca o que está escrito na estante, o chorão carrega o repertório na memória e o reconhece de imediato quando outro músico inicia a introdução. Esse reconhecimento compartilhado, saber de cor os temas, as modulações, o caráter de cada peça, é o que torna possível a roda de choro sem ensaio prévio.
Estudar as obras fundamentais é, portanto, estudar a língua comum do gênero. Cada peça contém, em miniatura, um aspecto técnico ou estético que o choro desenvolveu ao longo de sua história: a articulação rítmica do repertório pioneiro em Callado, a passagem entre salão e música popular em Chiquinha Gonzaga, a sofisticação pianística de Nazareth, a difusão pública do gênero em Anacleto, o lirismo contrapontístico de Pixinguinha, o virtuosismo de Waldir Azevedo, a assinatura composicional de Jacob do Bandolim.
As obras por compositor
Chiquinha Gonzaga (1847–1935)
Compositora prolífica e figura central na transição entre o salão e a música popular
Chiquinha Gonzaga foi pioneira ao reger uma orquestra popular no Brasil e uma das compositoras mais importantes da música brasileira de seu tempo. Suas obras ajudam a mostrar como as danças urbanas do século XIX foram sendo retrabalhadas até adquirir um sotaque cada vez mais brasileiro.
Obras fundamentais:
- Corta Jaca (também conhecida como Gaúcho) — Tango brasileiro de enorme circulação, mais tarde associado também ao universo do maxixe. Ficou célebre fora dos círculos musicais especializados ao ser executada no Palácio do Catete em 1914, episódio que provocou controvérsia política e ajudou a consolidar a notoriedade da obra.
Joaquim Callado (1848–1880)
Flautista, professor e o primeiro grande organizador da prática chorística
Callado foi a figura decisiva na formação do conjunto que ficaria conhecido como Choro Carioca, associado à combinação de flauta, dois violões e cavaquinho. Sua atuação como instrumentista, professor e organizador de conjuntos está na origem da consolidação do choro como prática urbana identificável.
Obras fundamentais:
- Flor Amorosa (c. 1880) — A peça mais conhecida de Callado e uma das melodias mais tocadas nas rodas de choro até hoje. Polca de melodia cantável e forma elegante, é com frequência a primeira obra de Callado que um chorão aprende. Sua permanência no repertório vivo mostra a força de sua invenção melódica.
Ernesto Nazareth (1863–1934)
Grande referência do choro pianístico e da linguagem urbana brasileira de fins do século XIX e início do XX
Nazareth levou a escrita para piano de matriz popular brasileira a um grau incomum de refinamento, sem perder o sotaque urbano que o aproxima do universo do choro. Sua música ocupa uma posição singular: dialoga com o salão, com a dança, com o piano de concerto e, ao mesmo tempo, alimenta diretamente o vocabulário melódico e harmônico dos chorões. Villa-Lobos o descreveu como compositor “genuinamente nacional”, e a historiografia registra também a conhecida discussão em torno da relação entre Brejeiro e material temático aproveitado por Darius Milhaud em Scaramouche.
Obras fundamentais:
Brejeiro (1893) — Um dos primeiros grandes sucessos de Nazareth. Tango brasileiro de caráter vivo e espirituoso, tornou-se peça central do repertório pianístico ligado ao choro e uma de suas obras mais antigas ainda ativas nas rodas.
Odeon (1909) — Associado ao Cine-Odeon, onde Nazareth trabalhou como pianista. É uma de suas peças mais equilibradas: melodia imediata, desenho formal seguro e uma harmonia que, sem soar pesada, amplia a ambição expressiva do gênero.
Apanhei-te, Cavaquinho (1914) — Polca festiva e luminosa, muito conhecida dentro e fora do Brasil. O título carrega o humor típico do ambiente chorístico, e a peça permanece entre as mais reconhecíveis do catálogo de Nazareth.
Tenebroso — Tango de caráter mais sombrio e dramático, distinto do brilho mais frequente de muitas obras de Nazareth. Esse contraste ajuda a revelar a amplitude expressiva de sua escrita.
Escorregando — Peça ágil e deslizante, em que o próprio título parece sugerir o desenho do fraseado e a leveza do gesto pianístico.
Anacleto de Medeiros (1866–1907)
Mestre das bandas e difusor do choro para além dos espaços domésticos
Anacleto de Medeiros teve papel central na circulação pública da música urbana brasileira ao levar esse repertório para o universo das bandas. Sua contribuição foi decisiva para ampliar a presença do choro e de gêneros vizinhos para além dos saraus e reuniões informais, fazendo a música ganhar outra escala social e sonora.
Obras fundamentais:
Três Estrelinhas — Polca de enorme popularidade, uma das peças mais duradouras do repertório do período. A clareza melódica, o impulso dançante e a solidez formal explicam por que continua viva entre músicos de diferentes níveis.
O Boêmio — Maxixe de forte apelo expressivo, associado ao universo boêmio da vida musical carioca do final do século XIX.
Zequinha de Abreu (1880–1935)
Autor de uma das músicas brasileiras de maior circulação internacional
Zequinha de Abreu compôs uma obra de alcance extraordinário: uma peça nascida do ambiente urbano e interiorano paulista que ultrapassou o repertório das rodas e se converteu em símbolo internacional da música brasileira.
Obra fundamental:
- Tico-tico no Fubá (1917) — Choro-polca de virtuosismo exigente e melodia imediata. Com gravações desde o início do século XX e enorme circulação internacional, inclusive em filmes americanos dos anos 1940, tornou-se uma das músicas brasileiras mais gravadas e regravadas do mundo. Sua fama planetária nunca a afastou de sua condição de peça essencial do repertório chorístico.
João Pernambuco (1883–1947)
Pioneiro do violão brasileiro e um dos primeiros grandes solistas do instrumento no choro
João Pernambuco foi decisivo para afirmar o violão como instrumento de projeção solística numa tradição em que, por muito tempo, a primazia melódica esteve concentrada na flauta. Seu papel histórico vai além do repertório do choro em sentido estrito: ele ajuda a fundar uma ideia de violão brasileiro.
Obra fundamental:
- Sons de Carrilhões — A peça mais célebre de João Pernambuco para violão solo e uma das obras mais importantes do repertório brasileiro do instrumento. Construída com recursos de campanelas e ressonâncias sobre cordas soltas, cria uma textura cintilante que justifica plenamente o título.
Bonfiglio de Oliveira (1891–1940)
Flautista e compositor ligado ao choro da primeira metade do século XX
Bonfiglio de Oliveira é menos comentado do que outros nomes centrais do gênero, mas permanece presente no repertório vivo das rodas. Flautista, compositor e figura importante do ambiente carioca da primeira metade do século XX, deixou peças de grande circulação entre os chorões.
Obras fundamentais:
O Bom Filho à Casa Torna — Choro de caráter festivo e título espirituoso, construído sobre um jogo de reconhecimento imediato que ajudou a fixá-lo no repertório das rodas.
Flamengo — Choro de melodia viva e impulso comunicativo, uma das obras que garantiram a permanência de Bonfiglio no repertório tradicional.
Nelson Alves (1895–1960)
Compositor ligado ao ambiente do choro carioca da primeira metade do século XX
Nelson Alves pertence ao núcleo de compositores que circularam no mesmo universo dos grandes chorões do século XX e cuja produção continuou viva, mesmo sem sempre receber a mesma atenção biográfica dos nomes mais consagrados.
Obra fundamental:
- Mistura e Manda — Choro de caráter movimentado e comunicativo, cujo título condensa bem o espírito de confluência e vitalidade do gênero. A peça permanece entre as mais reconhecíveis do repertório tradicional.
Álvaro Sandim
Compositor preservado sobretudo pelo repertório vivo das rodas
Álvaro Sandim é um daqueles autores cuja permanência histórica se deve menos à fortuna crítica do que à força prática de uma obra que nunca saiu completamente de circulação.
Obra fundamental:
- Flor do Abacate — Choro de melodia cantável e fraseado natural, valorizado pelos músicos pelo equilíbrio entre leveza dançante e lirismo. A permanência da peça nas rodas é o principal testemunho de sua força musical.
Pixinguinha (1897–1973)
Figura central da história do choro, compositor, arranjador e instrumentista de influência incomparável
Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha, ocupa o centro da tradição do choro. Sua obra reúne herança melódica, refinamento harmônico, invenção rítmica e um sentido de contraponto que redefiniu o gênero. As gravações com Benedito Lacerda permanecem como um dos pontos mais altos do choro instrumental gravado.
Obras fundamentais:
Carinhoso (comp. c. 1917, gravado instrumentalmente em 1928) — A obra mais famosa de Pixinguinha e uma das melodias mais célebres da música brasileira. A letra de João de Barro, em 1937, ampliou ainda mais seu alcance, mas a versão instrumental permanece central para o universo do choro.
Lamentos — Choro de lirismo intenso e desenho melódico de rara expressividade. É uma das peças que melhor mostram como Pixinguinha expandiu a profundidade emocional do gênero.
Um a Zero (1×0) (1919) — Choro de caráter jubiloso, tradicionalmente associado a celebração esportiva. Mostra o lado mais afirmativo e festivo do compositor.
Naquele Tempo — Choro de nostalgia contida e altíssima elaboração melódica, frequentemente citado entre as formas mais acabadas do gênero.
Ingênuo — Peça delicada, de fraseado limpo e caráter quase transparente, uma pequena lição de contenção expressiva.
Cochichando — Choro de intimidade e sutileza, representativo do lado mais recolhido do compositor.
Cheguei (com Benedito Lacerda) — Choro animado ligado à fase das parcerias e gravações históricas com Benedito Lacerda, núcleo essencial da linguagem instrumental do choro clássico.
Sofres Porque Queres · Ainda Me Recordo · Vou Vivendo · Ele e Eu — Obras que completam o retrato de um compositor capaz de trabalhar com a mesma segurança o humor e a melancolia, a celebração e a memória.
Nota: Rosa é uma obra central de Pixinguinha, mas pertence ao universo da valsa, não ao do choro em sentido estrito, e por isso não entra aqui como obra fundamental do repertório chorístico.
Waldir Azevedo (1923–1980)
O grande virtuose do cavaquinho e responsável por redefinir o papel solístico do instrumento
Waldir Azevedo transformou o cavaquinho em instrumento de projeção solística plena. Seu trabalho deslocou o instrumento de uma função majoritariamente acompanhante para uma posição de brilho técnico e afirmação melódica, com enorme impacto sobre o repertório e sobre a imaginação do público.
Obras fundamentais:
Brasileirinho (1949) — Um dos choros mais executados e gravados de todos os tempos. Sua difusão extraordinária não reduziu sua exigência técnica: ao contrário, a peça se tornou emblema do virtuosismo do cavaquinho e da identidade sonora do choro.
Pedacinhos do Céu — Choro de grande beleza melódica e caráter lírico, prova de que Waldir ia muito além do brilho percussivo e veloz com que às vezes é simplificado.
Delicado — Baião de refinamento melódico, muito associado ao nome de Waldir Azevedo. Embora não seja choro em sentido estrito, sua presença histórica no repertório instrumental brasileiro é tão forte que costuma aparecer ao lado das peças centrais do compositor.
Jacob do Bandolim (1918–1969)
O maior bandolinista da história do choro e um compositor de voz imediatamente reconhecível
Jacob Pick Bittencourt, o Jacob do Bandolim, foi ao mesmo tempo intérprete supremo e compositor singular. Seu perfeccionismo, sua disciplina estética e sua recusa de qualquer solução fácil estão impressos em obras que conservam uma identidade própria inconfundível dentro do repertório do choro.
Obras fundamentais:
Noites Cariocas — O choro mais conhecido de Jacob, de arco melódico amplo e atmosfera noturna, hoje quase sinônimo do refinamento carioca do gênero.
Vibrações — Peça animada e virtuosística, muito valorizada pelos bandolinistas pelo impacto que produz no conjunto e pela energia de sua escrita.
Doce de Coco — Choro lírico, de doçura controlada e invenção melódica delicada, sem qualquer excesso sentimental.
Assanhado — Obra irrequieta, viva e agitada, perfeitamente coerente com o título. Uma das favoritas das rodas.
O Voo da Mosca — Peça de virtuosismo extremo, presença obrigatória quando se quer medir agilidade, precisão e domínio do bandolim.
Receita de Samba — Obra que explicita o diálogo do compositor com o samba e ilumina a fronteira viva entre os gêneros.
Bole-bole — Choro festivo e dançante, representativo do lado mais direto e comunicativo de Jacob.
Como abordar este repertório
O estudo das obras fundamentais do choro segue uma lógica diferente da música erudita de concerto: não há uma ordem universal de dificuldade nem uma progressão formal obrigatória. O caminho mais eficaz, segundo a tradição do gênero, costuma ser este:
- Começar pelo que soa familiar — escolher as peças já ouvidas muitas vezes, cujas melodias já entraram no corpo e no ouvido.
- Aprender de ouvido antes de ler a partitura — o choro é uma tradição oral; a partitura é apoio, não ponto de partida.
- Aprender a acompanhar antes de solar — frequentar rodas como acompanhador amplia o repertório passivo com muito mais rapidez do que estudar apenas a linha do solista.
- Aprofundar por compositor — depois de tocar obras de vários autores, mergulhar num único compositor permite perceber a coerência interna que liga uma peça à outra.
Conexões dentro da Choropedia
Compositores: → Joaquim Callado · Chiquinha Gonzaga · Ernesto Nazareth · Pixinguinha · Jacob do Bandolim · Waldir Azevedo
Conceitos relacionados: → Roda de Choro · Regional de Choro · Síncopa · Forma Rondó · Baixaria
Instrumentos: → Cavaquinho · Bandolim · Violão de 7 Cordas · Flauta · Pandeiro
Fontes
- CAZES, Henrique. Choro: do Quintal ao Municipal. São Paulo: Editora 34, 1998.
- PINTO, Alexandre Gonçalves. O Choro: reminiscências dos chorões antigos. Rio de Janeiro, 1936 (reed. FUNARTE, 1978).
- CABRAL, Sérgio. Pixinguinha: vida e obra. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1978.
- DINIZ, André. Joaquim Callado: o pai do choro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
- SÈVE, Mário. Vocabulário do Choro: estudos e composições. Rio de Janeiro: Lumiar, 1999.
- Enciclopédia Itaú Cultural — Verbetes individuais de compositores e obras.
- Musica Brasilis — acervo de partituras e fichas sobre repertório brasileiro.
- Instituto Moreira Salles — acervo digital de partituras e gravações históricas.
- Casa do Choro — acervo digital de compositores e obras.
- Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — verbetes biográficos e discográficos.
Nota: datas de composição, primeiras gravações e classificação de gênero nem sempre são inteiramente estáveis no repertório do choro. Em alguns casos, há divergências entre tradição oral, prática corrente das rodas e catalogação musicológica. Nos casos de Álvaro Sandim e de parte do repertório menos documentado, ainda há espaço para aprofundamento biográfico e historiográfico.
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