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Mulheres no choro: 10 nomes essenciais da história à atualidade
Conheça 10 mulheres fundamentais no choro, de Chiquinha Gonzaga às contemporâneas, com suas contribuições como instrumentistas, compositoras e educadoras.

Dez nomes que ajudam a entender a participação feminina no choro, do pioneirismo de Chiquinha Gonzaga à renovação contemporânea, passando por instrumento, composição, pedagogia e circulação internacional.
Falar de choro ainda costuma significar repetir uma linhagem narrada quase sempre a partir de nomes masculinos. Mas essa história é incompleta. Desde o século XIX, mulheres participam da construção do gênero como compositoras, instrumentistas, intérpretes, educadoras, articuladoras de cena e também como responsáveis por sua circulação para além do Brasil. Nos últimos anos, iniciativas como a Cronologia Feminina do Choro, apresentada pelo Instituto Moreira Salles, ajudaram a recolocar esse tema em evidência, mostrando que a presença feminina no choro não é exceção lateral, mas parte constitutiva de sua história.
Este artigo não pretende estabelecer um ranking fechado nem sugerir que esses dez nomes ocupem exatamente o mesmo lugar histórico. O que ele propõe é um recorte: dez presenças que ajudam a entender diferentes dimensões da participação feminina no choro, do pioneirismo à prática instrumental, da formação à circulação internacional, da memória à renovação contemporânea.
Chiquinha Gonzaga
Qualquer texto sério sobre mulheres no choro precisa começar por Chiquinha Gonzaga. Sua trajetória ultrapassa em muito o papel de personagem simbólica. A Casa do Choro registra sua atuação profissional como pianista do conjunto Choro Carioca, ligado a Joaquim Callado, além do sucesso precoce de obras como Atraente e de sua posição como a primeira maestrina brasileira. O IMS, por sua vez, a recoloca entre as compositoras centrais de uma cronologia feminina do gênero. Em Chiquinha, não se encontra apenas uma pioneira feminina, mas uma figura decisiva para o próprio processo de profissionalização da música popular no Brasil.
Luciana Rabello
Se Chiquinha ajuda a abrir a história, Luciana Rabello é um de seus grandes eixos de continuidade. Cavaquinista, compositora e produtora, ela aparece tanto na Casa do Choro quanto no Dicionário Cravo Albin como herdeira direta da tradição de Canhoto e Jonas, profissional do instrumento desde 1976 e uma das figuras mais importantes da institucionalização contemporânea do choro. Seu nome se liga não apenas à performance, mas à construção de infraestrutura cultural duradoura, especialmente por meio da Acari Records e da Escola Portátil de Música. Em termos de transmissão, gravação e organização de repertório, Luciana é um nome estrutural.
Nilze Carvalho
Nilze Carvalho representa uma presença feminina de grande visibilidade na cena do choro e do samba, com uma trajetória que começa cedo e se projeta por décadas. O Dicionário Cravo Albin registra que, em 1981, ela gravou o primeiro disco da série Choro de menina, seguido por novos volumes nos anos seguintes. Já o IMS a inclui entre as compositoras e instrumentistas contemporâneas lembradas em programas dedicados à cronologia feminina do choro. Nilze é importante porque une domínio instrumental, presença de palco e permanência, ocupando um espaço que durante muito tempo foi negado ou reduzido às mulheres dentro da música popular instrumental.
Daniela Spielmann
Nos sopros, Daniela Spielmann é um nome central para pensar a presença feminina no choro contemporâneo. O Dicionário Cravo Albin a apresenta como saxofonista, flautista, arranjadora e pianista, e sua trajetória passa por projetos relevantes como Rabo de Lagartixa, Mulheres em Pixinguinha, o disco Choros, por que sax? e, mais recentemente, um tributo a Jacob do Bandolim ao lado de Sheila Zagury. Daniela ajuda a desmontar uma imagem estreita do choro como universo exclusivamente masculino também em seus instrumentos solistas e em seus espaços de invenção tímbrica.
Ignez Perdigão
Ignez Perdigão ocupa um lugar importante nessa constelação por reunir composição, multi-instrumentismo e formação musical. O Dicionário Cravo Albin registra seus estudos com nomes como Jodacil Damasceno, Koellreutter, João Pedro Borges e Marcelo Bernardes, além de sua atuação com o Quinteto Casa do Caboclo e, a partir de 2000, com o grupo Choro na Feira. Sua presença amplia o retrato das mulheres no choro para além da figura da intérprete em destaque, mostrando uma atuação ligada também à tessitura interna da cena, ao trabalho continuado e à circulação entre repertórios, instrumentos e funções musicais.
Clarice Magalhães
A pandeirista, cantora e compositora Clarice Magalhães é outro nome importante, especialmente por evidenciar a presença feminina na percussão do choro. Segundo o Dicionário Cravo Albin, ela integrou o Choro na Feira, com o qual lançou Na cadência do samba e realizou apresentações nos Estados Unidos em 2001. Sua trajetória também passa pelo diálogo entre choro e samba, mas sem perder o chão instrumental que a insere claramente no universo chorão. Clarice é uma lembrança necessária de que a história do gênero também se faz na pulsação, no acompanhamento e na escuta coletiva.
Naomi Kumamoto
A flautista japonesa Naomi Kumamoto introduz uma dimensão decisiva: a da circulação internacional do choro. A Casa do Choro relata que ela vinha da música erudita no Japão, aproximou-se do gênero após conhecer Maurício Carrilho em 2000, lançou em 2003 o álbum Naomi Vai pro Rio pela Acari Records e se mudou para o Rio de Janeiro em 2004. O próprio acervo da Casa do Choro registra ainda diversas obras suas em catálogo. Naomi é importante porque mostra que o choro não é apenas tradição local preservada, mas linguagem viva, capaz de formar intérpretes, compositoras e mediadoras culturais fora do Brasil.
Choro das 3
Embora não seja um nome individual, Choro das 3 merece entrar neste recorte porque o grupo se tornou uma referência rara de protagonismo feminino continuado no choro instrumental. O trio formado pelas irmãs Corina, Elisa e Lia Meyer Ferreira acumula mais de duas décadas de trajetória e consolidou uma presença nacional e internacional. A relevância do grupo não está apenas em sua qualidade musical, mas no fato de ter tornado visível, de forma duradoura, um lugar feminino no choro que não depende de excepcionalidade isolada, e sim de projeto artístico consistente.
Laila Aurore
Entre os nomes mais recentes, Laila Aurore aparece como sinal claro de renovação. O projeto Memória do Cavaquinho Brasileiro a apresenta como cavaquinista, compositora, arranjadora e educadora, além de fundadora do Chora – Mulheres na Roda, iniciativa voltada ao aprendizado da linguagem do choro e à ampliação da presença feminina na cena. O IMS também a inclui entre as compositoras contemporâneas lembradas em sua cronologia feminina do gênero. Laila entra aqui não apenas por sua atuação artística, mas porque encarna uma passagem importante: a presença feminina no choro deixa de ser apenas tema de recuperação histórica e passa a ser também ação organizada no presente.
Anat Cohen
Anat Cohen entra neste texto como ponte internacional. Clarinetista e saxofonista reconhecida no jazz, ela mantém uma relação consistente com a música brasileira e com o choro, documentada em sua discografia oficial, que inclui o álbum Nosso Tempo com o Choro Ensemble e trabalhos com o Trio Brasileiro, como Alegria da Casa e Rosa dos Ventos. Seu caso não deve ser lido como pertencimento ao núcleo histórico brasileiro do gênero, mas como prova da potência do choro como linguagem transnacional, capaz de dialogar com grandes instrumentistas de outras tradições sem perder sua identidade.
Para além da exceção
Talvez o ponto principal deste recorte seja justamente este: mulheres no choro não formam um apêndice curioso da história do gênero. Elas estão na origem, na continuidade, na pedagogia, na composição, no palco, na gravação, na roda e na renovação. Algumas dessas trajetórias são mais conhecidas, outras ainda precisam de maior visibilidade. Mas todas ajudam a corrigir uma distorção recorrente: a ideia de que o choro teria sido feito quase exclusivamente por homens e apenas ocasionalmente atravessado por presenças femininas. A documentação disponível em instituições como a Casa do Choro, o IMS e o Dicionário Cravo Albin mostra justamente o contrário: a história é mais ampla, mais rica e mais complexa do que o cânone repetido costuma admitir.
Fontes
- Instituto Casa do Choro — Verbetes biográficos de Chiquinha Gonzaga, Luciana Rabello e Naomi Kumamoto, além de catálogo de obras. Disponível em: casadochoro.com.br
- Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — Verbetes de Luciana Rabello, Nilze Carvalho, Daniela Spielmann, Ignez Perdigão e Clarice Magalhães. Disponível em: dicionariompb.com.br
- Instituto Moreira Salles — Programa Cronologia Feminina do Choro e acervo de Chiquinha Gonzaga. Disponível em: ims.com.br
- Memória do Cavaquinho Brasileiro — Verbete de Laila Aurore e informações sobre o projeto Chora – Mulheres na Roda.
- Anat Cohen — Biografia e discografia oficiais, incluindo Nosso Tempo e trabalhos com o Trio Brasileiro.
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